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03/12/2009

Nos Estados Unidos, é a hora do "orgulho gordo"

El País
David Alandete
As pessoas obesas nos EUA reclamam que são discriminadas. Dizem que sua perseguição é comparável ao racismo ou à homofobia

Nos últimos anos, um grupo crescente de escritores, intelectuais, médicos e cientistas reivindicaram para si o "orgulho gordo" ("fat pride"). Ele se reuniram na Internet e em simpósios universitários, criaram páginas na web e participaram de estudos científicos. Agora dizem ao mundo que sim, são gordos. E não tem importância. Que é possível ser gordo e feliz.

Se for assim, o mundo caminha para uma epidemia de felicidade. Porque a gordura já é universal. Um bilhão de pessoas no mundo sofrem de excesso de peso. Delas, 300 milhões são obesas. Não com alguns quilos a mais, nem com curvas ou um pouco de barriga. Clinicamente obesas. Um quarto delas reside nos EUA. A sociedade americana é, segundo o Centro de Controle Epidemiológico dos EUA, "obesogênica". Os cientistas calculam que em uma década os obesos nos EUA serão 100 milhões.
  • Robyn Beck/AFP

    Sociedade "obesogênica" Um bilhão de pessoas no mundo sofrem de excesso de peso. Delas, 300 milhões são obesas. Não com alguns quilos a mais, nem com curvas ou um pouco de barriga. Clinicamente obesas. Um quarto vive nos EUA



A Espanha não está isolada desse problema: 17% da população adulta e 13,9% das crianças do país são obesas, segundo o Centro de Pesquisas Biomédicas em Rede sobre Obesidade e Nutrição. Um relatório da Organização Mundial de Saúde afirma que a Espanha está entre os primeiros lugares europeus em excesso de peso infantil, que é detectado em crianças entre 6 e 9 anos, com 35,2%.

Durante anos, a maioria dos médicos e cientistas de todo o mundo definiu esses dados como uma catástrofe. Eles defenderam que o sobrepeso é nocivo para a saúde, pois facilita o aparecimento de diabetes, hipertensão ou câncer de cólon. Tratou-se a obesidade como uma doença e os que sofrem dela como pacientes.

Mas os protestos começaram, sobretudo nos EUA. "Estou orgulhosa por ser gorda", proclamou a escritora Marilyn Wann, com seus 129 quilos. Ela não pede desculpas por sua figura, nem pronuncia a palavra com timidez. "Durante muitos anos foi um insulto, mais agressivo que qualquer outra palavra. Pois bem, eu a considero uma palavra neutra. Dizer 'sobrepeso' já denota conotações negativas e preconceitos. E 'obesidade' é um termo clínico, para nos tratar como doentes. Eu quero que me chamem de gorda. Eu sou gorda."

Wann é autora de um livro e um fanzine cultuado chamados "Fat! So?" (Gorda! E daí?). Ela acredita que a imagem negativa dos gordos nos EUA é comparável ao racismo e à homofobia. E que os médicos assumiram esse estereótipo e se dedicam com empenho a confirmá-lo. "Eles têm os mesmos preconceitos que o resto do mundo. Não é preciso procurar muito nos anais médicos para ver que há anos se tratava a homossexualidade como uma doença. Agora sofremos o mesmo, mas com os gordos."

Alguns estudiosos se atrevem a desafiar o "status quo" médico. Linda Bacon, professora no City College de San Francisco e doutora em fisiologia, é autora de "Saúde em todos os tamanhos", um livro pioneiro em seu campo, muito respeitado entre a chamada comunidade do orgulho gordo e no qual afirma que é possível ser perfeitamente saudável em qualquer tamanho.

"Estar magro não tem porque ser comparado imediatamente a estar saudável", afirma. "Os principais fatores da gordura são genéticos e metabólicos. Também influi o estilo de vida, claro. Mas tem gente que não tem um controle extremo de seu peso. Para estes, é mais importante ser totalmente ativos, manter-se em seu próprio peso e fazer exercícios do que se preocupar com o tamanho e a balança."

Bacon submeteu 79 mulheres obesas a um experimento que durou dois anos. A metade delas foi posta em uma dura dieta. A outra metade teve liberdade para se manter em seu peso e entrou em um programa de exercícios moderados. Dois anos depois, as mulheres que tinham seguido o regime haviam recuperado seu peso inicial e seus indicadores médicos - colesterol, açúcar, pressão sanguínea - tinham piorado notadamente. As mulheres que não fizeram dieta estavam mais saudáveis.

"Fazer regime significa perder quilos em curto prazo e ganhá-los mais adiante. Em vez de restringir as calorias é preciso manter um ritmo de vida saudável, e é preciso combater mitos como o de que não se pode estar saudável sendo gordo. Cintura e saúde não têm por que andar juntas", acrescenta. Em seu livro, Bacon revê vários experimentos científicos que demonstram que, ao contrário do que se pensa, o excesso de peso não é um fator decisivo na diabetes, na hipertensão e nas doenças cardiovasculares. Mas a comunidade do orgulho gordo enfrenta décadas de saber científico, ao peso de milhares de estudiosos que passaram a vida demonstrando o contrário.

A doutora Susan Yanovski, codiretora do Departamento de Pesquisa sobre a Obesidade do Instituto Nacional de Saúde dos EUA, uma das instituições de pesquisa científica mais reputadas do mundo, se dedica há 20 anos a analisar os efeitos da gordura na saúde. De memória, ela enumera os efeitos perniciosos da obesidade: "Diabetes, doenças cardiovasculares, doenças cardíacas, câncer, artrite, doenças hepáticas, infertilidade, entre outros". "A obesidade afeta todos e cada um dos órgãos de nosso corpo. Há muitos motivos para recomendar às pessoas que mantenham um peso saudável", explica.

A obesidade se alcança com um índice de massa corporal de 30. Esse índice é obtido dividindo o peso em quilos do indivíduo por sua estatura em metros elevada ao quadrado. Um índice entre 25 e 29 é considerado sobrepeso. O ideal é situar-se entre 19 e 24, aproximadamente. Segundo Yanovski, o problema não é só a obesidade. O excesso de peso também tem suas complicações.

"É decisivo no aparecimento da diabetes. Há instituições como a Organização Mundial de Saúde que advertem em muitos estudos que é muito importante o lugar onde se armazena a gordura. Tê-la no abdômen, em volta da cintura, pode favorecer o aparecimento de diabetes. Hoje em dia muitos médicos medem as cinturas para prevenir problemas. De todo modo, há razões suficientes para recomendar que as pessoas com sobrepeso procurem não aumentá-lo de modo algum."

A gordura não é só um problema médico. Economicamente soa a apocalipse. Só nos EUA gera gastos de saúde de 61 bilhões de euros, quase 10% de todo o custo dos tratamentos médicos no país. "A obesidade é cara", sentencia o Centro de Controle e Prevenção de Doenças em um estudo deste ano. "Os gastos médicos gerados pelos trabalhadores obesos são entre 29% e 117% maiores que os provocados por trabalhadores com peso normal."

Com previsões como essas, muita gente com sobrepeso se considera vítima de uma sociedade cruel e discriminadora. Aos funestos augúrios médicos soma-se o cataclismo econômico, e a eles o escárnio público na mídia, em filmes e revistas. "Há uma estigmatização. Não há dúvida, eles são apontados com o dedo", afirma a doutora em psicologia Rebecca Puhl, do Centro Rudd para Políticas Alimentícias e Obesidade da Universidade de Yale. "Esses preconceitos podem levar a depressões, angústia e finalmente a tendências suicidas."

"Os preconceitos contra a gordura existem em todos os âmbitos: na saúde, no lugar de trabalho e nas instituições educacionais", acrescenta. "Nos EUA é legal discriminar contra os obesos. Exceto no estado de Michigan, não há nos EUA uma lei que condene o tratamento vexaminoso ou discriminatório contra o excesso de peso ou a obesidade. É uma terra de ninguém, uma injustiça social."

Nem todos são da mesma opinião. "Injustiça? Na verdade é uma vergonha!" Para MeMe Roth, esse tipo de opinião psicológica causa irritação. Essa mãe de família, descendente de uma família de obesos, com uma figura espetacular, tem um lema que nem todos gostam de ouvir: "A obesidade é resultado da preguiça e da falta de responsabilidade". Publicitária e diretora da Associação Nacional contra a Obesidade, Roth é provavelmente a pior inimiga do orgulho gordo.

Ela sozinha decidiu que fará dos EUA um país mais saudável, gostem ou não. "Hoje em dia nos impõem verdades aceitáveis socialmente, em vez das verdades factuais. Dizem-nos que as pessoas não estão gordas, mas simplesmente têm curvas. Dizem que a gordura é bela. A verdade nua é que essas pessoas estão gordas e que a obesidade é uma ameaça para a saúde pública e a economia. É uma epidemia. Estamos cegos ou o quê?"

As verdades que Roth conta são incômodas. Quando pediu à escola de suas filhas em Nova York que deixasse de distribuir bolos e aperitivos altamente calóricos nas festividades e ocasiões especiais, lhe pediram que considerasse mudá-las de escola. "Toda essa epidemia foi criada pelo que eu chamo de obesidade passiva: os maus hábitos alimentares. Há grupos sociais em que se tolera a gordura, em que é transmitida como algo aceitável. Nesse círculos cresce a obesidade, porque não é vista como algo a se combater. Tudo está relacionado, a aceitação psicológica e o aumento dos casos de obesidade."

Para ela, a humanidade inteira está em risco, pois se trata de uma questão de seleção natural: "As mulheres obesas têm maiores índices de infertilidade, mais problemas na gravidez e mais complicações no parto. Os homens obesos têm menos esperma, menos libido e são menos enérgicos na cama. Não perguntem a mim. Perguntem sobre os prognósticos a Darwin!"

Roth considera que as campanhas para fazer que o sobrepeso não seja motivo de escárnio são mais uma estratégia dos poderes fáticos que favorecem a gordura por motivos econômicos obscuros: "O principal responsável é a indústria da alimentação e da bebida, que movimenta US$ 500 bilhões anuais. Você sabia que as empresas alimentícias americanas produzem quase 4 mil calorias diárias por pessoa, o dobro do que os médicos recomendam?"

A última grande descoberta de Roth é um estudo da fundação United Health, da Associação Americana de Saúde Pública e da Aliança Preventiva, que afirma que, em 2018, 103 milhões de americanos serão obesos e o gasto gerado por seus tratamentos será de US$ 344 bilhões. "Onde está o plano de resgate econômico contra a obesidade?", exclama. "Resgatam os bancos, as empresas de automóveis. E a nossa saúde, quem a resgata?"

Há estudos que oferecem conclusões de acordo com o que Roth defende. A cardiologista Tiffany Powell, da Universidade Southwestern do Texas, apresentou na semana passada um estudo à Associação Americana do Coração no qual demonstra que 8% dos obesos têm uma ideia errada de seu corpo. Acreditam ser mais magros do que são. A doutora atribui esse autoengano ao efeito psicológico de uma cultura da aceitação da obesidade.

Mas esses números podem ficar desumanizados em um laboratório, alheios ao cidadão comum. Até que esse cidadão tem de voar mais de oito horas ao lado de uma pessoa obesa. Devido ao espaço reduzido nos aviões - o habitual é que um assento tenha cerca de 44 cm de largura na classe turística -, sentar-se junto de uma pessoa obesa em um voo de longa distância é um dos grandes temores dos passageiros frequentes. Uma das pioneiras em denunciar a dor que a obesidade pode provocar nos companheiros de cabine foi Barbara Hewson, uma escritora britânica à qual a companhia aérea Virgin Atlantic teve de pagar 20 mil euros em 2002 devido às sequelas físicas sofridas por viajar ao lado de uma mulher obesa que tentou se encaixar em um único assento.

Hewson queixou-se durante a decolagem, mas o voo, de Londres a Los Angeles, estava lotado. Decidiu ficar de cócoras em sua poltrona enquanto sua vizinha se esparramava sobre ela. As 11 horas de calvário lhe provocaram ciática, um hematoma no peito e um estiramento do tecido muscular das pernas, tudo confirmado por vários testes médicos a cargo dos médicos da Virgin. Ao chegar a Los Angeles ela foi para o pronto-socorro. Passou um mês de cama. Desde então, algumas companhias aéreas passaram a aplicar a norma de obrigar os passageiros obesos a voar em primeira classe ou pagar por duas poltronas.

A norte-americana Southwest Airlines é a pioneira nesse campo. Tem aplicado uma política muito eficaz desde os anos 1980. Essa companhia pede ao cliente obeso que compre duas passagens. Se o avião não ficar lotado, lhe devolverão a quantia total da segunda passagem. Dos clientes que cumprem essa norma, 97% acabam recebendo a devolução. No caso de que não comprem, os comissários de voo lhe pedirão que abandone o aparelho. "Para nós, o mais importante é a segurança na viagem. Mais que uma questão de comodidade, é uma questão de voar de forma segura, de que os desembarques possam se realizar com eficácia em caso de emergência. Nesse caso, o pessoal da cabine pode pedir a um passageiro que abandone a aeronave", explica Olga Romero, porta-voz da companhia.

Novamente, a experiência de ser obrigado a deixar um avião pode ser extremamente humilhante para uma pessoa. Esta também pode se perguntar por que tem de pagar o dobro pelo mesmo direito a voar, e por que as companhias não oferecem cadeiras mais largas. Novamente, no centro desse debate está a dúvida sobre se a gordura é decidida ou herdada, se é provocada pelo metabolismo ou simplesmente pela gula. Apesar da recente ascensão do orgulho gordo, os cientistas, médicos e psicólogos provavelmente ainda terão muitos anos de debate a respeito.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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