UOL Notícias Internacional
 

14/12/2009

O manual de conduta dos sequestradores da Al Qaeda

El País
José María Irujo Em Madri (Espanha)
Um documento da rede terrorista detalha o que seus integrantes podem fazer com os sequestrados: casar-se com as mulheres, assassinar os militares e pedir resgate pelo restante

Num apartamento do popular bairro de Takrzaina, em Nuakchott, capital da Mauritânia, os policiais encontraram em 2008 um documento intitulado "A lei dos prisioneiros estrangeiros", um manual clandestino da Al Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI) sobre o que fazer e como tratar os sequestrados. Os três pontos principais do documento refletem a mente distorcida dos membros do grupo salafista argelino que atua com liberdade pelo inóspito deserto de Sahel: 1) Se houver uma mulher entre os sequestrados, pode-se tomá-la como esposa; 2) se forem inimigos (militares, policiais ou agentes secretos), há autorização para matá-los; 3) se não o são, deve-se negociar um resgate em dinheiro ou uma troca de prisioneiros. Os analistas franceses que assessoram a polícia mauritana estimam que os três membros da ONG catalã supostamente sequestrados por este grupo terrorista se encontram nesta última categoria. "Esperamos que peçam um resgate", afirma um chefe da luta antiterrorista espanhola.
  • AP

    No manual da rede terrorista de Osama Bin Laden, um detalhamento do que os integrantes podem fazer com seus prisioneiros: casar-se com as mulheres, matar militares e pedir resgate pelo resto



O manual, um punhado de folhas escritas em árabe, foi encontrado na casa onde se refugiou Jahen Olsaman, um islamista suspeito de participar do assassinato de quatro franceses, uma família com dois menores que passava férias de Natal a 250 quilômetros da capital mauritana. Olsalam cumpre hoje sua pena na prisão mauritana de Lahsar junto com outros 24 membros da AQMI, o grupo aliado a Osama bin Laden que tira o sono do chefes de inteligência de toda a Europa.

A AQMI se nutre de militantes de seis nacionalidades: argelinos, marroquinos, tunisianos, mauritanos, malineses e senegaleses, e, na Europa, recruta integrantes principalmente na Espanha e na França, segundo informes confidenciais do Centro Nacional de Inteligência (CNI), O Comissariado Geral de Informação da Polícia e a Guarda Civil.

Olheiros como o professor de taekwondo marroquino Mbar el Jaafari, preso em Reus em 2007, enviaram mais de uma centena de recrutas da Espanha para Sahel, para serem treinados no deserto com armas pesadas, morteiros e explosivos, segundo fontes consultadas por "El País".
Outros grupos, como o dos seis islamitas que foram julgados há algumas semanas na Audiência Nacional, em Madri, invadem chalés na Costa do Sol e roubam joias para financiar sua atividade no deserto. Eles fornecem um fluxo intermitente de centenas de milhares de euros para financiar a jihad na nova base da Al Qaeda na África. As prisões espanholas são uma mostra de sua frenética atividade na Espanha. "Até quando nossos filhos, irmãos e mulheres puras e virtuosas abarrotarão suas prisões?", perguntava-se um dos dirigentes num comunicado.

Um analista de inteligência espanhol explica a situação da seguinte
maneira: "São imigrantes marroquinos e argelinos de primeira e segunda geração que deixaram tudo, família e trabalho na Espanha, para se juntar à jihad na África. Desapareceram de repente de suas casas e mais tarde ficamos sabendo que viajaram para o Sahel, um destino tão apreciado por eles quanto antes o era o Iraque".

Desde 2007, os informes das Forças de Segurança espanholas advertem ao governo de forma reiterada e sem rodeios sobre a ameaça representada por esta nova base da Al Qaeda na África. "Dos atentados e sequestros no Sahel, eles podem passar a enviar grupos à Espanha para semear o terror. Isso sim que nos preocupa", afirma um chefe da Guarda Civil.

O libanês Abu Yahya al Libi é o ícone dos jovens mauritanos que se unem à AQMI, uma organização que reúne o Grupo Islâmico Combatente Líbio, do qual provém Yahya, o Grupo Islâmico Combatente Marroquino (GICM), vinculado ao 11-M, os salafistas argelinos do Grupo Salafista para a Pregação e o Combate (GSPC), além de movimentos tunisianos e outros grupos satélites. "Não há desculpa para ficar fora desta aliança... A 'umma' (comunidade) não pode vencer seus inimigos se não for capaz de renunciar a suas diferenças", advertiu em 2006 o emir Abu Musad Abde-I-Wadud em seu manifesto de adesão a bin Laden.

Nos anos 90, Abu Yahya, o herói dos islamistas mauritanos, estudou religião durante cinco anos numa madrasa (escola muçulmana) mauritana, casou-se com uma jovem local com a qual tem vários filhos e juntou-se a bin Laden no Afeganistão. Depois da invasão norte-americana em 2001, foi capturado e fugiu da prisão de Bagram. Desde então, aparece em vídeos na Al Jazeera nos quais justifica a jihad.

Sua esposa mora em Nuakchott e promove a imagem de seu marido com protestos diante do governo mauritano. A polícia a vigia e a proibiu de sair do país para viajar a Meca. Os Estados Unidos oferecem uma recompensa de US$ 1 milhão por Abu Yahya al Libi. Foi ele quem plantou a semente islamista que agora cresce na Mauritânia, um país muçulmano de cerca de 3,3 milhões de habitantes, onde antes não era comum ver barbas longas, burkas nem véus.

A base da Al Qaeda no Sahel, a região árida e semi-desértica da África que se estende desde o oceano Atlântico até o Mar Vermelho, tem seu refúgio mais seguro em Mali, país que faz fronteira com a Mauritânia e para onde os sequestradores supostamente levaram os espanhóis. Dos
13,5 milhões de habitantes, 90% são muçulmanos, há 17.500 mesquitas, mas em Bamaco é difícil encontrar uma burka. Em Timbuctu e Gao, ao norte do país, é diferente. Ali fica o cativeiro preferido da AQMI para esconder seus sequestrados, uma zona impossível de vigiar, para onde George Bush enviou forças especiais para treinar o raquítico exército de cerca de 7.500 homens. "Um esforço insuficiente", nas palavras de um diplomata da região.

"Não me cumprimente na rua"
Mohamed, um profissional mauritano que mora em Madri, explica a mudança que aconteceu em seu país: "Um dia bateram à minha porta. Era um amigo que havia desaparecido da cidade. Estava com uma barba comprida e vestia uma túnica. Olhou para mim e disse: 'Sua família não cumpre as regras do Alcorão. Por favor, não me cumprimente quando me encontrar na rua'. Pouco depois o prenderam como suspeito de ter participado de um atentado. Esta é a consequência do trabalho de pessoas como Abu Yahya." Jovens de um país pobre e sem oportunidades, como o argelino Ahmed Salem Uld M'Beinik, que no mês de agosto passado se lançou com um cinturão de explosivos contra a embaixada da França em Nuakchott.

Segundo sua mãe, ele não sabia nem uma palavra do Alcorão, o homem que o recrutou ofereceu-lhe trabalho como vendedor de peixes na fronteira e fez-lhe uma lavagem cerebral para que se suicidasse por Alá. "Saiam, que tenho uma bomba!", gritava o rapaz para os transeuntes ao chegar perto do escritório diplomático. O terrorista tropeçou contra um muro e dois policiais e uma jovem ficaram feridos. Meses antes, o norte-americano Christophe Languet fora assassinado a tiros no centro de Nuakchott. "Temos medo de que isso se transforme em uma nova Somália", confessa um funcionário mauritano.

A adesão cega da AQMI a bin Laden se reflete no comunicado que Abu Musab Abde I Wadud, o emir do Grupo Salafista para a Pregação e o Combate (GSPC), divulgou em em 2006. "Decidimos prometer fidelidade ao chefe Osama bin Laden. Fechamos o acordo com um aperto de mãos e oferecemos a ele o fruto de nossos corações. Continuamos nossa jihad na Argélia sob seu comando, para atacar, em nome de Alá, quem ele quiser, e quando quiser."

Tradução: Eloise De Vylder

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