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26/11/2009

Na Venezuela, tratamento médico à luz de celulares

El País
M. Primera
Em Caracas
O que Reina Nieves mais deseja, aos 75 anos, é que lhe cortem a perna de uma vez por todas. A direita, que a diabetes consumiu. Quer isso e depois ir para casa. Porque já nem lembra exatamente quanto esperou desde que os médicos disseram que não havia outro remédio para seu problema senão a amputação.

"Filho... há quanto tempo estou aqui?", ela pergunta a um de seus filhos. "Dois meses e sete dias, mamãe." "Escreva aí, senhorita, que estou há dois meses e sete dias nesta cama, esperando por uma operação."

Desde que foi internada no Hospital José Ignacio Baldó, no bairro El Algodonal, de Caracas, Reina Nieves teve duas idas fracassadas à sala de cirurgia: há 15 dias a operação foi suspensa por falta de anestesista; e há uma semana porque não havia eletrodos, "essas ventosas que põem no nosso peito para controlar o ritmo cardíaco", explica. Às vezes também não há seringas. Ou água. Ou mesmo eletricidade.

"Uma noite destas a enfermeira teve de se iluminar com a luz do celular para poder lhe dar o remédio", conta o filho de Reina. Mas ele sabe que sua mãe, afinal, teve melhor sorte que María Chacón, a paciente que estavam operando de um abscesso abdominal em 1º de setembro quando houve um corte de eletricidade no centro cirúrgico e em todo o edifício.

Acontece o mesmo nos 15 hospitais da capital venezuelana que dependem do Ministério do Poder Popular para a Saúde: faltam equipamentos, salas de cirurgia em pleno funcionamento e pessoal médico, e sobram os doentes.

"O paciente mais antigo de trauma que levante a mão!", grita a enfermeira na porta da sala de traumatologia para homens, no quarto andar do Hospital Leopoldo Manrique Terreno, no bairro de Coche em Caracas. Ronald Manso responde: "Sou eu, que estou há um mês e 18 dias esperando que me tirem uns pregos da cadeira". Seus vizinhos de cama deixam de ver a televisão para disputar um lugar no ranking da espera: "Eu vou depois de você, porque estou aqui há 20 dias e não me operaram", replica um deles; "O que você está dizendo, se está aqui há só dez dias?", atiram todos ao que chamam de "o Novo".

Uma das razões pelas quais a maioria das cirurgias que não são urgentes é adiada é a falta de anestesistas: muitos deixaram o país e nos hospitais não estão se formando novos especialistas. "Devido à situação em que se encontram os centros de saúde, os cursos de pós-graduação dados nos hospitais foram afetados: não há médicos que queiram cursá-los", explica a doutora María Yanes, presidente da Sociedade Médica do hospital de El Algodonal. A pós-graduação de pediatria que era dada nesse hospital, por exemplo, foi declarada deserta neste ano.

Oscar Salas - médico residente no El Algodonal, 28 anos - calcula que pelo menos 90% de seus companheiros do curso de 2007 na Universidade Central da Venezuela saíram do país. Seu destino predileto é a Espanha: entre 2004 e 2006 mais de 1.200 médicos venezuelanos formalizaram sua inscrição no Colégio Oficial de Médicos. Alguns emigraram por razões econômicas - um médico recém-formado ganha o equivalente a 240 euros (cerca de R$ 620) por mês, no câmbio paralelo -, outros por razões políticas. Ou por segurança: Juraen Aguilar, uma das poucas companheiras de Salas que decidiu ficar trabalhando no hospital de Coche, esteve sob a mira de uma pistola há dez dias para que atendesse com mais rapidez um bandido baleado que chegou a sua sala de emergência.

"E você não pensou em ir embora?" "É claro que pensei. Mas eu gosto do meu país e aguentarei aqui até que não possa mais." "Se todos formos embora, será a desculpa perfeita para trazerem mais médicos cubanos", é a opinião de Salas.

Segundo números oficiais do Ministério da Saúde, hoje trabalham na Venezuela 11.617 médicos cubanos. Todos cuidam de manter a Missão Bairro Adentro: o programa social-bandeira do governo em saúde básica e diagnóstico de doenças, criado em 2003. Nessa "missão" só trabalham 1.548 médicos venezuelanos; os únicos que, segundo o presidente Hugo Chávez, têm um compromisso social que se equipara ao dos camaradas de Cuba.

O presidente-comandante, porém, reconheceu há alguns meses que esse programa também não anda bem. "A Missão Bairro Adentro (...) não tenho dúvidas, é verdade, vem baixando o nível de eficiência que sempre teve. Estamos estudando a questão, os motivos, as causas. (...) Os módulos de atendimento básico da Missão Bairro Adentro não podem acabar sendo o que alguns acabaram sendo, um pequeno ambulatório. Tudo isso temos de revisar a fundo", disse Chávez em 27 de julho passado e depois, em 4 de outubro, prometeu mudanças e remodelações.

Adolfo Delgado, presidente da Sociedade Bolivariana de Medicina e ex-coordenador regional da Missão Bairro Adentro, denunciou as deficiências do programa pelo menos um ano antes que o governo, e em consequência foi despedido. "Desde o ano passado estamos fazendo observações sobre a dotação e a infraestrutura do programa. Entendemos em seu momento que a prioridade era dar recursos para a remodelação dos hospitais, mas agora nos hospitais existem os mesmos problemas", diz Delgado. Chávez terminou lhe dando razão, mas não devolveu seu emprego.

O programa começou a funcionar em 2003 com mais de 6.500 pontos de consultas médicas nos bairros populares do país: em barracas de campanha, em casas, na garagem que algum morador cedia. O serviço dos médicos cubanos chegou aonde não havia estado a medicina local para aliviar febres, controlar a hipertensão, curar gripes. A promessa de então era que cada um desses consultórios improvisados se transformaria em um pequeno ambulatório, mas até 2009 pouco menos de 3.500 conseguiram a "transformação" e mais de 2 mil foram fechados. No entanto, construíram-se quase 500 Centros de Diagnóstico Integral, dotados de equipamentos de oftalmologia, raios x e bioanálises, mas onde não é possível atender emergências, nem mesmo um parto de risco.

Assim como nos hospitais de Caracas, os médicos do Bairro Adentro começaram a se queixar também dos baixos salários: os mesmos 240 euros por oito horas diárias de trabalho. Os cubanos ganham ainda pior: cerca de 90 euros (cerca de R$ 230) por mês, adicionais ao dinheiro que o governo cubano entrega a suas famílias na ilha. "Eles também trabalham em condições muito ruins, vivem amontoados e às vezes lhes dão cestas de comida. O que acontece é que eles cumprem ordens e não se queixam", conta Delgado.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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