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11/12/2009

Residências à beira-mar perderam valor em Cuba por causa das mudanças climáticas

El País
Mauricio Vicent
Em Havana
Os furacões são cada vez mais frequentes e intensos. Duzentos povoados costeiros deverão ser transferidos ou protegidos.

"O quê, minha filha? Essa é zona de inundação! Para lá, nem morto!" A frase se transformou em uma cruz para Mariela, que há anos tenta trocar sua casinha de um quarto na rua 1ª no bairro de El Vedado, a poucos metros do quebra-mar, em uma cômoda área residencial de Havana. "Todo mundo gosta de El Vedado, mas sempre que digo o endereço é a mesma coisa", lamenta.

Como Mariela, milhares de pessoas encontram grande dificuldade para mudar de bairro em Playa, Jaimanitas, Santa Fé e outros distritos costeiros da capital: as residências à beira-mar estão muito desvalorizadas. É verdade que antes também havia inundações e furacões; mas as pessoas garantem que hoje eles ocorrem com maior frequência.

Verdade ou não, a psicose é geral. "Cada vez que Rubiera anuncia que está se formando uma tempestade tropical, começo a tremer", diz Miguel Ramírez, um taxista de 50 anos que passou a metade da vida morando em uma garagem transformada em apartamento no bairro de Miramar. O homem ao qual Miguel se refere é José Rubiera, diretor do Centro de Prognósticos do Instituto de Meteorologia. É um dos rostos mais populares de Cuba por ser o principal especialista em furacões e o encarregado de informar quando um ciclone está se aproximando.

Miguel diz que lembra de três grandes inundações desde que está instalado aqui. "Na primeira a água chegou até meu joelho. Na de 1993, a Tempestade do Século, na altura da cabeça. Na de outubro de 2005 (em consequência do furacão Wilma), o mar passou do teto", recorda. "E vai continuar", resume. Seus vizinhos confirmam: "Aqui há pessoas que perderam tudo várias vezes. Antes havia quem ficasse atordoado; agora, cada vez que há risco de penetração do mar, começamos a correr".

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No Instituto de Meteorologia, José Rubiera quer ser o mais preciso possível: "Não está claro se a mudança climática vai provocar um maior número de furacões por temporada. Mas há consenso em uma coisa: os ciclones terão cada vez maior intensidade".
Isso se deve, entre outras causas, ao aquecimento do planeta. As águas quentes são o alimento ideal para os furacões... e Rubiera dá um dado recém-saído do forno: a Organização Meteorológica Mundial acaba de declarar a década de 2000-2009 "a mais quente desde que existem medições".

O meteorologista constata outro fato: o ano passado foi especialmente "dramático" na região; formaram-se 16 tempestades tropicais e "oito se transformaram em furacões, vários muito intensos". Destes, três atingiram Cuba - o Gustav, o Ike e o Paloma -, provocando desmoronamentos totais ou parciais em 500 mil moradias - 15% das existentes na ilha - e arrasando um terço das colheitas.

Os cientistas cubanos estudam há anos os efeitos previsíveis da mudança climática na ilha e como a população deve se preparar para enfrentá-la. Existem análises precisas, por exemplo, de como afetará o aumento do nível do mar e as inundações nos povoados vulneráveis. Calcula-se que nas áreas costeiras de Cuba vivam cerca de 12% dos habitantes, 1,4 milhão de pessoas, concentradas em 245 assentamentos, 181 deles rurais e 64 urbanos.

"Durante este século, o aumento do nível do mar poderia prejudicar 94 assentamentos em costas com menos de um metro, onde vivem cerca de 100 mil habitantes. Prejudicaria também 42 mil hectares de terra e mais de 200 mil de manguezais e outros recursos vegetais", alerta um estudo do Centro Nacional do Clima e do Instituto de Planejamento Físico. Segundo Rubiera, a área mais inclinada a sofrer os efeitos dos furacões e o risco das consequentes penetrações do mar é "a costa sudeste, entre Cienfuegos e Pinar del Río".

O meteorologista salienta que o Estado está plenamente consciente de que o desafio é prevenir e antecipar-se aos desastres. "A localidade de Guayabal, destruída na costa sul-leste pelo furacão Paloma no ano passado, está sendo construída agora a 5 km da praia", comenta. Cerca de 200 povoados que se encontram a menos de 1 km da linha de costa, "eventualmente deverão ser transferidos ou protegidos diante de uma mudança nas condições do mar", dizem fontes do Ministério da Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente.

A mudança climática não influi só nos furacões e nas inundações. Os especialistas cubanos, pioneiros no estudo dessa problemática região, consideram "especialmente temível" o aguçamento da seca na região leste, onde vive um quarto dos 11 milhões de cubanos. Outro assunto grave é a desertificação e degradação dos solos, que já afeta 14% do território da ilha e está aumentando. Investiga-se também a relação entre a mudança climática e a extensão de doenças contagiosas como a dengue.

Ramón Fimias Marín leva as mãos à cabeça. O agricultor de 77 anos, residente na localidade de Fomento, província de Villa Clara, diz que nunca em seu povoado a seca havia sido tão dura e prolongada. "Eu perdi o arroz e o milho e tive de cultivar cana para dar de comer ao gado", conta. Como Mariela e Miguel, Ramón acredita que se o mundo "não acordar", acabaremos mal. Pela seca ou pelos furacões, dá no mesmo.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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