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05/12/2009

A conta por trás do clima

El País
Francho Barón
No Rio de Janeiro
A seca deixa comunidades indígenas isoladas e transforma a Amazônia em um cemitério de peixes. O Brasil pede ajuda para conter o aquecimento

Tabatinga é uma pequena localidade situada no coração do chamado trapézio amazônico, na fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia. É uma das áreas mais estratégicas da Amazônia, covil de contrabandistas e narcotraficantes, onde o exército brasileiro mantém aquartelados o 8º Batalhão de Infantaria da Selva e um Comando de Controle de Fronteiras. Ao cair da tarde, o pequeno porto de Tabatinga, banhado pelas águas escuras do rio Amazonas, se transforma em um agitado mercado ao qual chegam os indígenas em suas canoas carregadas de frutas, verduras e peixes. A economia de muitas comunidades indígenas depende em grande medida da venda desses produtos e do escambo.

Neste ano, a época das chuvas parece estar chegando com atraso. Uma grande seca assola a bacia Amazônica, e o efeito imediato é uma diminuição alarmante do nível do rio mais longo e caudaloso do planeta. Segundo os especialistas consultados pelo Greenpeace Brasil, desde julho o rio Negro experimentou uma redução de mais de 13 metros. Tecnicamente, a situação pode ser denominada seca extrema. Quando as águas baixam a navegação pode se tornar inviável em determinados trechos do rio, deixando isoladas algumas comunidades indígenas. Os índios ticuna que vão a Tabatinga para comercializar temem que a situação piore.

Depósito de lixo
Perto de Manaus, o rio Manaquiri apresenta um aspecto desolador. O diagnóstico do Greenpeace é nefasto: "A seca deixou o rio raso e matou milhares de peixes. As canoas e os barcos ficam encalhados na areia. Os peixes mortos geram mau cheiro e o bonito Amazonas parece um depósito de lixo. A população que vive na região, totalmente dependente dos rios, sofre para se deslocar, e o acesso ao combustível, à comida e à água potável fica restrito".

"A seca deste ano até agora está associada a uma variabilidade natural. Mas com a mudança climática esses fenômenos podem se intensificar. Os dados desta década mostram um aumento desses fenômenos extremos", indica Antônio Manzi, especialista em biosfera e atmosfera amazônica. Segundo algumas projeções do Greenpeace, a selva amazônica corre o perigo de desaparecer completamente. Outros relatórios menos apocalípticos indicam uma destruição de 83% da Amazônia até 2100.

O Brasil chega a Copenhague com a responsabilidade de quem guarda o maior pulmão do planeta: aproximadamente 60% dos 6,9 milhões de quilômetros quadrados de rios e afluentes que formam a bacia Amazônica.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocará sobre a mesa de negociações uma oferta que gira em torno de dois compromissos: uma redução entre 36% e 39% das emissões até 2020 e uma queda de 80% do desflorestamento da Amazônia na mesma data. Lula resumiu recentemente a proposta com uma de suas frases provocadoras: "Nós falamos menos e fazemos mais". A declaração foi dirigida aos EUA e à UE, que o presidente brasileiro indica como principais responsáveis pelo aquecimento global.

Segundo o diretor de combate ao desmatamento do Ministério do Meio Ambiente, Mauro Pires, "24% do total da redução de emissões anunciada pelo Brasil provêm da diminuição do desmatamento da Amazônia". Pires falou avalizado pelos excelentes dados registrados nas últimas medições do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que apontam uma queda de 45% do desmatamento entre agosto de 2008 e julho deste ano. É um recorde histórico, embora os mais de 7 mil quilômetros quadrados perdidos no último ano equivalham a uma área superior à da capital brasileira.

O Brasil insiste que a preservação da Amazônia tem efeitos globais, por isso é responsabilidade de todos os países do mundo. O governo Lula criou há menos de um ano o Fundo Amazônia, de caráter privado e administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. O objetivo é reunir doações de pessoas, instituições e governos que queiram colaborar com a causa. "Já recebemos uma doação de US$ 140 milhões do governo da Noruega, que se comprometeu a desembolsar até US$ 1 bilhão até 2015. A Alemanha também doou 22 milhões de euros. Agora em Copenhague esperamos novos anúncios", declara Pires.

Mas quanto custa conter a deterioração da Amazônia? "Centenas de bilhões só até 2020 para reduzir o desmatamento, fortalecer a economia local, consolidar o ecoturismo e preservar as terras indígenas. E o problema é que os países ricos não querem pôr a mão no bolso", declara o responsável pelo combate ao desflorestamento.

Na mesma linha se pronuncia a secretária de Estado de Mudança Climática, Suzana Kahn: "Nossa oferta de reduzir em 39% as emissões representará uma diminuição de 1 bilhão de toneladas de CO2. Para que isto aconteça, é necessário um fluxo de financiamento por parte dos países desenvolvidos. O Brasil apoia a criação de um fundo global para que os países industrializados destinem 1% de seu PIB ao combate à mudança climática".

O Greenpeace, porém, denuncia que existem artifícios nos cálculos feitos pelo Brasil para chegar a sua generosa oferta de redução de emissões poluentes. "No setor energético os números foram inflados. O governo brasileiro projetou emissões que estão muito acima do calculado pelo Banco Mundial ou a Agência Internacional de Energia. Se você infla intencionalmente sua previsão de emissões e depois promete reduzi-las até 39%, o resultado é que a redução real é muito menor", afirma Marcelo Furtado, diretor do Greenpeace Brasil.

América do Sul: situação de partida
Emissões. Os países da América Central e do Sul emitiram em 2006 1,138 bilhão de toneladas de CO2, 3,9% do total mundial. O Brasil, com 337 milhões, representa mais de um terço do total do subcontinente.

Posição em Copenhague. A Amazônia é o grande trunfo do subcontinente. A enorme massa florestal é o maior filtro natural de emissões do planeta e, portanto, o maior trunfo de negociação dos países da região. A posição é clara: se o mundo quiser se beneficiar do efeito ralo, que pague. Em troca, o Brasil oferece para reduzir as emissões quase 40% até 2020 e o desmatamento da Amazônia em 80%.

O que está em jogo? O aquecimento reduzirá o fluxo dos rios da bacia Amazônica. Em consequência, a área leste da região deixará de ser selva para se transformar em savana. A biodiversidade também sofrerá com a mudança. A produtividade do sul diminuirá, tanto na agricultura como na pecuária.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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