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06/12/2009

Alemanha reconhece recorde esportivo alcançado por uma judia e negado pelo nazismo

El País
Carlos Arribas
Em Madri (Espanha)
"A competição esportiva e cortez desperta as melhores qualidades humanas. Não separa, mas, pelo contrário, une os rivais numa compreensão mútua e respeito recíproco. Também ajuda a fortalecer os vínculos de paz entre as nações. Que a tocha olímpica, portanto, nunca se extinga".
  • AFP

    Adolf Hitler chega ao estádio de Berlim para presidir a abertura dos Jogos Olímpicos de 1936


Para saber que Adolf Hitler mentia como um velhaco ao escrever essas frases no preâmbulo do informe oficial dos Jogos de Berlim, em 1936, não era preciso esperar que o Exército nazista começasse a invadir a Europa três anos mais tarde; para perceber como a retórica olímpica, o palavreado vazio, voltava a ser utilizado para ocultar a crua realidade não era preciso ser historiador. Bastava ser mulher, alemã, judia, atleta e viver nos anos 30 do século passado. Bastava se chamar Gretel Bergmann.

A Federação Alemã de Atletismo reconheceu, com 73 anos de atraso, que Gretel Bergmann bateu o recorde nacional de salto em altura em 30 de junho de 1936 com uma marca de 1,60 m. O que não conseguiram devolver a ela foi o direito de participar dos Jogos de 1936, do qual foi privada por ser judia. Sua história - recordações que ainda a perturbam, uma vez que Gretel Bergmann continua viva, têm 95 anos e mora em Nova York - é também a memória de um dos períodos mais sombrios da história olímpica.

Expulsa de seu clube com a ascensão do nazismo, Gretel Bergmann foi enviada por seus pais para estudar no Reino Unido, onde foi proclamada campeã britânica em 1934 e 1935. Estava prestes a se naturalizar quando, em meados de 1936, o ano das Olimpíadas, os dirigentes nazistas a chamaram de volta à Alemanha. O regime precisava dela para responder à pressão internacional e neutralizar a ameaça de boicote norte-americano por causa da discriminação contra os judeus estabelecida em 1935 com a promulgação das leis de Nuremberg, que privava os judeus da condição de "cidadãos" e os transformava em "sujeitos".

Um enviado de Avery Brundage, presidente do Comitê Olímpico dos Estados Unidos, negociou diretamente com Hitler a participação de um atleta judeu na equipe alemã como elemento simbólico, uma mostra de que não havia discriminação, seguindo o costume de seu país em relação aos negros. Ainda que Hitler tenha se mostrado resistente a princípio, finalmente cedeu por medo de que um boicote o privasse da oportunidade do espetáculo olímpico que planejava oferecer ao mundo como mostra do poder nazista. Os Estados Unidos pediram além disso que o atleta judeu fosse Bergmann, já que seu caso havia sido divulgado na imprensa norte-americana.

Berlim aceitou, prometeu a Brundage que a judia seria tratada como os demais atletas, convidou Bergmann a voltar de Londres e a incluiu na pré-seleção olímpica alemã. Entretanto, o Comitê Olímpico da Alemanha (COA) nunca teve a intenção de deixá-la participar, uma vez que ela era 100% judia segundo as leis de Nuremberg, filha de pai e mãe judeus. Assim, logo que Bergmann ganhou os campeonatos de Württemberg em junho, foi impedida de participar dos campeonatos nacionais, que eram obrigatórios para quem quisesse fazer parte da equipe olímpica.

Bergmann só foi informada pelo presidente do COA, Karl Ritter von Halt, de que não participaria dos Jogos quando a equipe norte-americana iniciou sua viagem de navio para a Alemanha. Como compensação, ofereceram-lhe entradas para assistir à competição no estádio, mas ela as recusou e imediatamente emigrou para os Estados Unidos, onde foi proclamada campeã nacional de salto em altura em 1937 e 1938. A posição de atleta judia para exibição na equipe olímpica alemã foi ocupada pela esgrimista Helen Mayer, que era meio judia, uma vez que sua mãe era ariana, e portanto ainda era considerada cidadã.

Dora Ratjen ficou em quarto lugar no salto em altura. Alguns anos mais tarde, após vencer o Campeonato Europeu em sua especialidade, quando algumas companheiras perceberam que ela tinha barba, ficou-se sabendo que ela não se chamava Dora, mas sim Hermann, que era um homem que havia sido obrigado pelas Juventudes Hitlerianas a se fazer passar por mulher.

Bergmann, uma mulher que não perdoava e que confessou que a raiva pela tragédia do povo judeu dava-lhe forças para saltar mais, rejeitou em 1986 um convite para voltar à Alemanha na celebração do 50º aniversário de Berlim 1936. "Embora tenham se passado 50 anos, minha amargura e minha decepção ainda permanecem inteiras", respondeu Bergmann, já cidadã norte-americana, fã dos Yankees, que havia mudado seu nome para Margaret Lambert.

Entretanto, aceitou o reconhecimento tardio da Federação Alemã, acelerado pela recente estréia do filme "Berlim 36", que narra sua história. "A princípio, nem podia ver os Jogos Olímpicos pela televisão. Eu me sentava e praguejava", disse Bergmann, que ganhou a vida em Nova York como faxineira; "agora estou mais suave. Voltei algumas vezes para a Alemanha, embora tivesse jurado que não pisaria naquele solo nunca mais, mas não se pode castigar os jovens alemães pelo que seus pais e avós fizeram".

Mais rápida foi a reabilitação dos dirigentes nazistas do COA que não passaram pelo crivo da desnazificação da vida pública alemã: em 1951, o COA foi readmitido no COI e Ritter von Halt foi reposto como presidente apesar de sua ativa participação na política nazista. "Nossas regras não permitem a discriminação contra ninguém por razões políticas", argumentou o presidente do COI, o sueco Sigfrid Edstrom.

Tradução: Eloise De Vylder

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