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25/11/2009

O 1º presidente da UE se coloca como um mediador diante dos conflitos mais complexos

El País
Ricardo Martínez de Rituerto
Em Bruxelas
Herman Van Rompuy (pronuncia-se Fán Rompói), recém-eleito aos 62 anos presidente permanente da União Europeia, é um homem decidido, de poucas mas definitivas palavras, que marca claramente o terreno, com um ponto de humor quando necessário. "O senso de humor ajuda muito", diz. "Ajuda a relativizar os problemas." Também é um sinal da inteligência que ninguém nega que ele possui, reforçada não poucas vezes com um destilado senso de ironia e mordacidade.

O novo presidente dos presidentes e primeiros-ministros da União Europeia é um homem cerebral, de personalidade multifacetada, paradoxal, relativista e cínico. Não disse aquilo de que "é preciso guardar os princípios para as grandes ocasiões"? Um político puro e duro, não da espécie traiçoeira que tanto medra na Espanha, mas da versão culta e maquiavélica que ocorre em outras latitudes. Educado nos jesuítas, licenciado em filosofia, doutorado em economia, diz fazer questão de que o chamem de jesuítico. O que para outros é sinônimo de hipocrisia e duplicidade, para ele o é de culto à razão.

Intelectual católico, Van Rompuy publicou o livro "O Cristianismo", tem um pensamento moderno e é um leitor voraz de amplo espectro, que admira a integridade de Albert Camus ou de Alexander Soljenitsin e se recria igualmente com Jacques-Bénigne Bossuet ou com André Malraux, com o campeão de vendas plácido Eric-Emmanuel Schmitt ou com o prosaico Alan Greenspan. Goza com Jean-Marie Gustave Le Clézio e suas explorações de outros mundos que estão neste, talvez como um modo de escapar do absurdo e do ruído cotidianos. Os que o conhecem o consideram um misantropo frustrado e espiritual até a medula, que costuma se retirar três ou quatro vezes por ano para um mosteiro.
  • Thierry Roge/Reuters

    Herman Van Rompuy, recém-eleito aos 62 anos presidente permanente da União Europeia


"A política não é tudo na vida", disse em mais de uma ocasião. "Para mim, as questões sobre a vida e a morte são mais importantes que a política." Uma boa leitura, uma cerveja, um pouco de futebol com o Anderlecht no meio, um pouco de ciclismo e um jardim lhe bastam para ser feliz.

Provavelmente já os tenha lido, mas a presidência espanhola que começa no próximo 1º de janeiro, no mesmo dia em que Van Rompuy assumirá a presidência permanente do Conselho Europeu, faria um presente perfeito entregando-lhe um "Quixote" e uma antologia dos místicos espanhóis. A vida retirada de frei Luis de León é um retrato das aspirações de Van Rompuy. Mas deveriam ser traduzidos, porque o espanhol não está entre as quatro línguas que ele fala com naturalidade: holandês, francês, inglês e alemão.

Homem político em uma família política (um irmão, também democrata-cristão, como rude nacionalista flamengo; uma irmã vermelha e um filho primogênito ativo nas juventudes do partido), Van Rompuy percorreu por seus passos contados todos os escalões até chegar ao cume, por mais que resistisse a ser primeiro-ministro há quase um ano e o rei tivesse de intervir para forçá-lo a engolir o trago. Ainda no verão passado se perguntava: "Como pude me meter nisto?"

Foi a penitência pelo pecado cometido. Porque santo Van Rompuy não é. Maquiavélico tão pouco, como revela seu próprio rosto de agudo olhar azul e sorriso mefistofélico. Chegou a primeiro-ministro depois de empurrar para o precipício Yves Leterme através do vazamento de uma carta que revelava as supostas pressões do então chefe do governo sobre os juízes relacionados à crise do Fortis, o grande conglomerado bancário belga arrasado pelo marasmo financeiro de 2008.

A justiça acabou por absolver Leterme das acusações de ter assassinado Montesquieu, o que lhe permitiu voltar ao gabinete com a pasta de Relações Exteriores. Agora, se dedica a recuperar a primogenitura governamental pela promoção de Van Rompuy ao cargo europeu. Ambos se aborrecem cordialmente.

A chegada de Leterme, açoite dos francófonos, à cabeça do governo provoca tremores nessa minoria para a qual Van Rompuy foi um bálsamo nos últimos 11 meses, precedidos pelo turbulento ano e meio em que, com Leterme, a Bélgica se afogou no pântano das tensões nacionalistas. De novo Maquiavel. Porque, ao contrário da impressão dominante, Van Rompuy combateu em todas as batalhas pela causa de Flandres e dos neerlandófonos, e só se livrou de disputar a decisiva em torno de Bruxelas por questão de calendário. Vai deixar a chefia de governo justamente quando tinha no horizonte o nó górdio de Bruxelas-Hal-Vilvoorde, a mãe de todos os problemas da identidade belga.

Seu talento para sair laureado da envenenada luta entre neerlandófonos e francófonos será posto à prova no novo estádio europeu dos 27, cada um "com sua história, sua cultura e seu modo de fazer as coisas", como disse em seu fino discurso da última quinta-feira. "Cada país deve sair vencedor da negociação. Uma negociação com vencidos é sempre uma má negociação (...) Escutarei a todos e cuidarei para que as deliberações deem resultados para todos." Um facilitador, não um criador. O método comunitário ou do mínimo denominador comum goza de boa saúde. É o que a União escolheu para os próximos dois anos e meio.

"Espero com impaciência sua primeira ligação." A primeira ligação de Barack Obama. Van Rompuy foi o primeiro a responder à pergunta de para quem os EUA poderiam ligar quando quisessem falar com a Europa. A questão foi dirigida a todos os presentes: o presidente de turno da União, o presidente da Comissão e a neófita em assuntos mundiais, a Alta Representante para Política Externa, além do próprio presidente permanente. É a famosa pergunta de Henry Kissinger que sempre obcecou a Europa de vozes e cabeças sempre cambiantes. A pergunta provocou breves instantes de silêncio incômodo entre os quatro interpelados, que Van Rompuy rompeu sem rodeios: "Espero com impaciência sua primeira ligação".

Sua resposta foi recebida com risos pelo auditório, antes que José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão, interviesse para explicar de maneira prolixa como fica o novo quadro e voltasse a colocar as coisas onde deviam estar: no cenário internacional a presença da Europa continuará sem ser claramente compreensível. E isso apesar de que "em matéria de política externa, o presidente permanente representará a União em seu nível e em sua qualidade", como acaba de lembrar em seu discurso de posse o flamejante Van Rompuy.

Se alguém tinha dúvidas, o presidente eleito arrematou: "Portanto, estarei presente nas reuniões de cúpula com nossos parceiros no mundo".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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