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04/12/2009

Continua a crise política em Honduras

El País
Francisco Peregil
Enviado especial a Tegucigalpa
A classe alta do país é de origem árabe-palestina e cada família controla negócios em vários setores, incluindo meios de comunicação

A campanha eleitoral custou US$ 20 ou 25 milhões para cada partido, pagos pelos empresários que depois obtêm contratos do governo


É quase impossível caminhar por Honduras sem ver ou tocar algo que não pertença aos Canahuati Larach, os Flores Facussé, os Andonie Fernández, os Ferrari, os Kafie, os Násser, os Rosenthal e os Goldstein. Quase todas essas famílias são de origem árabe-palestina e de confissão cristã, exceto os judeus Rosenthal e Goldstein. E quase todas têm algo em comum: seus patriarcas eram homens semianalfabetos que emigraram para Honduras no final do século 19 ou início do 20, instalaram pequenos comércios, prosperaram, enviaram seus filhos e netos para se formar nos EUA e agora estes ocupam as mais altas esferas do poder.

Entenda a crise em Honduras

  • AP/Reuters


    Por que Manuel Zelaya foi deposto?

    Presidente desde 2006, Manuel Zelaya (esq.) liderou um governo que se afastou gradualmente do Partido Liberal que o elegeu, aproximando-se de governos de esquerda da América Latina, como Cuba e Venezuela. Ao implementar medidas populares, como um drástico aumento do salário mínimo, foi alvo de críticas dos empresários locais e aos poucos perdeu respaldo do Congresso.

    O ponto crítico veio com a proposta de reformar a Constituição, que Zelaya tentou encaminhar sem passar pelo poder legislativo, por meio de uma consulta popular que perguntava aos hondurenhos se eles aprovariam uma mudança constitucional.

    Juízes hondurenhos declararam a iniciativa ilegal, apoiados por uma cláusula legal que proíbe a alteração de certos trechos da Constituição (entre eles a proibição da reeleição presidencial). O exército então anunciou que não daria apoio logístico para o referendo, e Zelaya ordenou que seus aliados organizassem a eleição sem apoio militar.

    A Justiça entendeu que a ação era criminosa e ordenou a prisão do presidente. No dia em que aconteceria o referendo, militares entraram na casa presidencial, tiraram Zelaya da cama e colocaram-no em um avião ainda de pijamas. No mesmo domingo, uma falsa carta de renúncia foi apresentada e poder foi entregue ao próximo na linha sucessória: Roberto Micheletti (dir.), presidente do Congresso

    Por que Zelaya depois se abrigou na embaixada brasileira?

    Após ter sido deposto, Zelaya passou dois meses visitando governos em busca de apoio internacional. Em 21 de setembro, entrou escondido no país e foi para a embaixada brasileira em Honduras, que é considerada território brasileiro - com isso, Zelaya se protegia das ordens de prisão emitidas contra ele em Honduras.

    A intenção do presidente deposto ao voltar para o país era aumentar a pressão por um acordo, e chegou a clamar por protestos entre seus apoiadores desde o prédio da representação diplomática do Brasil. Segundo o governo brasileiro, que classifica Zelaya como "hóspede" e não impõe data para sua saída, a embaixada não tinha conhecimento dos planos do presidente deposto e não colaborou com seu retorno

Não há inimizade entre árabes e judeus. Os Rosenthal compartilham com os demais as instalações do Clube Árabe de San Pedro Sula, a cidade mais industrializada. Estudam nos mesmos colégios, vão às mesmas festas e aos mesmos enterros. Às vezes discordam educadamente em questões políticas. Mas quanto ao golpe de Estado de 28 de junho, quase todas as grandes famílias o apoiaram.

O presidente deposto, Manuel Zelaya, vinha indicando desde 2007 alguns desses empresários pelo nome e sobrenome, culpando-os pelo atraso de Honduras. Ainda hoje Zelaya mostra-se convencido de que foram os grandes grupos empresariais, e não o presidente de fato, Roberto Micheletti, nem os militares quem promoveu o golpe.

"Das grandes famílias, só os Rosenthal, donos do jornal 'Tiempo' e uma das mais poderosas, manteve uma posição mais crítica ao golpe, mas sem um compromisso a favor de Zelaya que fosse decisivo. À diferença dos palestinos, os Rosenthal participaram abertamente da política. Yani Rosenthal foi ministro da Presidência no governo de Zelaya, o ministério mais importante, até que Zelaya começou em 2007 a se associar a Hugo Chávez e então Rosenthal saiu do governo", indica o analista político Manuel Torres Calderón.

"Saí do governo simplesmente porque queria me candidatar à presidência pelo Partido Liberal", explica o próprio Yani Rosenthal. "E não creio que sejam só umas dez famílias que detêm tanto poder. São mais, eu não saberia dizer quantas. É verdade que, embora a propriedade dos meios de comunicação esteja cada vez mais nas mãos de mais gente, ainda há muita concentração. Os três principais canais de televisão pertencem a uma mesma pessoa. Mel Zelaya enfrentou os proprietários da mídia e só teve o apoio de nós, os Rosenthal. Mas o confronto não veio por causa de Chávez e sim do salário mínimo. Mel o aumentou em 66%. Passou de US$ 174 para US$ 289. Eu lhe disse que era demais, mas ele foi em frente. Abriu uma guerra com a mídia. E depois Chávez veio a Honduras no primeiro semestre deste ano e pronunciou dois discursos incendiários falando da oligarquia e dos pró-ianques. E então mais empresários se voltaram contra Zelaya. E ele os atacou da televisão estatal e de um jornal que fundou."

A independência dos jornalistas parece um conceito distante demais em Honduras. Na primeira entrevista coletiva dada na terça-feira pelo presidente eleito, Porfirio "Pepe" Lobo, podiam-se ouvir os aplausos e bravos de vários repórteres hondurenhos. Outros jornalistas ainda usavam na quinta-feira coletes com frases impressas nas costas chamando ao voto.

"Todos os proprietários misturam uma grande variedade de empresas (bancos, seguradoras, exportadoras, processadoras, empresas de telefonia e de cabo, transmissão de dados digitais, distribuidoras de água, etc). Esse é um dos principais problemas que afetam a qualidade da liberdade de expressão em Honduras, porque a mídia se transforma em ponta de lança dos outros negócios, muitos dos quais têm como cliente o Estado ou precisam do favoritismo do Estado para ser altamente lucrativos", explica o analista Calderón no livro "Poderes Fáticos e Sistema Político", escrito por cinco autores.

Yani Rosenthal acredita que a contribuição dos empresários para os partidos políticos é algo frequente na maioria dos países. "Sim, é verdade que aqui talvez seja feito de uma forma demasiado evidente", comenta. "Levamos seis meses de campanha para estas eleições de 29 de novembro", explica o economista Raudales. "É demais para um país tão pobre quanto Honduras. Para cada partido a campanha deve ter custado US$ 20 ou US$ 25 milhões. Isso é pago pelos empresários. E é o menos ruim que pode acontecer, porque senão o fariam os narcotraficantes. Depois os empresários cobram seu pedágio e decidem quem deve ocupar certos cargos nos ministérios mais importantes. Mas se houve algo bom depois dos acontecimentos de 28 de junho é que as pessoas adquiriram maior consciência social."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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