UOL Notícias Internacional
 

21/12/2009

Um spam da Rússia

El País
Carmen Pérez-Lanzac
Milhares de tentativas de golpes chegam a nossas caixas de e-mail todos os dias. Num tipo recorrente, belas mulheres russas se mostram desejosas de nos conhecer. Mas no que consiste o golpe? Paco, um personagem inventado, correspondeu-se durante dois meses com a explosiva Natalya para descobrir

Viagra. Ofertas de trabalho. Problemas com nossa conta bancária. Amor... Milhões de spams torpedeiam a internet com a intenção de dar algum golpe. Em um dos tipos mais recorrentes, belas mulheres russas se mostram desejosas de travar contato conosco. Natalya, Sasha, Annutka... Todas escrevem num espanhol (ou inglês) péssimo e anexam fotos às suas mensagens. São jovens e bonitas. E trata-se de um golpe grosseiro. O golpe - tramado normalmente por grupos organizados - consiste em travar amizade com um ingênuo que morda a isca e, cedo ou tarde, pedir "ajuda econômica" com a desculpa de ir ao seu encontro. Quem o fizer, não voltará a ver seu dinheiro. Nem, é claro, terá mais notícias da bela mulher.

Para comprovar como o golpe se desenvolve, como estas supostas mulheres necessitadas de amor iludem suas vítimas, decidimos criar o perfil de Paco, um homem de cerca de trinta anos com seu próprio endereço de e-mail. Durante dois meses, Paco se deixou enganar por Natália (e a enganou), uma entre tantas falsárias e, com toda certeza, tão falsa como ele. Este é o resumo de uma correspondência real entre dois personagens fictícios. Ou de como uma (ou um) golpista e uma jornalista perderam tempo durante dois meses. Este é o diário de Paco sobre sua história de amor cibernética.

17 de setembro. Hoje recebi o seguinte e-mail: "Oi! Estou contente de enviar minhas saudações. Meu nome é Natty! Tenho 28 anos. Mulher doce, boa, amável, carinhosa busca um homem bom. :) Meus amigos falam que sou alegre e sociável e sempre gosto de me comunicar. Queria conhecê-lo, por favor escreva só para o meu endereço pessoal: XXX@yahoo.com se também está interessado em mim. Espero a resposta com impaciência. Saudações cordiais, Natty".

Por algum motivo que desconheço, uma boa porcentagem da população feminina russa quer entrar em contato comigo, mas Natty e seus lábios carnudos me tocaram. Assim, escrevi para ela. Se acaso se tratasse de um engano, não forneci muitos dados pessoais. Disse apenas que me chamo Paco, sou espanhol e que meus amigos também dizem que sou muito sociável. Vamos ver o que acontece.

18 de setembro. Que surpresa. Natty já me respondeu. Em sua carta, extensa e alegre, explicou que se chama Natalya Egorova, que fazia 29 anos em 1º de outubro, vive em Kirov e adora a cozinha russa. "Acho que melhor do que a comida russa não há nada melhor!". Tem um inglês ruim. Depois, me pediu uma foto: "Quero ver teu olhar. Os olhos de uma pessoa dizem muito sobre a pessoa. Concorda comigo????". É muito direta e não dissimula suas intenções: "Eu a típica garota que busca o amor".

22 de setembro. Demorei alguns dias para responder para não parecer muito interessado. Desta vez contei mais coisas sobre mim: que tenho 34 anos, moro em Madri e trabalho numa loja. Além disso, mandei-lhe uma foto na qual estou na minha moto e pergunto se posso chamá-la de Natty. Não demorou nem meia hora para responder. Em sua carta ela me contou que gosta de se cuidar e não precisa jurar. Anexou uma foto de corpo inteiro e tem um corpão. Também me contou muitas coisas sobre sua cidade e até o que come no café da manhã: sanduíches e café. Não se contém e me pergunta se quero ter filhos. Mas esqueceu de responder todas as minhas perguntas, inclusive se podia chamá-la de Natty.

2 de outubro. Já estou me correspondendo com Natty há duas semanas (ela continua sem me dizer se gosta do apelido, mas continuo chamando-a assim). Outro dia me contou que é órfã e foi criada pela tia. Também me mandou as fotos do dia de seu aniversário. Ela estava lindíssima. Usava um vestido rosa e posava com um ramo de flores. Eis uma romântica: "Quando suas cartas meu coração meça a se alegrar", escreve. Ou: "é uma pena que você não estava no meu aniversário, eu teria ficado mais feliz em 1.000 vezes". Seu inglês é engraçado, ainda que às vezes eu não entenda nada. Também parece estranho que ela não responda nenhuma das minhas perguntas. Suponho que se deve ao fato de estar emocionada por estar me contando sobre sua vida.

8 de outubro. Hoje Natty me mandou uma carta explosiva acompanhada de uma foto em que ela está com um decote exagerado. Chama-me de "meu anjo"e diz que fica louca com minhas cartas. "O amor é em geral um sentimento elevado que só têm as pessoas (?). Para mim já fazem muitos anos. É nessa idade que é necessário pensar no futuro!!! Disse à minha tia que você a melhor pessoa, Paco, e confio plenamente em você". Estou perto do bote. Ela pediu meu telefone. Disse que não podia dar-me o seu porque, infelizmente, não tem.

15 de outubro. Comportei-me um pouco mal com Natty. Demorei uma semana para respondê-la, mas por sorte não me repreendeu. Cada vez está mais louca por mim: "Encontrei o amor de minha vida, você, Paco!!! Cada dia sinto mais falta de suas cartas. Sim, Paco, eu te amo". Respondi que também gosto muito dela e pedi o telefone de alguma vizinha para poder telefonar para ela.

21 de outubro. Isto está ficando complicado. Natty disse que deveríamos nos conhecer porque está que nem consegue dormir à noite. "Meus sentimentos crescem a cada dia, e isso não são meras palavras. Paco, você é a pessoa com quem quero dividir pensamentos, sonhos e esperanças. Penso em você e meu coração se aquece. Creio que deveríamos nos ver, olhar nos olhos. Na internet, as emoções se perdem". Em relação ao lugar do encontro, ela o tem claro: deveríamos nos ver na Espanha. "Eu ficaria contente muito forte se nós contigo nos víssemos em seu país. Acho que é muito melhor. A Rússia não é um lugar para encontros". Desta vez me mandou uma foto de top less (embora não desse para ver seus seios). A despedida foi o ápice: "Quero me sentar em sua casa e beber vinho tinto com você, Paco, e depois me preocupar com os teus lábios". Certamente, nenhum rastro de telefone de sua vizinha. Terei que relembrá-la.

21 de outubro. Natty me pediu dinheiro. Não me disse quanto, mas me adiantou que sem minha ajuda não há como ela possa vir me ver. Ela promete ir a uma agência de viagens "barata" e pesquisar preços. "Superaremos todas as barreiras juntos!", disse ao final de sua carta. Eu respondi que tudo bem, mas que ela levasse em conta que não sou milionário. E que é importante que ela me diga em que datas pretente vir porque estou num mês um pouco complicado.

22 de outubro. Natty acaba de me pedir 1.115 euros! Disse que foi à agência de viagens "mais barata" de sua cidade e que precisa de 350 euros para o visto, o que inclui os "gastos de registro, do consulado, um exame médico, o passaporte e a inoculação (sic)", além de 800 euros para a passagem de avião. Ao todo fica "apenas" 1.115 euros que devo enviar para ela via Wester Union. Não me parece vantajoso. Isso significa que eu entro com 1.115 euros e ela com 35? "A primeira noite de amor será inesquecível", dizia no final do e-mail. "Sonho em sentir seus beijos apaixonados e abraços quentes. Agora nosso encontro só depende de ti, Paco".

23 de outubro. Passo o dia todo discutindo com Natty sobre o custo da viagem. Disse a ela que na internet vi voos de Moscou por 300 euros, não entendo porque o dela custa tão caro. Também insisti que ela me dissesse em que data pensa em vir, detalhe importantíssimo que ela sempre se esquece de responder. Está muito embriagada pelo amor, como demonstram as coisas que me escreve: "Quero lhe falar tanta coisa, sobre tudo o que sinto, sobre as estrelas, a lua, sobre o céu e sobre tudo o que nos rodeia". Insiste que sua agência de viagens é a melhor opção. "Não confio na internet", disse. "Minha agência é a mais barata e confio neles 100%. Agora tudo depende de você, Paco. Espero que me ajude hoje. Lembre que o amo e sonho com você. Eu te amo. BEIJOSSSSSS".

25 de outubro. Custou, mas parece que por fim nos colocamos de acordo na data. Natty queria vir em 5 de novembro, mas esse fim de semana meu primo Pepe se casa e eu pedi que ela adiasse sua viagem para 12 de novembro. Perguntou seu eu quero que ela me acompanhe ao casamento, mas eu lhe disse que não me parecia uma boa ideia. Voltei a pedir a ela um número de telefone onde contatá-la e disse que, por favor, parasse de me recordar que tudo dependia s[o de mim, mas ela não deu bola: "Bebi a bebida do amor e agora não posso viver sem você, Paco. Quanto mais cedo me ajudar, mais cedo irei. Chegar até você custa agora 900 euros. Depois de 1º de novembro as passagens muito caras proque perto do Natal. Entende? Não mandei telefone porque estou conectada com a rede de comunicação móvel que só funciona na área de Kirov, não posso ligar para você e nem você para mim. Sua mulher e princesa, Natalya".

27 de outubro. Hoje por fim confessei a Natty que moro com meus pais. Fiquei muito envergonhado, mas expliquei que na Espanha não é tão raro. Avisei a ela que minha mãe não deixa eu receber amigas no meu quarto e que ela teria que dormir no sofá da sala, com os gatos. Também pedi que ela trouxesse um capacete para a moto (eu só tenho um) e quatro garrafas de vodka. Ela me respondeu em seguida. Além de conformar seu amor (Querido, porque você tão longe? Meu doce, desejo estar constantemente ao seu lado para cuidar de tu), e me tranquiliza: "Paco, não busco riquezas nem uma boa casa. Estou muito agradecida que sua mãe me aceite como visitante. Obrigada! Não é nenhum problema dormir no sofá, também posso dormir no chão". Disse que me traria a vodka e que pediria o capacete a seu tio.

29 de outubro. Estou muito chateado com Natalya. Tudo começou ontem quando ela me escreveu perguntando sobre o dinheiro: "Hoje esperava de novo receber sua ajuda. Meu amor, Paco, não quero apressá-lo, mas precisa pagar esses dias, entende?" Eu expliquei a ela que tive uns dias muito complicados. Minha mãe deixou a torneira da cozinha aberta e inundou a casa. Além disso, um dos gatos fugiu. Enfim, que tinham sido uns dias de loucos, ao que ela respondeu com muita falta de educação: "O que você fez hoje? Hoje é 29 de outubro, entende? Continuo esperando ajuda, apressei-me, preparei os documentos... Agora só espero suas ações! Você promete mas não faz nada...". Acabei de mandar uma mensagem muito aborrecida. Como ela pode ser tão egoísta? Não percebe o caos pelo qual nós passamos?

3 de novembro. Natty me escreveu várias vezes me pedindo desculpas. "Peço perdão pelo meu último e-mail...", disse na primeira carta, "sinto muito pelo que aconteceu no seu apartamento. É uma tragédia. Perdão, eu estava emotiva. Sua mãe está bem? Perdão, Paco. Amo você". Na segunda, mandou-me um poema: "Aflijo-me, sem ti para mim é duro. A noite meu coração se interrompe, mescla-se à dor das sombras que riem porque preciso me esforçar na solidão. Escreva para mim, Paco, não encontro lugar no mundo sem você. Sinto uma dor no peito. Não quero sofrer mais, Paco. Já sofri muito na vida. Te amo muito."

5 de novembro. Hoje contei a Natty que vi voos para Moscou por 280 euros e estou decidido: é muito melhor que eu vá visitá-la. Não demorou nem duas horas para me responder. Mandou-me uma carta bem comprida na qual contou umas coisas terríveis: "Agora na Rússia tarde, mas quero responder rápido. Na internet dizem que os voos barato. Mas a metade na internet mentira! Uma amiga pagou passagem para a Alemanha e depois ficou com VISA vazio e sem passagem. Eu não contra você vir Rússia, mas você entender que um quarto custa muito caro: 120 dólares por uma noite de hotel! E além da comida. Agora conte quanto dinheiro custa por uma semana!!?? Seria conveniente para mim que você viesse à Rússia, mas eu preocupo conosco. Na Rússia não gostam estrangeiros, gente má rouba estrangeiro e deixam desnudos. Constantemente vejo na televisão gente estrangeira sofrer, sem documentos. Paco, não quero assustar, faço isso por nós. Posso ficar no hotel se você não quer que eu fique na sua casa. Te amo, Paco!"

8 de novembro. Escrevi a Natty para explicar-lhe que já é tarde: ondem comprei a passagem! Chego em Moscou depois de amanhã. Mandei o número do meu voo. Irá me busar no aeroporto?

11 de novembro. Natty parece ignorar. Escreveu-me de novo dizendo-me que eu não deveria pensar em ir à Rússia ("Não precisa vir, vamos gastar muito dinheiro. Se eu vou fica duas vezes mais barato. E viveremos juntos e teremos filhos e eu procurarei trabalho. Eu logo iremos para a Rússia visitar minha família. Espero que você mude de ideia, meu docinho de coco!!!") Mas sim, eu já estou em Moscou! Escrevi a ela explicando seu engano. Também contei que no avião conheci Nadia, uma aeromoça muito simpática que se ofereceu para me mostrar a cidade. Disse para ela não se preocupar, que estávamos indo muito bem e eu estava gostando muito de Moscou. Não sei se ficará chateada, mas disse a ela que não me parece que a cidade seja tão cara nem tão perigosa quanto ela dizia.

13 de novembro. "Olá meu amor Paco. Como está meu doce? Liguei para a agência de viagens em Moscou para saber se você de fato chegou em Moscou... Disseram-me que não chegou nenhum Paco este mês. Por que me decepciona??? Querido Paco, o que eu lhe fiz de mal? Não entendo as suas ações! Espero explicações! Com amor, Natalya".

14 de novembro. "Eu já sabia que seu comportamento seria este! Natalya".

25 de novembro. "POR QUE VOCÊ BRINCOU COMIGO? O QUE EU DISSE DE ERRADO PARA VOCÊ? VOCÊ PARTE O CORAÇÃO DE TODAS AS MULHERES?"

Tradução: Eloise De Vylder

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