UOL Notícias Internacional
 

25/11/2009

Por que Israel ganha a batalha

El País
Miguel Ángel Bastenier
Nos anos 20 e 30 do século passado, a agudeza britânica para a frase garantia que a Grande Guerra, mais que nas trincheiras de Flandres, havia sido ganha nos campos de jogo de Eton. Israel, embora de maneira muito mais prosaica, também trabalha para ganhar antes, durante e depois da batalha o pugilato pela opinião do mundo ocidental. Um exemplo é a Escola Internacional para o Estudo do Holocausto, que sem descanso convida jornalistas, acadêmicos e docentes, sobretudo europeus, para que ninguém ouse esquecer.

A iniciativa, uma dentre muitas e realizada por excelentes especialistas, é a ponta do iceberg de uma indústria cujo instrumento é a memória e sua matéria-prima, a dor que engendra a compaixão e persegue a formação de um sentimento favorável às vítimas e ao Estado que melhor as representa. A instituição foi criada em 1993, mas através do livro, da imprensa, da atividade universitária ou da crua propaganda, essa indústria é apenas posterior à fundação de Israel em 1948, e seu objetivo de fundo, recordar a um público ilustrado que 6 milhões de judeus foram assassinados na Segunda Guerra, assim como proclamar que, embora tenha havido muitos genocídios, Holocausto só pode haver um; uma espécie de "copyright" ou patente sobre o horror extremo.

Ahmadinejad diz que palestinos não têm culpa na morte de judeus na 2º Guerra

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, afirmou nesta segunda-feira, durante sua visita ao Brasil, que os palestinos não são culpados pelas mortes de judeus ocorridas na Segunda Guerra Mundial, sugerindo que por isso eles não deveriam arcar com o ônus da criação do Estado de Israel. Em uma coletiva de imprensa realizada em Brasília, o presidente iraniano citou "60 milhões" de pessoas mortas na Segunda Guerra Mundial.



O estudo do Holocausto é, de saída, uma ferramenta para a construção da nacionalidade; os próprios escolares israelenses passam por um período de imersão no conhecimento desse passado próximo que lhes recorda quem são e de onde vêm. A ironia, entretanto, é que os mesmos que transmitem a doutrina da recordação negam que a criação de Israel se deva ao Holocausto, como consequência do sentimento de culpa que gerou a divulgação do massacre industrializado, rejeitando assim uma origem tão escabrosa quanto contingente. Mas deve-se dizer que, em um país com tal densidade de intelectuais por metro quadrado como Israel, nem todos aprovam esse método de educação sentimental; assim, nas fileiras do partido Meretz, a autêntica esquerda sionista, há quem pense que não é a melhor idéia cinzelar a juventude em tão macabra evocação.

O segundo objetivo é o de recordar aos culpados sua culpa; o que significa a Alemanha, mas também a Polônia antissemita; o ustashismo croata; o regime de Vichy; o silêncio do Vaticano; ou o mandato britânico na Palestina, que pelo visto deveria ter favorecido ainda mais a instalação do Yishuv, a comunidade judia anterior à criação de Israel. Essa é uma culpa que não se extingue e para a qual nunca haverá ressarcimento completo.

E pelo menos um terceiro estabelece uma sutil conexão com o conflito árabe-israelense. Embora algum instrutor mal avisado possa em sua efervescência salientar o óbvio, que os territórios ocupados não são Auschwitz, não é essa a colocação ideal; o que a doutrina busca é que o usuário formule essa vinculação por conta própria, que oriente sua opinião sobre o problema com os fétidos ventos daquela tragédia.

O que tem de opor a isto a parte palestina? Um presidente, Mahmud Abbas, que diz que renuncia a renovar o mandato para, ato seguido, permitir ou alentar súplicas e concentrações populares rogando-lhe que não abandone; que aceita mansamente que as eleições previstas para janeiro não se realizem e que, entretanto, manteria a direção da OLP e da Fatah, isto é, o poder real; que não queria por pressões dos EUA - os de Obama - e Israel levar ao Conselho de Segurança as conclusões do Relatório Goldstone, que acusa o Estado sionista e, em menor medida, o Hamas de crimes atrozes na última devastação de Gaza, e que só diante do escândalo por isso promovido mudou de opinião; e, de fundo, sempre a incapacidade do movimento terrorista do Hamas e da Autoridade Palestina de formar um Executivo unido que, pelo menos, não permita a Israel afirmar que não há interlocutor para a paz.

É legítimo que o Estado sionista proclame a imprescritibilidade do Holocausto, e odioso que no mundo árabe e islâmico haja quem negue que houve uma cadeia de produção para o massacre; mas que dessa memória se extraia uma rentabilidade política contra quem nada teve a ver com isso, o povo palestino, só é mérito de uma hábil "realpolitik". Israel também quer ganhar essa batalha.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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