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07/12/2009

Ao enfrentar os piratas, a maioria das nações paga os sequestradores

El País
Em Madri (Espanha)
Poucos países se atreveram a usar a força e, quando o fizeram, poucos evitaram as mortes

Mais de 1.500 reféns e 88 barcos sequestrados nos últimos dois anos. Este é o extenso currículo de sucesso dos piratas somalis. Eles capturaram barcos de todas as nacionalidades e bandeiras possíveis, mas na hora de escolher suas presas, preferem barcos grandes e de tripulação europeia. "São mais caros", reconhece Stephen Askins, advogado de um dos escritórios britânicos que se oferece como mediador para os armadores durante os sequestros.
  • Reuters

    Enfrentamento Suspeitos de sequestrar navios cargueiros na região do golfo de Áden, no litoral da Somália, são detidos pela Marinha da França, único país da UE que embarcou soldados

A maioria foi resolvida com dinheiro. Entre 2007 e 2009, 46 barcos foram liberados depois do pagamento de resgate. Só 14 foram resolvidos pela força e nem sempre terminaram bem, se a medida do sucesso for a ausência de mortes. Além disso, na maioria dos países existem pactos tácitos para excluir esse tipo de questão da disputa política. O que segue é uma análise de como eles estão abordando o problema.

Holanda: primeiro julgamento de piratas na Europa. O primeiro sequestro foi resolvido depois do pagamento de US$ 1 milhão. No segundo e último até agora, a quantia de resgate não aumentou. Um terceiro ataque, frustrado, acabou com cinco piratas numa prisão holandesa. Eles caíram no mar ao tentar assaltar o Samanyulo, foram auxiliados pela marinha dinamarquesa e entregues à Holanda. Cinco meses depois, compareceram diante dos juízes de Roterdã.

Foi o primeiro julgamento deste tipo na Europa, e foi precedido de tensos debates parlamentares. O processo obrigou o país a tirar o pó de antigos códigos, e deixou o governo holandês muito irritado ao ouvir os advogados dos detentos dizerem que seus clientes "pobres e desesperados" queriam pedir asilo político. O Parlamento exigiu explicações ao Executivo. O ministro de relações Exteriores propôs a criação de um tribunal especial contra a pirataria, talvez no Quênia. Isso será debatido numa conferência internacional no próximo 7 de julho, em Haya.

França: assaltos e soldados da marinha. É o único país da UE que embarcou soldados da marinha nos navios. Em abril de 2008, um grupo de piratas sequestrou 30 tripulantes de um veleiro de luxo, Le Ponant. Uma semana depois, o armador pagou um resgate e os piratas liberaram o barco. O Exército perseguiu os sequestradores em sua fuga e, horas depois, helicópteros especiais do exército francês bombardearam o refúgio dos piratas em terra. Três piratas morreram e outros foram detidos. Parte da pilhagem foi recuperada, segundo o Estado Maior francês.

As forças especiais francesas liberaram pouco depois outro veleiro, o Carre d'As IV. Mas em abril deste ano mais um foi sequestrado, com dois casais e uma criança de três anos a bordo. Não houve resgate. As forças especiais francesas procedentes da base de Yibuti tomaram o Tanlit por assalto. Na operação, morreram um refém e dois piratas. Outros dois sequestradores foram presos e enviados à França, onde serão julgados. Depois do assalto, o presidente da República, Nicolas Sarkozy, assegurou que estava "determinado" a "não ceder à chantagem dos piratas". Nenhum desses incidentes provocou polêmica especial na França, onde um pacto tácito que é respeitado há dez anos exclui duas questões do enfrentamento político diário: a política exterior e a política militar.

EUA: três piratas mortos. Em abril deste ano, um grupo de piratas assaltou o cargueiro Maersk Alabama e, depois de um enfrentamento com a tripulação, abandonou-o com o capitão Richard Phillips como refém. Mantiveram a nação apreensiva, à deriva num bote salva-vidas, durante cinco dias. O presidente Obama autorizou a intervenção do grupo de operações especiais da Marinha. Mataram três piratas e salvaram o refém.

Obama prometeu redobrar os esforços de Washington para lutar contra a pirataria. A secretária de Estado, Hillary Clinton, apresentou um programa para desarmar os piratas que inclui mais cooperação internacional e congelar os bens dos grupos criminosos. Além disso, o Exército iniciou uma operação militar lenta e silenciosa na área, começando pelas ilhas Sheychelles.

No Senado, o democrata Russ Feingold pediu reiteradamente outro enfoque: "Não podemos depender só de ações militares para combater os piratas... Esse enfoque poderia fomentar o desespero e o antiamericanismo na Somália".

Alemanha: assalto abortado. Os piratas que sequestraram o cargueiro alemão Hansa Stavanger em 4 de abril passado pertenciam ao mesmo clä que capturou o Alakrana. Os piratas libertaram seus 24 tripulantes quatro meses depois, ao receberem um resgate de US$ 2,7 milhões. Um comando da unidade antiterrorista GSG 9 da Polícia Federal abortou o assalto ao navio para evitar um possível banho de sangue à bordo.

Segundo a imprensa alemã, o motivo foi que os ministérios de Interior e Defesa não conseguiram entrar em acordo. O então ministro de Defesa Franz Josef Jung propôs uma reforma da Constituição para permitir ao Exército que possa realizar operações similares no futuro. A fragata Mecklenburg-Vorpommern chegou a se aproximar do barco sequestrado, mas se distanciou depois das ameaças dos piratas de matarem os reféns. Em 19 de julho passado, o Victoria também foi libertado depois de pagar mais de US$ 1 milhão de resgate.

Rússia: contra a vigilância privada. A tripulação russa do Thai Union III está nas mãos dos piratas, e a complicada negociação para libertá-los já dura três semanas. Em julho, a Rússia enviou navios de guerra ao golfo de Aden. O presidente, Dmitri Medvedev, assegurou que aumentará sua presença e insistiu na necessidade de criar um tribunal internacional especial para julgar os piratas.

A oposição apoia a política do Kremlim. A saber, o governo nunca entrou em negociações para pagar resgates. Além disso, os russos consideram perigoso armar a tripulação dos navios mercantes. Alexandr Oblovati, chefe do serviço de segurança do Departamento da Frota Marítima, explica: "Ter uma dezena de kalashnikovs não salvará a situação, já que os piratas estão muito melhor armados, com canhões e lança-minas. Nós somos partidários do que chamamos de variante inglesa, ou seja, a total submissão aos piratas. Porque nossa preocupação fundamental é a segurança da tripulação e não a conservação da carga ou o dinheiro do barco."

A Ucrânia também sofre com os piratas. Hoje há 24 ucranianos, entre eles duas mulheres, uma delas menor, e um bebê, sequestrados a bordo do Ariana. O governo ucraniano vai participar da Operação Atalanta.

Reino Unido: o país dos mediadores. Os piratas pedem US$ 7 milhões para libertar o casal britânico sequestrado em 23 de outubro passado em seu veleiro, Lynn Rival. A posição oficial do Reino Unido é a de "nenhuma concessão perante os que tomam reféns", mas a lei britânica permite aos armadores pagarem resgates se for comprovado que os sequestradores não têm conexões com grupos terroristas - os serviços de inteligência estão convencidos de que a Al Qaeda opera na Somália.

As companhias navais costumam recorrer a escritórios e companhias seguradoras que atuam como intermediários sem necessidade de informar às autoridades. Mas os familiares do casal não podem pagar e o governo também não está disposto. A oposição não enfrentou o Executivo neste tema porque os assuntos de interesse nacional se mantêm à margem das disputas políticas. Um setor da imprensa denunciou que a Marinha Real foi testemunha passiva do sequestro. O Ministério da Defesa alegou que não abriu fogo para não colocá-los em perigo.

China: Chamada à ONU. Os navios da armada chinesa dispersos no Índico não puderam fazer nada para impedir o sequestro do navio mercante Xin Hai, com 25 tripulantes a bordo, em 19 de outubro. O governo chinês assegurou que está negociando sua libertação, mas não dá detalhes. Seus captores asseguram que será logo porque concordaram com os proprietários um resgate de US$ 3,5 milhões. Surgiram pedidos para que a China assuma a liderança na coordenação dos navios de guerra na região, mas Beijing diz que isso é papel da ONU. Os chineses propõem que sejam definidas áreas por países, em vez de que todos os navios realizem extensos trabalhos de patrulha ou sigam os barcos de sua nacionalidade.

* Informação coletada por: Isabel Ferrer, Antonio Jiménez Barca, David Alandete, Juan Gómes, Rodrigo Fernández, Patricia Tubella e José Reinoso.

Tradução: Eloise De Vylder

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