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09/12/2009

Mujica: o presidente guerrilheiro

El País
Soledad Gallego-Díaz
Passados os anos de presídio e tortura, José Mujica, o novo chefe de Estado uruguaio, é um dos casos mais representativos do sucesso da nova esquerda latino-americana

Muitos argentinos contemplam seu vizinho Uruguai com certa inveja. "Um país em que os sindicalistas não são ricos!", ironiza na televisão o jornalista Pepe Eliaschev. "Um país em que a esquerda conseguiu formar uma Frente Ampla e governar unida e racionalmente!", comenta o governador de Santa Fe, o socialista Hermes Binner.

  • Pablo La Rosa/Reuters - 29.nov.2009

    O presidente do Uruguai, Tabaré Vasquez (à esq.), aplaude o presidente eleito, José
    Mujica, após a vitória nas eleições presidenciais uruguaias, em Montevidéu, no Uruguai



"Se eu tivesse 15 anos a menos, iria para a Argentina e começaria a fazer política", afirmou o novo presidente uruguaio, José Mujica, durante a campanha eleitoral. "Lá são totalmente irracionais. (...) Têm reações histéricas, de loucos. O problema é político", acrescentou. E quase ninguém se aborreceu na Argentina, porque olham o pequeno Uruguai e se espantam com sua estabilidade e sua sensatez e porque adoram Mujica. "Eu disse um dia aos argentinos que tinham de gostar mais de si mesmos, e a partir daí sou Deus na Argentina", brinca Mujica.

"Eu sou dos que se equivocam. Meto as patas por ser excessivamente sincero. Mas não tenho preço!" El Pepe, como muitos uruguaios chamam Mujica afetuosamente, de fato não tem preço, em nenhum dos sentidos da expressão. É, fora de qualquer dúvida, um homem honrado. E também um personagem inusitado, não só pelas coisas extraordinárias que ocorreram em sua vida complexa, como por sua incrível capacidade de manter uma imagem de simplicidade.

Seus críticos o censuram por uma frase que repete com certa frequência: "Como digo uma coisa, digo outra". Mas Mujica não acredita que isso represente uma incoerência, senão vontade de negociar, de chegar a acordos que permitam avanços estratégicos para o Uruguai. E promete que sua presidência se caracterizará exatamente por "negociar, negociar, negociar. Até que seja insuportável".

"Estou fazendo dois cursos: um para aprender a calar um pouco mais a boca, porque agora tenho outras responsabilidades políticas; e outro, intensivo, para não ser tão 'nabo' (ingênuo). Parece incrível que a esta altura um jornalista me agarre e me faça falar durante 28 horas", disse, depois do escândalo provocado pela publicação de um livro no qual investiu contra todo mundo.

El Pepe é efetivamente capaz de falar durante 28 horas sobre o divino e o humano, e de fazê-lo, além disso, com seu extenso vocabulário de impropérios e com seu olhar agudo e independente. Mas José Mujica, 74 anos, é qualquer coisa menos um "nabo". É sobretudo um dos casos mais representativos do sucesso da nova esquerda latino-americana, que deixou de defender seus objetivos com as armas para considerar que das revoluções dos anos 60 e 70 "não restou nem a cinza" e que os programas de luta contra a desigualdade podem ser compatíveis com o respeito às regras básicas do mercado e da democracia. Definitivamente, que o gradualismo também pode ser de esquerda.

O maior símbolo dessa nova esquerda em toda a América Latina é o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, mas Mujica significa ainda algo mais, porque Lula foi um sindicalista que lutou com greves e manifestações, e o uruguaio, um guerrilheiro tupamaro que defendeu a luta armada e que, de fuzil na mão, sequestrou e combateu a polícia e o exército, não só durante a ditadura, mas também no início da democracia.

Mujica pagou muito caro. Passou 11 anos na prisão, dois deles diretamente enterrado em uma espécie de poço com muito pouca mobilidade. Sete anos sem ler nada. Foi um do chamado "grupo dos reféns" - nove dirigentes tupamaros que o exército uruguaio ameaçava fuzilar quando ocorria algum ato que ameaçasse a segurança da ditadura.

Outro desses reféns, Mauricio Rosencof, contou em livro sua alegria quando conseguiu se comunicar, graças a uma espécie de código morse, com um colega do outro lado da parede. A primeira palavra inteira que lhe fez chegar foi: "Felicidades". Lembrava que era Natal. Mujica, como Rosencof, pertence a esse formidável tipo de pessoas que são capazes de conservar o senso de humor e a capacidade de dialogar em condições subumanas.

"Durante aqueles dois anos no poço, descobri que as formigas gritam: basta aproximá-las do ouvido para comprovar", relatou Mujica em uma famosa entrevista que deu pouco depois de sair da prisão, em 1985. Mas os próprios soldados encarregados da custódia não foram capazes de suportar esse tratamento e pouco a pouco começaram a trocar palavras com os detidos e, um pouco mais adiante, inclusive lhes pediram que escrevessem cartas para suas namoradas.

"Tivemos uma experiência que não buscamos nem planejamos. Não podemos viver escravizados pelas contas pendentes da vida. Eu tenho memórias e recordações, mas uma coisa está bem clara: é importante olhar o passado, mas também é necessário perder o respeito por ele", explicou em uma entrevista ao jornalista brasileiro Marco Aurélio Weissheimer. "A vida é porvir", insistiu.

Ao chegar a democracia, com economias familiares e de sua companheira de toda a vida, Lucía Topolansky, que também foi tupamara e esteve presa, Mujica comprou uma pequena chácara a 20 minutos de Montevidéu. Ali vivia o casal e ali quer continuar vivendo, inclusive durante a presidência, porque sua maior alegria é cultivar flores, plantar verduras e fabricar um vinho caseiro com as uvas de suas parreiras.

Apesar de seus 74 anos, Mujica mantém a granja em produção e não é raro encontrá-lo em cima de um trator com roupas de trabalho e uma de suas duas cachorras (Victoria e Manuela) no colo. Manuela se meteu um dia na frente do trator e perdeu uma pata. Agora está quase o tempo todo no colo de um dos donos. "A chácara é muito importante", afirma Mujica. "Não sou nenhum maluco. Quando acabar minha fase política, chegará o momento de deixar de ser uma figura pública. Admiro o general Giap e Moshe Dayan, que se apagaram e foram viver em aldeias perdidas", explicou na campanha eleitoral.

É exatamente esse aspecto um pouco desalinhado de Mujica o que mais irrita alguns setores da sociedade uruguaia, que o censuram por "não vestir o cargo". Claro que a acusação básica contra Mujica é a possível existência de uma agenda autoritária, o que o novo presidente desmentiu várias vezes. Há quem o critique por não ter condenado explicitamente a violência dos tupamaros, o que é verdade, mas ele sempre disse que na sua opinião a única coisa que restou da esquerda não foi sua luta armada nem a imposição do Estado sobre todas as coisas, mas o fenômeno social-democrata.

"Eu digo a Hugo Chávez: olhe que você não vai construir nenhum socialismo com isso. O que vai ficar a favor aqui no Uruguai é que vão ter uma casa melhor, vão comer mais e vai ser uma reforma decente." Para Mujica, o maior perigo da esquerda é que "tem o mau costume de perder de vista esse pensamento estratégico".

Abraçado e carregado por seus seguidores, El Pepe lamenta que um excesso de carinho também possa matá-lo. "Eu aguento por temperamento. Os bons cavalos um dia morrem com os arreios postos...", comentou quando foi eleito senador.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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