UOL Notícias Internacional
 

09/12/2009

Dois terços que valem um Evo inteiro

El País
Miguel Ángel Bastenier
Dois terços dos lugares no Congresso valem por um Evo inteiro. O líder indigenista boliviano fez no domingo muito mais do que garantir uma triunfante reeleição presidencial. Com pelo menos 24 dos 36 senadores e 84 dos 130 deputados, é o senhor democraticamente eleito do país, que pode reconstituir à sua vontade os grandes poderes do Estado: os tribunais Eleitoral, Constitucional e Supremo, e nem sequer precisa reformar a Constituição para optar por um terceiro mandato, porque em 2015 só seria candidato pela segunda vez com o atual texto legal, que contempla uma reeleição. Hoje diz que não pensa nisso, mas haverá tempo. O que interessaria saber, entretanto, são os limites desse Evo "total", que nos aguarda.

E a resposta está na natureza que for adotada pelo Estado Plurinacional; se essa plurinacionalidade será uma extensão do preexistente - o domínio abusivo do "criollato" [população de origem europeia] - para incluir toda a população, isto é, a massa indígena; ou se os índios, como "povos originários", possuem direitos especiais como indica a autonomia que lhes é reconhecida, e por isso o plurinacional, partindo dessa autoctonia, se limita a incluir os "criollos".

  • Aizar Raldes/AFP - 6.dez.2009

    Presidente boliviano e candidato à reeleição, Evo Morales acena para eleitores no dia da eleição



A Bolívia que Evo persegue é a "outra" Bolívia, mas não só porque o índio pese com seu sufrágio para aposentar uma governança branca de séculos, mas porque o país é terra politicamente queimada. Se havia sistema de partidos, o líder aimara o dinamitou, deixando em seu lugar só uma formação com forma de partido-Estado, o MAS, entre uma inflamação de clubes eleitorais, sobretudo dos antigos donos do país, com escassos votos, estrutura muito frágil e nenhum programa.

É nesse descampado que o presidente quer implantar a "sua" Bolívia, da qual não é problema menor o estabelecimento de uma autonomia das comunidades que não só vai misturar-se tematicamente com a municipal e a provincial, como pode ser uma confusão geográfica porque em três séculos de colônia e dois de independência o índio quíchua e aimara, pós-incaico e naturalmente pró-Evo, se esparramou do altiplano para as terras baixas e misturou-se com as diversas etnias guaranis, que não têm um passado imperial a conjurar.

Qual é o instrumento que transportou Morales dos já altíssimos 54% nas eleições de dezembro de 2005 para os arrasadores 62% deste 6 de dezembro? O fator étnico deve ter contado, mas não havia servido para ganhar eleições até o início do século 21; era preciso que lhe acrescentassem um desígnio. E Evo, respaldado pela nova cobertura internacional que lhe fornecia a virada radical do chavismo na Venezuela, ousou dizer às comunidades indígenas que estava na hora de se reapropriar do país e de recriar uma suposta Idade de Ouro pré-colombiana, propósitos em que, quaisquer que fossem suas melhores intenções, flutuava a ameaça revanchista.

Mas igual ou mais importante foi a concessão de subsídios aos menos favorecidos, de novo majoritariamente indígenas, até criar uma vasta rede de agradecimentos clientelares, de excelente rendimento eleitoral; foi assim que se distribuíram os bônus Juancito Pinto, de 20 euros anuais, para 1,8 milhão de escolares; Juana Azurduy, de 20 euros a cada dois meses, para grávidas e lactantes; e a Renda Dignidade, de 20 euros mensais, aos maiores de 60 anos. Isso só como amostra assistencial de um Estado que quer controlar a economia e o desenvolvimento do país.

Um bom barômetro das intenções, democráticas ou não, de um governante costuma ser sua atitude diante dos meios de comunicação. Morales, assim como Rafael Correa no Equador e Hugo Chávez na Venezuela, tem quase toda a imprensa fortemente contra, e não possui paciência nem acompanhamento intelectual para criar órgãos de informação que, cumprindo os requisitos próprios do mínimo profissionalismo, possam competir com os meios clássicos, sempre nas mãos da tradicional minoria dirigente.

E, diante do possível calor da vitória, o presidente instigava na segunda-feira os jornalistas a se rebelarem contra proprietários e diretores de publicações. A Bolívia é hoje o grande projeto revolucionário latino-americano: no jurídico, com as autonomias indígenas; no econômico, com a aplicação de um estatismo desenvolvimentista sobre os bens do subsolo, que o mundo já esqueceu; e no histórico, com a seguramente utópica reparação do passado da qual se derive um novo país, prolongamento do que foi cinco séculos atrás.

Será capaz de fazê-lo com liberdade de imprensa?

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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