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23/12/2009

Sérvia bate à porta da Europa dez anos depois da guerra de Kosovo

El País
Ricardo Martínez de Rituerto
Em Bruxelas
A Sérvia apresentou na terça-feira sua candidatura à União Europeia, em um ato de grande peso simbólico para toda a região dos Bálcãs, que vê a principal potência regional e um país até recentemente considerado um pária no cenário internacional ser admitido à porta do clube mais cobiçado do mundo. A chegada da Sérvia ao umbral da Comunidade Europeia confirma que a ensanguentada região evolui para a estabilidade. Deixando-se levar pela euforia do momento, o presidente Boris Tadic expressou seu desejo de ver a Sérvia na União em 2014. Voltando à realidade, admitiu que essa data seria "uma surpresa positiva".
  • EFE

    O presidente sérvio, Boris Tadic (e), entrega ao primeiro-ministro da Suécia, Fredrik Reinfeldt, que ocupa a presidência da União Europeia, o pedido oficial para que o país passe a integrar a UE



O número 10 foi protagonista na terça-feira da entrevista coletiva realizada em Estocolmo por Tadic junto com o primeiro-ministro sueco, Fredrik Reifeldt, presidente de turno da União, e o comissário Olli Rehn, responsável pela ampliação. "Já temos dez anos de vida democrática, faz dez anos que acabou a guerra [de Kosovo], passaram dez anos desde o fim de nosso isolamento", comentou Tadic com ânimo comemorativo, para pôr a ocasião em perspectiva e lembrar o caminho percorrido pela Sérvia desde o presidente Slobodan Milosevic até hoje. "Durante esses dez anos nosso principal objetivo foi integrar a Sérvia à União Europeia."

Diante desse discurso apaixonado, a água fria despejada imediatamente por Rehn quase pareceu cruel. Segundo o comissário, a Sérvia poderá alcançar a meta que se definiu "dentro de um prazo de dez anos", isso se mantiver a atual velocidade de cruzeiro das imprescindíveis reformas para adaptar-se ao clube. A década indicada por Rehn é uma expectativa, que no melhor dos casos poderá ser encurtada para 2014, como ambiciona Tadic: "O dia D é 2014". Mas é muito improvável, diante dos desafios pendentes, como reconheceu o próprio presidente. "Não é certeza que vamos conseguir, mas é o objetivo. Se nos esforçarmos muito poderemos ter uma surpresa positiva", explicou.

Reifeldt não pôde evitar a alusão ao "gesto histórico" de ver a Sérvia batendo às portas da União, antes de se referir às tarefas pendentes: "Terminar as reformas, encontrar os criminosos de guerra e consolidar a democracia e a economia de mercado". Com relação aos dois criminosos de guerra que ainda estão sendo procurados - o general Ratko Mladic, responsável pela chacina de Srebrenica em 1995, a maior na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, e o chefe dos sérvios na Croácia, Goran Hadzic -, Tadic ofereceu as palavras que se esperavam: "Temos de capturar Mladic e Hadzic e trabalhamos nisso a cada dia, a cada minuto; é o dever do presidente".

A outra grande questão pendente, a proclamada independência do que para a Sérvia ainda é a província de Kosovo, continua envolta na nebulosa política. "A Sérvia tem de se transformar em um pilar de estabilidade regional, mas isso não quer dizer que vamos reconhecer a independência de Kosovo", salientou Tadic. Sobre essa cisão nem mesmo a UE foi capaz de entrar em acordo, com cinco países dos 27, entre eles a Espanha, que se negam a reconhecer a independência.

Kosovo é uma batata quente na Sérvia e na UE, um conflito que Bruxelas confia um dia resolver com a admissão simultânea de ambos no clube, o que exigiria de Belgrado uma flexibilidade que hoje parece impossível. De fato, a proclamação da independência por Kosovo em fevereiro de 2008 provocou uma tal inflamação nacionalista em Belgrado que a UE temeu perder para sempre o maior país balcânico, desgarrado entre as forças europeístas encarnadas por Tadic e os nostálgicos do passado.

A União se mobilizou justo a tempo para incentivar nas urnas o voto nacional, que se impôs por pouco ao atávico. Tadic voltou a ser reeleito presidente para capitanear o que o ministro sueco das Relações Exteriores, Carl Bildt, considera "o governo mais europeísta da história sérvia". Segundo Bildt, o que aconteceu ontem em Estocolmo "é um sinal muito importante de que há movimento nos Bálcãs".

Outras repúblicas da antiga Iugoslávia apresentaram a candidatura de ingresso na UE. A Croácia o fez em 2003, a Macedônia em 2004 e Montenegro em 2008. A Bósnia assinou o acordo de associação em 2008. A Eslovênia ingressou em 2004.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Belgrado apresenta sua candidatura à UE em um gesto histórico nos Bálcãs

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