UOL Notícias Internacional
 

12/12/2009

Uma história de amor entre uma saariana e um espanhol

El País
Manuel J. Albert
Em Córdoba (Espanha)
Volta a Córdoba uma saariana retida em Tindouf por sua família para afastá-la do namorado espanhol. Eles se reencontraram após 16 meses afastados.

Maimuna Bachir Mohatar e seu namorado, Pablo Miranda, voltaram a se beijar na terça-feira, depois de 16 meses separados. Ela acabava de chegar a Alicante (sul da Espanha) com sua mãe em um ferry-boat procedente de Oran (Argélia). Ele, meio escondido, a esperava no porto. Depois de conseguir escapar da vigilância materna, a garota de 21 anos fugiu com o rapaz. Maimuna, de origem saariana mas criada na Espanha, deixava assim para trás um pesadelo nos acampamentos saarianos de Tindouf (Argélia), onde supostamente foi retida por sua família contra sua vontade.

Enquanto isso, Pablo, 22, lutou nos juizados e na mídia para conseguir que ela voltasse. Na última terça-feira o casal se reencontrou. "Fomos cerca de dez ou 12 parentes até Alicante", lembra o jovem. "Soubemos que Maimuna voltava com sua mãe no ferry. Nos separamos no porto, tentando que sua família não nos visse. Quando todos desembarcaram, me aproximei do controle de passaportes. Então a vi. Maimuna passou antes de sua mãe, me viu, se aproximou e fomos rapidamente embora", conta. Do carro, a jovem telefonou para sua mãe e lhe disse que estava bem e com seu namorado.

Entre seu desaparecimento e seu retorno, Maimuna e Pablo viveram uma série de dissabores, como dois planos de fuga frustrados de Tindouf, denúncias por detenção ilegal contra parentes da garota - que eram contra a relação - e um intercâmbio doloroso em conversas por telefone às escondidas. Na sexta-feira, na casa de Pablo, em Encinas Reales (Córdoba), os dois se olhavam. Cansados, sorriam e se abraçavam, sem querer lembrar do 9 de agosto de 2008, quando Maimuna desapareceu com apenas 19 anos.

O primeiro a dar o alarme foi Pablo. "Ela foi à força, a levaram", repetia. O pai da garota afirmava, ao contrário, que sua filha tinha ido "por vontade própria" com sua mãe e um de seus irmãos para os acampamentos de saarianos. Mas isso não convenceu Pablo. Então começou, para ele e seu advogado, José Antônio Serrano, uma odisséia jurídica e emocional para demonstrar que Maimuna estava no Saara contra sua vontade, e poder trazê-la de volta. A família do namorado e seus amigos pregaram cartazes, distribuíram folhetos, recolheram assinaturas e mantiveram uma página na Internet pedindo informações.

Finalmente o caso chegou aos tribunais, e o pai, a mãe e dois irmãos da garota foram acusados de um suposto delito de detenção ilegal. De fato, o advogado acredita que a chegada de Maimuna se deve a uma tentativa de sua família para que a garota deponha a seu favor à juíza de Lucena (Córdoba) e retire as acusações. Além disso, Serrano tem certeza de que a intermediação do governo espanhol também provocou esse desenlace.
Mas até então as notícias de Maimuna não os tranquilizavam. A garota só pôde falar com Pablo quando conseguiu esconder um celular facilitado por um ajudante espanhol. E o que o rapaz ouviu o marcou. Ela relatou um calvário de pressões, coações e maus-tratos. E dizia que queria ir embora. Na sexta-feira, Maimuna não quis fazer comentários. "Estou muito cansada. Não quero mais falar de minha família. Depois falarei com eles", dizia. Este jornal entrou em contato com o pai de Maimuna, Bachir Mokhtar Bubadus, que não quis responder a perguntas.

Além de depor diante da juíza, Maimuna espera agora uma tarefa complexa e dolorosa. Por um lado quer preservar sua autonomia e sua relação com Pablo. Mas por outro deseja normalizar de alguma maneira sua complexa relação familiar. Sobretudo, diz: "quero agradecer a todos os que lutaram por mim".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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