UOL Notícias Internacional
 

09/12/2009

O boato que engoliu o MI6

El País
Walter Oppenheimer Em Londres
O dado de que Saddam poderia lançar um ataque químico em 45 minutos foi uma declaração de um taxista iraquiano

A informação da inteligência britânica de que Saddam Hussein poderia lançar um ataque químico em menos de 45 minutos foi obtida através de um taxista que a escutou de dois militares iraquianos, segundo revelou ontem um deputado britânico conservador. Embora o governo de Londres tenha admitido em outubro de 2004, um ano e meio depois da invasão do Iraque, que aquela informação foi falsa, a fragilidade da fonte original aumenta a ampla impressão de que o ex-primeiro-ministro Tony Blair exagerou o perigo que Saddam representava para conseguir que a opinião pública britânica apoiasse a invasão.

A questão dos 45 minutos esteve no centro da acalorada polêmica que na primavera de 2003 confrontou o governo Blair com a BBC e que terminou com o suicídio do professor David Kelly - fonte do vazamento para a BBC de que o governo havia tornado "mais sexy" aquele relatório, isto é, que o havia exagerado -, a demissão da cúpula diretora da corporação e o ostracismo do jornalista que divulgou as denúncias de Kelly, Andrew Gilligan, que abandonou a BBC.

Tony Blair foi absolvido de qualquer responsabilidade na investigação realizada pelo juiz lorde Hutton, qualificada de "encobrimento" pela imensa maioria da mídia. Em uma segunda investigação sobre o Iraque, o alto funcionário lorde Butler voltou a inocentar Blair, embora de forma menos cabal: concluiu que os argumentos para justificar a guerra haviam chegado "ao limite" do sustentável, mas que não houve "distorção deliberada".

Há um mês o Reino Unido vive uma nova investigação, conduzida por outro ex-alto funcionário, sir John Chilcot. Não por acaso, a revelação de que a fonte daquela informação foi um taxista imigrante que trabalhava na fronteira do Iraque com a Jordânia foi conhecida justamente no dia em que comparecia diante dos investigadores o que era então chefe do Comitê Conjunto de Inteligência e depois chefe do MI6, sir John Scarlett.

A informação foi revelada pelo jovem deputado conservador Adam Holloway, 44 anos, um especialista em defesa, antigo Granadeiro Real e jornalista, muito próximo ao líder conservador, David Cameron. Alguns comentaristas ligados ao trabalhismo salientaram ontem que a notícia coincide com uma diminuição da diferença entre conservadores e trabalhistas. Uma pesquisa da Populus para "The Times" dá 38% dos votos aos conservadores, 30% aos trabalhistas e 20% aos liberais democratas.

Scarlett não foi perguntado diretamente sobre a questão do taxista, mas reafirmou sua posição de que "não houve absolutamente qualquer intenção consciente de manipular a linguagem, ofuscar ou criar algum mal-entendido" no relatório dos 45 minutos. No entanto, o governo ignorou as advertências dos serviços secretos, que questionavam a confiabilidade dessa informação, e nada fez para retificar o mal-entendido de que Saddam poderia lançar em menos de 45 minutos um ataque químico com mísseis balísticos de longo alcance, quando o relatório se referia a um ataque com armas no campo de batalha.

Scarlett se eximiu ontem da introdução de Blair ao relatório, na qual afirmava que fora comprovado "sem dúvida alguma" que Saddam tinha armas de destruição em massa. "Considero a introdução como algo separado do texto do relatório. Foi uma declaração abertamente política do primeiro-ministro, eram portanto suas palavras e seus comentários", disse.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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