UOL Notícias Internacional
 

28/11/2009

Obama está pagando pelas grandes expectativas criadas em torno dele

El País
Francisco G. Basterra
Reunidos em família em torno da mesa com o peru, os americanos comemoram desde quinta-feira, em um longo fim de semana em que o país para, sua principal festa: o "Thanksgiving", ou Dia de Ação de Graças. À natureza que, com a ajuda dos índios nativos, deu uma mão para que os primeiros colonos chegados da Inglaterra no início do século 17 superassem seu primeiro duro inverno. É também o primeiro Thanksgiving de Barack Obama na Casa Branca, e o confronta com um país que, depois de apostar na mudança há exatamente um ano, agora parece que já não tem nada a agradecer ao novo presidente que lhe prometeu uma mudança de rumo radical.

Nos EUA, brancos se afastam de Obama,
e pastores oram por sua morte

Como foi se dilapidando ao longo de apenas 12 meses o impulso inicial do primeiro negro a chegar à presidência? A crise econômica, na qual aparece a luz no fim do túnel mas com a persistência de um alto desemprego, duas guerras abertas que representam uma formidável sangria para os cofres públicos, a crescente percepção da perda do papel hegemônico do país, a incerteza sobre o futuro de uma geração jovem arrasada pela dívida e que já sabe que vive e vai viver pior que seus pais - são elementos de peso para entender por que os americanos não só não lhe dão graças como estão dando as costas para Barack Obama.

Cabe se perguntar se ainda nos resta Obama. Embora não seja para sempre, como Paris, creio que a resposta deve ser afirmativa. Talvez seja um presidente diesel. Diante do modo caubói que atira sem sacar a arma, com o qual Bush ficou famoso, seu estilo é deliberado, baseado na informação e não nas emoções. Lembro como eu esperava em minha infância a chegada anual a minha cidade do Circo Americano, o máximo do espetáculo em um país chato. Vejo Obama como o empresário daquele circo brilhante, com três picadeiros funcionando ao mesmo tempo. O público exige que tudo saia bem. O fracasso não é contemplado, e o risco parece não existir. O presidente manipula ao mesmo tempo trapezistas, engolidores de espadas e feras na tripla arena. O Afeganistão, a mudança climática e a reforma da saúde. Nos três cenários pode estar prestes a demonstrar que seus críticos se equivocam.

Obama prepara o discurso que na terça-feira pronunciará na academia militar de West Point para anunciar sua decisão estratégica sobre o Afeganistão. Espera-se que anuncie uma escalada da guerra, enviando cerca de 30 mil novos soldados, compensando-a com uma data fixa de conclusão e objetivos limitados. Também passará a bola aos aliados europeus, aos quais poderá solicitar até 10 mil soldados a mais.

Os EUA querem liderar na mudança climática e Obama faz uma aposta de risco. Irá à cúpula de Copenhague com uma modesta proposta de redução dos gases do efeito estufa, para a qual ainda não tem a autorização do Senado. E arrasta uma China reticente. Sua visita a Pequim não foi em vão. Sua popularidade acaba de baixar dos 50%. A reforma da saúde é incompreendida pela maioria da população. Falta a Obama um relato compreensível de seu programa transformador. Ele foi capaz de construir essa narrativa durante a campanha eleitoral, mas já não projeta uma visão de conjunto.

Um ano depois, Obama precisa de um novo slogan?

Não. Ele cumpriu as coisas que prometeu durante a campanha. Basta ver as reduções de impostos para a classe média e a ampliação das pesquisas com células-tronco. Outras questões ainda precisam de um pouco de tempo. Mas o presidente Obama não reage de forma exagerada à fúria política do momento e eu acho que isso é bom para o país

O jornal "The Washington Post" escreveu em um editorial que, confrontados com a mudança na qual votaram, os americanos podem ser tão conservadores quanto os Bourbon, os Áustrias e os czares, todos juntos. Obama está pagando a mais pelas grandes expectativas criadas pelos que, depois de sua posse, o compararam com Lincoln. Os programas de televisão, como "Saturday Night Life", que tanto fizeram para enaltecê-lo, hoje zombam do "presidente que não faz nada". A imprensa, acometida de má consciência por seu apoio acrítico a Obama durante a campanha eleitoral, começa a considerá-lo falido. Desvaloriza sua recente viagem à Ásia, apresentando-a como uma baixada de calças diante das autoridades comunistas de Pequim. Conclui, em concordância com os setores mais direitistas, que reflete a decadência dos EUA.

Vivemos em uma época em que exigimos resultados imediatos, inclusive para os assuntos mais complexos. A perversa e permanente urgência do agora. Caberia pedir um pouco de paciência, porque sim, podemos, mas vai demorar. Não é tão fácil como no Circo Americano, onde às vezes também um trapezista escorregava, mas nunca o leão comia o domador.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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