UOL Notícias Internacional
 

20/12/2009

México é condenado por não evitar assassinato de três mulheres

El País
Pablo Ordaz Na Cidade do México
Chamava-se Esmeralda e tinha 15 anos. Chamava-se Laura e tinha 17. Chamava-se Claudia e tinha 20. As três foram encontradas mortas, seus corpos violentados, na terça-feira, 6 de novembro de 2001. Apesar de não se conhecerem em vida, foram encontradas juntas em um descampado de Ciudad Juárez, a cidade mexicana que faz fronteira com os EUA onde desde 1993 vêm desaparecendo "mulheres jovens, inclusive meninas, trabalhadoras - sobretudo das fábricas -, de poucos recursos, estudantes ou migrantes".

É o que diz a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que acaba de condenar o México por não evitar que fossem mortas, por não procurar os assassinos nem sequer dar consolo a suas mães. O que a sentença não diz é que Esmeralda, de 15 anos, tinha um sonho: "Ela me
dizia: 'Mãe, vou estudar e vou tirar a senhora do trabalho. A senhora vai ser minha rainha, mãe, vai ser minha rainha..."
  • Arquivo AP

    Grupo "Mulheres de Preto" protesta contra o número de mortes de mulheres em Ciudad Juárez


A voz de Irma Monreal, a mãe de Esmeralda, se quebra através do telefone. Já se passaram oito anos. Os mesmos que ela e as mães de Laura e de Claudia empregaram buscando justiça para suas filhas. Em seu nome e no das 379 meninas e mulheres, talvez mais, que até 2005 foram sequestradas, torturadas, violentadas e assassinadas na cidade de fronteira, sem que na maioria dos casos seus carrascos tenham pagado ainda por isso.

Esmeralda, Laura e Claudia tinham o perfil de presas fáceis. A menor, Esmeralda Herrera Monreal, desapareceu em 29 de outubro de 2001, depois de sair da casa onde trabalhava como empregada doméstica. Laura Berenice Ramos Monárrez, de 17 anos, ainda estudava. Desapareceu em 22 de setembro, depois de telefonar para uma amiga para lhe dizer que estava pronta para ir a uma festa. Claudia Ivette González tinha 20 anos e acabava de chegar a Ciudad Juárez como tantas outras jovens do interior do México que procuram trabalho nas indústrias "maquiladoras". Em 10 de outubro ela chegou dois minutos atrasada à fábrica e não a deixaram entrar. No caminho de volta, desapareceu. Meninas, estudantes, jovens trabalhadoras...

O calvário que suas mães passaram desde o dia em que desapareceram está relatado na sentença. São 716 páginas. Em algumas delas é preciso afastar a vista e respirar fundo antes de continuar lendo. Não só pelo estado em que foram encontrados os restos das três garotas, como também pela forma como suas mães foram tratadas quando, temendo o pior, procuraram as autoridades para pedir ajuda. À mãe de Esmeralda, os policiais disseram: "Se aconteceu isso é porque ela procurou, porque uma boa menina, uma boa mulher fica em casa". Com a mãe de Laura não foram mais compassivos: "Todas as meninas que se perdem, todas, vão com o namorado ou querem viver a vida sozinhas". Quando a mulher insistiu para que a acompanhassem a uma festa para buscar sua filha, lhe responderam: "Não podemos; vá a senhora para relaxar e tome umas geladas a nossa saúde..."

Mesmo depois de encontrar os corpos, as mães de Esmeralda, Laura e Claudia tiveram de lutar contra o desprezo das autoridades. "Até que me deixaram ver o corpo de minha filha passaram cinco meses", conta a mãe de Laura. "Já eram só ossos. Mas eu precisava saber se era minha filha. Disse à promotora que se eu reconhecesse o corpo teria de me entregar como presente de aniversário. Ela disse que eu era muito cruel, mas que sim. Em 20 de março consegui entrar para reconhecer os ossos e me disseram que poderia fazer o que quisesse com eles."

Mas o pesadelo não terminou aí. Quando souberam que suas filhas tinham sido assassinadas, as três mulheres lutaram para buscar os culpados. Queriam que todo mundo soubesse que a única culpa de suas filhas tinha sido a de ser mulher, jovem, de origem humilde...

Então começou outra perseguição. É o que explica muito bem a sentença:
"Depois de identificar o corpo de sua filha, a senhora Monárrez começou a receber ameaças. Disseram-lhe que se continuasse falando iam matá-la ou fariam desaparecer seus filhos. Um dia ela notou que uma caminhonete a seguia, a qual acelerou e tentou atropelá-la duas vezes. Quando voltou para sua casa, alguém havia entrado e revistado os documentos relacionados à morte de sua filha".

Por tudo isso, a Corte Interamericana de Direitos Humanos acaba de emitir uma sentença histórica e exemplar contra o México. Um consolo - único depois de tanto tempo - para Irma Monreal. "Minha Laura foi morta e não pude ser sua rainha. Mas lutei todos esses anos para que ela o fosse. Para que ela fosse minha rainha e seu nome ficasse limpo. Hoje voltei a ser um pouquinho feliz", ela diz, chorando.

Uma decisão exemplar
O Estado mexicano foi condenado por descumprir seu dever de prever e investigar devidamente o assassinato em 2001 de três mulheres em Ciudad Juárez, fronteira com os EUA. O tribunal determinou que o México violou os direitos à vida, integridade e liberdade pessoal.

O Estado deverá investigar de novo os três crimes, indenizar os parentes com US$ 800 mil e revisar os procedimentos seguidos para instruir esse tipo de caso.

As ONGs, que qualificaram a sentença de histórica, afirmam que desde 1993 morreram mais de 500 mulheres em Ciudad Juárez.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,56
    3,261
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h21

    1,28
    73.437,28
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host