UOL Notícias Internacional
 

23/12/2009

"Narcoaldeias" no Caribe

El País
Carlos Salinas Maldonado
Em Manágua
Walpa Siksa é uma aldeia perdida na região caribenha da Nicarágua, distante da capital, Manágua, e esquecida por todos neste país até 8 de dezembro passado, quando se noticiou uma emboscada contra uma brigada conjunta do exército e da polícia nacional na qual morreram dois oficiais da Força Naval e outros cinco ficaram gravemente feridos. As Forças Armadas tinham informação de que uma avioneta proveniente de San Andrés, Colômbia, tinha aterrissado na longínqua aldeia, carregada com 800 kg de cocaína, armas e dinheiro, e por isso formaram uma missão especial com 20 oficiais do exército e da polícia para encontrar o avião.

Quando os oficiais se aproximavam da aldeia, erguida no barranco de um largo rio de águas cinzentas, cerca de 40 moradores supostamente amados por narcotraficantes atacaram as duas lanchas que transportavam os oficiais e dispararam impiedosamente, assassinando o chefe da missão, o tenente de corveta Joel Eliézer Baltodano, e o terceiro sargento Roberto Carlos Somarriba.

Um dia depois da emboscada, o exército lançou uma caçada para apanhar os assassinos de seus oficiais. Helicópteros, tropas especiais e lanchas rápidas foram transferidas para a aldeia, mas ao chegar os uniformizados ficaram de boca aberta: todos os homens tinham fugido entre os manguezais, incluindo o líder da comunidade indígena, e no lugar só encontraram mulheres e crianças. O exército supõe que os narcotraficantes dividiram o dinheiro e a droga entre os moradores em troca de seu apoio.

Agora os olhos das autoridades estão fixos em um colombiano que usa documento de identidade nicaraguense com o nome de Alberto Ruiz Cano, que acusam de dirigir o ataque. Aparentemente, Ruiz Cano esteve em Walpa Siksa no dia dos fatos. Hoje está fugitivo e sobre ele pesa uma ordem judicial de captura. Já havia sido detido em 13 de junho passado, quando pretendia zarpar de uma zona costeira em uma lancha carregada de combustível para aparentemente abastecer o narcotráfico, mas as autoridades judiciais decidiram deixá-lo em liberdade. Cano é proprietário de uma discoteca situada em uma área popular de Manágua, que foi arrasada pela polícia.

Os acontecimentos de Walpa Siksa deixaram em evidência o esquecimento em que as autoridades deste país mantêm a zona caribenha da Nicarágua, um país de 130 mil quilômetros quadrados, dos quais 59.558 correspondem às regiões costeiras do Caribe. São áreas habitadas por descendentes de africanos e indígenas miskitos e de outras etnias, que se governam por conselhos de anciãos, vivem da selva e da pesca, falam creole, inglês e seus próprios dialetos e ainda chamam os habitantes de Manágua e das áreas costeiras do Pacífico da Nicarágua de "os espanhóis", já que essa região foi colonizada por ingleses.

A região sofreu em 2007 o açoite do furacão Félix, que devastou a área, deixando um rastro de cadáveres e destruição (as autoridades calculam em mais de 240 os mortos e desaparecidos, 20 mil casas destruídas e 198 mil danificadas). Não há hospitais nem escolas e a energia elétrica e as telecomunicações são um verdadeiro luxo. Além disso, a região é terra de ninguém: em mais de 50 mil quilômetros quadrados as autoridades mantêm apenas 600 oficiais. Um lugar ideal para o estabelecimento do narcotráfico.

"Quando se combinam a pobreza e o abandono com uma visão de negligência da administração pública, temos minorias étnicas que diante do desespero encontram no narcotráfico uma opção de vida à vista e paciência das autoridades", explica o catedrático Félix Maradiaga.

Com o avanço do narcotráfico, formaram-se as chamadas "narcoaldeias", pequenos povoados com um nível de vida diferente do da região onde se encontram. Alguns aldeões construíram casas de concreto (um luxo nesse lugar de choças de palha) com painéis solares, telefonia por satélite e antenas parabólicas. Esses luxos, afirmam os analistas, são comprados com dinheiro do narcotráfico.

Relatos independentes mostram que os cartéis colombianos e mexicanos como o cartel de Sinaloa e os Zetas têm influência nessa região. O narcotráfico entrou com força na Nicarágua a partir de 1990, depois da queda do primeiro governo sandinista nos anos 80 e a redução do Exército Popular Sandinista, que contava com mais de 130 mil membros. Entre 1997 e 2007, as autoridades apreenderam 58 mil quilos de cocaína, 50% desta nas costas do Caribe, embora especialistas afirmem que essa cifra representa apenas 20% do total que circula pelo país. "Alguns pescadores da região foram a estrutura primária de apoio ao narcotráfico em dois sentidos, em estocagem e revenda da droga e abastecimento de combustível", explica Roberto Orozco, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos e Políticas Públicas de Manágua.

O que mais alarma os analistas é o fato de que os principais capturados por ligação com o narcotráfico são nicaraguenses: 7.777 pessoas entre 2000 e 2007. Além disso, Orozco afirma que no país já há "pequenos cartéis" que dão segurança e que armazenam a droga para a revenda ou para a venda no mercado interno, porque o avanço do narcotráfico anda junto com um aumento do consumo: um estudo preparado em 2006 pelo Conselho Nacional de Combate às Drogas mostrou que 850 mil nicaraguenses tinham consumido drogas. Um número alto em um país de 5,2 milhões de habitantes.

Orozco teme que esse problema escape das mãos das autoridades e a Nicarágua sofra uma violência desenfreada como a que dessangra o México. "O que aconteceu no México foi exatamente o que está acontecendo na Nicarágua. Os grandes cartéis mexicanos da droga começaram sendo distribuidores locais de droga, e depois que estabeleceram contato com os colombianos em meados dos anos 90 fizeram um convênio para que eles se encarregassem do transporte da droga e os colombianos, da produção. É isso que devemos evitar na Nicarágua. Que esses ataques que ocorrem na costa não se repitam", explica.

Depois dos fatos de Walpa Siksa, a tensão reina nas regiões do Caribe nicaraguense. Na semana passada foram registrados protestos e saques em Puerto Cabezas, capital de província situada a 565 km de Manágua e a 65 de Walpa Siksa. Os moradores enfrentaram o exército e a polícia, que aumentaram seus efetivos nessas áreas. Os especialistas afirmam que, para os habitantes, os uniformizados ameaçam sua única opção de desenvolvimento: o narcotráfico.

"O Caribe é uma região volátil. O Estado deve evitar transformar isto em um problema militar. A resposta deve ser policial, com um aumento da presença do Estado. Além disso, deve-se evitar estigmatizar as minorias, enquanto se continua golpeando o narcotráfico internacional, que deve ser o verdadeiro alvo", explica Maradiaga.

No fim de semana, os membros conjuntos do exército e da polícia continuavam na região para encontrar os assassinos dos dois oficiais da Força Naval. No sábado houve informações sobre 37 detidos, mas o colombiano Alberto Ruiz Cano ainda está desaparecido e Walpa Siksa continua sendo uma aldeia habitada só por mulheres e crianças.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Walpa Siksa é uma aldeia perdida na região caribenha da Nicarágua, onde em 8 de dezembro, quando o exército e a polícia tentavam apreender uma grande quantidade de droga, caíram em uma emboscada em que morreram dois oficiais da Força Naval e outros cinco ficaram gravemente feridos. Desde essa data,

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