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16/12/2009

O Chile "desconcertado": derrota da coalizão de esquerda pode dar fim ao atual modelo partidário do país

El País
Miguel Ángel Bastenier
El País
Depois da transição inicial nos anos 90, a derrota da coalizão no poder põe fim à transição da transição

Procura-se um novo Chile, mas não muito diferente do que ainda está no poder; quem o encontrar será recompensado com um saco de votos. E ganhe quem ganhar o segundo turno das eleições presidenciais, em 17 de janeiro próximo, seja a direita representada do centro pelo multimilionário Sebastián Piñera, ou a esquerda euro-educada, encarnada pelo democrata-cristão e igualmente centrista Eduardo Frei, uma certa maneira de governar terá passado para uma vida melhor depois do confronto eleitoral de domingo passado: a Concertação - formada pela democracia cristã e o Partido Socialista, mais dois partidos menores -, que nunca havia sido derrotada e governa desde o restabelecimento da democracia em 1990, quase não poderá sobreviver se não conseguir se reinventar. E também parece complicado o futuro da coalizão triunfante, formada por Renovação Nacional (RN), dirigida por Piñera, e a União Democrática Independente (direita-direita), que avaliam diferentemente a ditadura do general Pinochet (1973-1989).

A mudança não consiste, entretanto, em que o grande favorito seja o candidato liberal-conservador, que obteve 44% dos votos, mas o que se concluiu no domingo foi a transição da transição.

A Concertação é a criadora do Chile pós-Pinochet; como ocorre na Argentina com o peronismo e na Colômbia com o Partido Liberal - em ambos os casos com raras exceções -, quase tudo na política do país procede ou passou pela bem-sucedida coalizão de centro-esquerda.

Dos quatro principais candidatos do primeiro turno, três são ou foram membros da Concertação: Frei, que já foi presidente em 1994 e filho de Frei Montalva, também chefe de Estado; Marco Enríquez Ominami, que só em junho passado abandonou o Partido Socialista e sem organização política própria, apostando apenas no desgaste do governo, ficou em terceiro com 20% dos votos, mas a 10 pontos de Frei, que disputará o ataque final à direita; e Jorge Arrate, comunista, com 6% dos votos, que também procede da coalizão.

Piñera havia compreendido que para ganhar teria de morder o voto desgastado do agrupamento governante, e assim soube aproximar-se de formações regionais como a Força do Norte do senador Carlos Cantero; de democratas-cristãos esgotados por duas presidências socialistas consecutivas (Ricardo Lagos e Michelle Bachelet), ao mesmo tempo que céticos de Frei; e até fragmentos da Concertação como Fernando Flores, fundador de um novo partido, Chile Primeiro, que foi ministro de Salvador Allende, esteve preso e passou 14 anos no exílio depois do golpe militar de 1973. Sintoma inequívoco, como diz o comentarista Héctor Soto, de que "a Concertação se desfaz".

As rachaduras na máquina governante já tinham aparecido quando os radicais (PRSD) e o PPD apresentaram listas próprias nas eleições municipais de outubro de 2008, e em julho passado o primeiro deles entreteve a ideia de disputar separadamente as presidenciais. Tanto Piñera como Ominami contribuíram poderosamente para uma explosão por enquanto controlada do sistema de partidos.

O neolíder esquerdista de 36 anos, muito ligado à presidente Bachelet, parece algo mais que um gravíssimo incômodo eleitoral. Como diz seu biógrafo do momento, Patricio Navia: "Seu negócio é sair da Concertação para voltar a ela"; quer dizer, para reconstruí-la, talvez à base desse opiáceo hoje tão comum que é a juventude, a favor de uma social-democracia ainda mais à europeia.

E cabe esperar de tudo isso uma reconfiguração do panorama político com a separação de elementos constituintes não só da coalizão de esquerda, como também da direitista, com o eventual distanciamento entre a RN de Piñera, antipinochetista ativo, e a UDI, que não olha para trás com ódio.

Estas foram as primeiras eleições depois da morte do general golpista, e, embora sua sombra tenha deixado de pairar sobre o poder, há algo simbólico em que o sistema seja capaz de gerar uma alternância entre direita e esquerda. Por isso, se os primeiros anos 90 em que o general definiu os limites de uma democracia que se afastava com tato da ditadura foram uma transição inicial, a derrota eleitoral da coalizão governante põe fim à transição da transição.

Agora é preciso buscar uma segunda respiração para o Chile, diferente mas não distante da primeira, porque capitalismo e política social continuarão onde estavam. A centro-esquerda fez o que dela se esperava; e por isso seus elementos componentes poderão recuperar a liberdade de ação.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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