UOL Notícias Internacional
 

02/12/2009

Grupo de Zelaya se desmanchará e maioria acabará reconhecendo governo

El País
Miguel Ángel Bastenier

Entenda a crise em Honduras

  • AP/Reuters


    Por que Manuel Zelaya foi deposto?

    Presidente desde 2006, Manuel Zelaya (esq.) liderou um governo que se afastou gradualmente do Partido Liberal que o elegeu, aproximando-se de governos de esquerda da América Latina, como Cuba e Venezuela. Ao implementar medidas populares, como um drástico aumento do salário mínimo, foi alvo de críticas dos empresários locais e aos poucos perdeu respaldo do Congresso.

    O ponto crítico veio com a proposta de reformar a Constituição, que Zelaya tentou encaminhar sem passar pelo poder legislativo, por meio de um referendo que perguntava aos hondurenhos se eles aprovariam uma mudança constitucional.

    Juízes hondurenhos declararam a iniciativa ilegal, apoiados por uma cláusula legal que proíbe a alteração de certos trechos da Constituição (entre eles a proibição da reeleição presidencial). O exército então anunciou que não daria apoio logístico para o referendo, e Zelaya ordenou que seus aliados organizassem a eleição sem apoio militar.

    A Justiça entendeu que a ação era criminosa e ordenou a prisão do presidente. No dia em que aconteceria o referendo, militares entraram na casa presidencial, tiraram Zelaya da cama e colocaram-no em um avião ainda de pijamas. No mesmo domingo, uma falsa carta de renúncia foi apresentada e poder foi entregue ao próximo na linha sucessória: Roberto Micheletti (dir.), presidente do Congresso

    Por que Zelaya depois se abrigou na embaixada brasileira?

    Após ter sido deposto, Zelaya passou dois meses visitando governos em busca de apoio internacional. Em 21 de setembro, entrou escondido no país e foi para a embaixada brasileira em Honduras, que é considerada território brasileiro - com isso, Zelaya se protegia das ordens de prisão emitidas contra ele em Honduras.

    A intenção do presidente deposto ao voltar para o país era aumentar a pressão por um acordo, e chegou a clamar por protestos entre seus apoiadores desde o prédio da representação diplomática do Brasil. Segundo o governo brasileiro, que classifica Zelaya como "hóspede" e não impõe data para sua saída, a embaixada não tinha conhecimento dos planos do presidente deposto e não colaborou com seu retorno

Foi a apoteose da democracia; o caso que reconciliava a todos os que são contra os golpes de Estado, ou pelo menos os que dão outros. Honduras foi um festival do qual só os golpistas estavam ausentes. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, e o resto da América Latina; o presidente americano, Barack Obama, e a União Europeia condenavam o golpe militar com a derrubada de Manuel Zelaya em 28 de junho passado. Roberto Micheletti, do Partido Liberal como o presidente, havia convocado o levante militar e usurpava seu posto interinamente. Mas a associação de amigos de Zelaya havia se enfraquecido nas últimas semanas até se desintegrar por causa das eleições presidenciais do domingo 29, nas quais foi eleito Porfirio Lobo, do Partido Nacional, mas tão distante politicamente do presidente quanto o resto do estabelecimento de Honduras. E no próprio centro da explosão desse falso consenso se abria uma brecha entre outros dois supostos amigos: Brasil e EUA.

O objetivo de tão vasta legião era restabelecer Zelaya no poder, um homem da direita profunda requalificado, no entanto, como chavista, que pretendia reformar a Constituição para permitir a reeleição presidencial. O mínimo denominador comum desse zelayismo improvisado era defender a democracia desautorizando o golpe, mas sob os desígnios dos principais atores revelavam-se graves diferenças.

Washington admitia que Zelaya recuperasse o cargo e o transferisse democraticamente ao novo presidente em janeiro, o que, como em nenhum caso teria sido partidário de Chávez, fecharia bem as contas. O Brasil, em cuja embaixada Zelaya continua asilado desde 21 de setembro, exigia que o presidente fosse reinstalado o quanto antes, embora estivesse de acordo em que não aumentasse o plantel de chavistas. E a Venezuela, que tinha engendrado o regresso de Zelaya metendo-o em jogada magistral na embaixada brasileira, se conformava em criar o maior múltiplo comum de dificuldades para Washington e Brasília, tudo o que se parece bastante com o que está acontecendo.

Micheletti, porém, tinha seus próprios planos, e manobrava para que Zelaya recuperasse a presidência depois de realizadas as eleições, de forma que sua reposição por apenas alguns dias deixasse claro quem foi o vencedor da crise. O presidente legítimo, ao comprovar que seu regresso ao poder seria visto e não visto, optou por declarar nulas as eleições, como também fez a Venezuela ladeada pelo suspeitos habituais - Equador, Bolívia e Nicarágua; em um segundo círculo, Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile; e no último anel exterior Espanha e a UE.

Obama, com outros vespeiros nos quais meter a cabeça, aprovava por sua vez as eleições, arrastando consigo Panamá, Peru, Costa Rica e Colômbia; o México, como de costume, olhava para o outro lado como se Honduras estivesse em Marte. E finalmente o Brasil também negava a validade da consulta porque o presidente Lula não poderia ser menos exigente que Chávez quanto à observância democrática, nem, como grande potência em gestação, seguir cegamente Obama.

"Se uma ditadura tutela e coordena uma eleição, ela é ilegal", diz Manuel Zelaya

Ali começava a se abrir a brecha com os EUA. O assessor para Política Externa de Lula, o gaúcho Marco Aurélio Garcia, qualificava de "decepcionante" a política latino-americana de Obama, decepção que consistia em que o presidente brasileiro se sentia traído porque seu homólogo americano o havia deixado só junto com Chávez, com a batata quente de Zelaya ainda na embaixada. Chovia sobre o molhado porque já existia uma irritação de fundo devido ao acordo com Bogotá para utilizar sete bases militares em território colombiano. E, embora estivesse programada de antemão, o arremate de tamanho desencontro era a visita do presidente Mahmoud Ahmadinejad, precisamente quando crescia a tensão entre Washington e Teerã pela negativa iraniana a pôr seu programa nuclear sob controle internacional.

Um país tão modesto quanto Honduras, com dois terços de pobres entre seus 7,5 milhões de habitantes, 2 bilhões de euros anuais em remessas do exterior, equivalentes a 25% do PIB, 58 mortes violentas por 100 mil habitantes ao ano, deixou descoberta a desordem reinante no concerto de nações da América Latina, tanto que na cúpula iberoamericana de Lisboa na segunda-feira se fizeram prodígios semânticos para ditar um comunicado conjunto de seus 21 membros presentes sobre a crise. Mas o grupo de Zelaya, muito mais artificial que o dos que querem esquecer o golpe, se desmanchará logo e a maioria acabará reconhecendo o governo de Tegucigalpa. Micheletti, astuto e calado, venceu a todos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,71
    3,127
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,37
    64.938,02
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host