UOL Notícias Internacional
 

10/12/2009

"Temos de trazer imigração boa e descartar a outra", diz o ministro italiano da Agricultura e dirigente da Liga Norte

El País
Miguel Mora Em Roma
Afirma que é apaixonado pela Espanha, por seus cavalos, e que lê "El País" todos os dias. Não é a única raridade de Luca Zaia, ministro da Agricultura da Itália e político emergente da Liga Norte. Nascido em Treviso há 41 anos, veterinário e enólogo, Zaia vive no próspero campo do nordeste da Itália, e como seu líder, Umberto Bossi, é um "padano" [natural da Padânia, nome dado pela Liga Norte à região centro-norte da Itália] puro, direto e xenófobo. Não resiste à tentação de lançar slogans de ódio e classifica os imigrantes em "bons e maus".

A entrevista ocorreu antes da feroz polêmica que na quarta-feira confrontou a Liga Norte com o Vaticano, depois que seu colega Roberto Mateoli acusou o bispo de Milão, Dionigi Tettamanzi, de ser "um imame" por defender a liberdade de culto dos muçulmanos e criticar a perseguição sistemática dos ciganos.

Na segunda-feira, na estreia da ópera "Carmen" no teatro La Scala em Milão, um eurodeputado da Liga disse: "A Carmen é a única cigana de que gostamos". Na quarta-feira o Vaticano expressou seu "estupor e desgosto" e pediu respeito para Tettamanzi.

El País: Por que a Liga Norte parece ser o único partido italiano que funciona?
Luza Zaia:
Temos um chefe que manda, uma boa organização territorial e muita disciplina. Todos saímos de baixo e subimos cada escalão. Temos seções municipais, de circunscrição, provinciais, regionais e nacional, em nosso caso federal, ou seja, padana. Eu comecei bem lá embaixo e cheguei a ministro.

El País: Mas Bossi continua sendo a alma.
Zaia:
A Liga é Bossi, e Bossi é a Liga. Não há alternativas. É o fundador, o inspirador, e ainda hoje um ideólogo puro, o homem das ideias.

El País: Não está diminuído pelo acidente vascular que sofreu?
Zaia:
Há pouco tivemos uma reunião e ele esteve lá durante três horas, fumando seus charutos. Continua funcionando bem, com alguma dificuldade a mais.

El País: Qual é o segredo de seu apoio a Berlusconi?
Zaia:
Ele respeita a Liga porque nós escutamos e interpretamos os desejos da população: ordem pública e segurança, mais autonomia regional, fiscalidade federalista, luta pela identidade de nossos agricultores e de nosso território. Na Espanha isso é normal, não? Aqui rumamos para uma crescente perda de identidade regional.

El País: Dizem que o senhor é um grande protecionista.
Zaia:
Não conheço nenhum conselheiro delegado que trabalhe para outros.

El País: A guerra do azeite com a Espanha foi resolvida?
Zaia:
Desde 1º de julho podemos pôr as etiquetas de cada país nos recipientes. Os melhores azeites do mundo são o italiano e o espanhol, mas o melhor é o italiano. Agora o consumidor não corre o risco de comprar azeite da Tunísia ou da Grécia como se fosse italiano. Eu não vejo guerra, pelo contrário. Espanha e Itália deveríamos criar a Opep do azeite para entrarmos juntos em novos mercados. Deveríamos criar um eixo forte.

El País: O que o senhor acha da decisão de Sarkozy de financiar seus agricultores?
Zaia:
Todos queríamos fazer isso. Devemos fazê-lo. A Europa deve entender que os custos de produção no sul são muito mais altos. Não é a mesma coisa fazer um vinho em uma vinícola espanhola e em uma vinícola romena.

El País: Falando em romenos, Gianfranco Fini disse que quem pensa que os estrangeiros são diferentes dos italianos é um "stronzo" [imbecil]. O senhor se sente "stronzo"?
Zaia:
Eu não tenho preconceitos, por isso não sou um "stronzo". Mas seria grave se os italianos não nos defendêssemos dos estrangeiros criminosos; 75% da população carcerária da Itália são estrangeiros. E só temos 6% de imigrantes. O problema não é a diversidade, mas fazer os estrangeiros entenderem que só devem vir trabalhar e viver, não praticar crimes. Durante anos enviamos uma mensagem equivocada e muitos pensaram que aqui não havia lei nem ordem. Devemos começar a falar de duas migrações: a econômica, que vem por exemplo de países como Marrocos e volta para casa no Natal; e a humanitária, que vem de países em conflito.

El País: Vocês eram um país de acolhida para os refugiados políticos, e hoje os devolvem para a Líbia em alto-mar.
Zaia:
Fazemos como os espanhóis, aprendemos com a França e a Espanha. A devolução tem no final um perfil humanitário: evita-se a exploração e luta-se contra as máfias locais que cobram deles não para trazê-los, mas para afogá-los no mar. Não podemos ser a ponte de entrada na Europa porque não somos um país de trânsito. Na Itália é preciso se esforçar muito para ir para a prisão, e muitos se aproveitam disso.

El País: A Itália precisa de imigrantes para continuar crescendo.
Zaia:
É um falso problema. Suponho que os espanhóis também pensem que vão primeiro os nacionais e depois os imigrantes. Agora tem um índice de desemprego muito alto e seria mais correto dar trabalho aos nacionais do que dizer que há necessidade de mais imigrantes. Tivemos meio milhão de desempregados este ano. Devemos cuidar da fome dos nossos e também da dos outros?

El País: Não acha que a solidariedade tem valor?
Zaia:
Se não fosse pela Liga, não estaríamos devolvendo imigrantes. Lampedusa era um centro turístico, entravam 19 mil pessoas por ano. Era preciso dizer aos que vêm que aqui os operários ganham menos de 1.000 euros por mês, que com esse dinheiro não se chega ao fim do mês, que isto não é o sonho americano.

El País: Vocês equipararam a imigração clandestina ao terrorismo ou à máfia na lista de crimes coberta pela reforma do processo breve. Não é exagero?
Zaia:
Sim, mas só elevando o nível da propaganda podemos obter resultados. Devemos ser muito claros para garantir a coesão civil e a convivência. No papel assusta, mas não podemos baixar a guarda. Tivemos clandestinos que violam mulheres, que assassinam, e não conseguimos condená-los. É duplamente grave que um sem-papéis cometa um crime. O que fazemos com essa gente?

El País: Detê-los com as patrulhas cidadãs?
Zaia:
Em nossas patrulhas saem muitos imigrantes conosco. Temos dificuldades para submetê-los.

El País: Não seria melhor integrá-los e associá-los menos à criminalidade?
Zaia:
Os imigrantes contribuem com 5% do PIB da Itália. E eles são os primeiros que pedem mão dura porque são as primeiras vítimas dessa criminalidade. Devemos evitar que se repita a história de Al Capone em Nova York. Devemos resgatar os membros da imigração boa e descartar a outra.

El País: Não lhe parece um sarcasmo que o país da máfia, da Camorra e da N'Drangheta considere os estrangeiros o grande perigo?
Zaia:
Nós prendemos dois mafiosos por dia. Não é assim. E as máfias italianas usam como bases os imigrantes. Os albaneses e os nigerianos criaram máfias que atuam no norte. A prostituição é coisa dos nigerianos, no norte você não encontra um italiano nesse negócio. Os albaneses chegaram nos anos 90 e agora temos de tudo, empresários e artesãos que pagam imposto e outros que administram a prostituição.

El País: Como se vive sendo ministro de Berlusconi?
Zaia:
Eu já conhecia isso. Trabalhamos com visão empresarial, raciocinamos com uma lógica empresarial. Temos objetivos e um orçamento. E não há crise em absoluto na maioria. Somos um bloco muito sólido. Às vezes a vontade de mostrar os músculos nos trai. Precisamos de uma oposição forte, e como não a temos nós mesmos a fazemos.

El País: O senhor acredita que haja um complô contra Berlusconi?
Zaia:
É um filme muito visto. Quando governamos, sempre acontece alguma coisa. Não temos tempo de entrar em debates com os juízes. Todos somos inocentes até que se demonstre o contrário, inclusive os juízes.

El País: Vão pedir a secessão da Padânia?
Zaia:
Se não fizerem as reformas, o faremos. Madri é uma capital centrípeta. Gostamos do modelo espanhol, a Liga se reconhece no modelo autonômico catalão. O gasto público deve ser administrado pelas regiões. Há necessidade de mais concorrências. Não tem sentido cobrar e mandar o dinheiro para Roma ou a Calábria. Se uma operação em Milão custa 500 euros e na Calábria, 3.000, o norte deve pagar a diferença?

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    11h40

    -0,05
    3,166
    Outras moedas
  • Bovespa

    11h45

    -0,41
    65.397,30
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host