UOL Notícias Internacional
 

08/12/2009

Educação transforma-se em campo de batalha no Irã

El País
Ángeles Espinosa Em Teerã (Irã)
Teerã lança uma ofensiva para reislamizar as escolas e universidades. A oposição denuncia expurgos entre professores e a imposição de livros

As ideias são mais perigosas que as armas. Foi o que reconheceu o "líder supremo" do Irã, aiatolá Ali Khamenei. "Nossa prioridade máxima atualmente é combater a guerra branda do inimigo", ele declarou em um recente discurso. A persistência dos protestos que começaram depois das eleições de junho passado convenceu as autoridades iranianas de que são as ideias ocidentais - sua cultura, sua arte e sua música - que afastam os jovens dos valores da república islâmica. Para enfrentar essa invasão, lançaram uma ofensiva ideológica, que tem como um de seus pilares a reislamização do sistema educacional.
  • AP

    Estudantes marcham durante protesto na Universidade de Teerã. Centenas de policiais iranianos e soldados da Guarda Revolucionária armados com bombas de gás lacrimogêneo, cassetetes e armas de fogo entraram em conflito com manifestantes pró-reforma apoiados pela oposição nos arredores da Universidade de Teerã na segunda-feira, 7 de dezembro, o Dia do Estudante no Irã

"Recentemente os seminários se encarregaram da direção de algumas escolas em várias províncias", anunciou Ali Zolelm, o religioso que dirige o comitê para a cooperação escola-seminário, citado pelo jornal "Etemad". Não se conhecem os detalhes e o alcance do plano, mas desde o reinício do ano acadêmico tanto o Khamenei quanto o presidente Mahmoud Ahmadinejad criticaram repetidamente a influência ocidental no currículo educacional.

Khamenei disse no final de agosto que as ciências humanas são "instrumentos coloniais do Ocidente para conquistar as mentes muçulmanas". Diante de um auditório de estudantes e professores conservadores, ele afirmou que o estudo das ciências sociais "promove a dúvida e a incerteza". "Muitas das ciências humanas e das artes liberais se baseiam em filosofias cujo cimento são o materialismo e a falta de crença nos ensinos divinos e islâmicos", afirmou.

Suas palavras permitiam prever um novo expurgo do professorado considerado "pouco islâmico". No mês seguinte, com a volta às aulas, confirmaram-se os temores. "Duas centenas de professores foram demitidos ou aposentados, sobretudo na área de humanidades", confiou a este jornal uma professora da Universidade de Teerã.

Não há estatísticas oficiais e as expulsões são encobertas com pré-aposentadorias, mas depoimentos circunstanciais fazem pensar que o mesmo ocorreu em outras universidades.

"Quando cheguei ao meu departamento este ano, não conhecia a metade dos professores", declara um docente da Universidade de Azad a quem a responsável por sua matéria advertiu que em sua classe havia "uma comissária política do regime". Outro professor decidiu deixar o ensino porque diz que lhe impunham os livros que deve utilizar e até a forma de fazer a chamada.

Em alguns departamentos de inglês, as obras de Khomeini constituem leitura obrigatória. Em outros, as aulas sobre marxismo foram substituídas por "Deus e filosofia" ou "islã e teoria social". Para muitos iranianos isso lembra o expurgo cultural que se seguiu à revolução de 1979, quando foram proibidos os livros de influência ocidental e milhares de estudantes e professores foram expulsos da universidade.

A nomeação de Kamran Daneshju para a frente do Ministério da Ciência, Pesquisa e Tecnologia, do qual dependem as universidades, também constituiu uma mensagem. Daneshju foi o responsável pelo centro eleitoral do Ministério do Interior durante as polêmicas eleições presidenciais em que Ahmadinejad foi reeleito. Esse engenheiro, ao qual a revista "Nature" acusou de plágio e cujo doutorado foi posto em dúvida no Parlamento iraniano, anunciou que vai promover a segregação de sexos na universidade, "de acordo com o islã".

No entanto, a ofensiva reislamizante parece ter sido gestada anteriormente. "Quando no ano passado entrevistei o então vice-ministro Zolelm, ele já me disse que o clero ia reescrever os livros escolares", indica uma jornalista iraniana que teme que esses planos tenham recebido agora o impulso político que faltava.

No início de novembro, as autoridades anunciaram que destinariam um clérigo para cada escola. Ali Asghar Yazdani, um funcionário do Ministério da Educação, explicou que cuidariam das pregações coletivas nas escolas e de responder às dúvidas religiosas dos estudantes. No entanto, muitos pais veem a medida como um esforço para introduzir interpretações mais estritas do islamismo no sistema educacional público e tentar reduzir a crescente distância entre o clero e uma juventude cada vez menos religiosa.

Os universitários constituem um dos eixos centrais dos protestos que sacodem o país desde junho. Desde o início do curso, não passou uma semana sem que eles expressassem seu descontentamento nos campus de Teerã e de outras cidades iranianas, onde por lei a polícia não pode entrar.

As detenções e expulsões também foram numerosas e se intensificaram ao aproximar-se o Dia do Estudante, que se realizou nesta segunda-feira (7). Três mil estudantes assinaram uma carta convidando os líderes de oposição Mehdi Karrubi e Mir Hosein Mousavi a se manifestar com eles.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,235
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h20

    -0,10
    74.518,79
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host