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24/12/2009

"Ele foi degolado miseravelmente"

El País
Maite Rico
Em Madri
A guerrilha colombiana assassina o governador de Caquetá, sequestrado horas antes. O crime constitui um desafio à política de segurança do governo

"Ele foi degolado miseravelmente." Com estas palavras, um presidente Álvaro Uribe chocado anunciou na noite de terça-feira aos colombianos a sorte do governador do departamento de Caquetá, Luis Francisco Cuéllar, sequestrado horas antes por um comando das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc, a maior guerrilha do país).
  • AFP

    As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia assassinaram o governador de Caquetá, sequestrado horas antes. O crime constitui um desafio à política de segurança
    do governo Uribe



O cadáver, que tinha amarrado um cinturão de explosivos, foi encontrado em um paradouro perto do aeroporto de Florencia, a capital da província. O crime representa um verdadeiro desafio da guerrilha ao governo e põe em xeque as negociações que eram mantidas para a libertação de dois militares reféns das Farc. As condenações internacionais não demoraram.

As forças de segurança vasculham a região do sequestro para encontrar os autores, que as autoridades identificaram como membros da coluna Teófilo Forero, um dos comandos mais sanguinários da guerrilha. O grupo, disfarçado com uniformes militares e provido de armas longas, havia tomado de assalto a casa do governador, que acabava de realizar a festa de seus 69 anos. Depois de assassinar sua escolta, dinamitaram a porta e levaram Cuéllar de pijama. Não foram muito longe.

As autoridades acreditam que o dispositivo de segurança ativado na área, do qual participaram comandos especiais do exército, levou a guerrilha a se desfazer do governador para tentar passar pelo cerco. Cuéllar também tinha problemas nas costas e em uma perna. Decidiram degolá-lo para evitar o ruído dos tiros. Segundo a investigação, o deixaram ferido junto ao veículo em que fugiam.

Trata-se do primeiro sequestro de um político de alto nível registrado desde que Uribe assumiu a presidência da Colômbia, em agosto de 2002. E ocorre justamente no momento em que o país esperava a libertação dos soldados Pablo Moncayo e José Daniel Calvo, que estão há 12 anos em poder das Farc. Na véspera do sequestro de Cuéllar, Uribe e os parentes dos reféns tinham pedido que a guerrilha cumprisse o acordo. "Atendemos a todas as exigências. Por que não os libertam?", perguntava-se o presidente.

Os acontecimentos de Caquetá deram uma virada súbita na situação e poderão pôr em risco oito meses de negociações. Uribe acusou a guerrilha de enganar o país e defendeu a opção do resgate militar dos reféns.

Por trás dessa aparente incongruência das Farc, no entanto, há um objetivo muito definido, na opinião do analista Román Ortiz, especialista em temas de segurança. "Estamos diante da estratégia habitual das Farc: abrem espaços de negociação e ao mesmo tempo realizam atos de provocação para fazer a opinião pública acreditar que o governo é o culpado por não haver progressos. Ocorreu o mesmo em 2006, por exemplo, quando em plena aproximação para um intercâmbio humanitário atacaram a escola de guerra de Bogotá. As Farc usam a negociação para desgastar o governo."

Também não se deve esquecer o contexto político em que vive a Colômbia, mergulhada em um clima pré-eleitoral que levará em março às eleições legislativas, e em maio à eleição presidencial, na qual Uribe poderá se apresentar pela terceira vez. Os serviços de inteligência alertaram sobre uma escalada da violência por parte da guerrilha, que pretenderia não só desestabilizar como mostrar que, apesar dos importantes reveses sofridos nestes últimos sete anos, continua tendo capacidade de manobra.

O sequestro e assassinato de Cuéllar constitui, sem dúvida, um golpe de efeito contra a política de Segurança Democrática, a bandeira do presidente Uribe. O esquerdista Pólo Democrático e alguns analistas como León Valencia, da Fundação Nuevo Arcoiris, creem que a estratégia governamental, que conseguiu encurralar e dizimar uma guerrilha que chegou a controlar boa parte do país, chegou a uma "situação de crise".

"De maneira alguma", afirma o especialista Alfredo Rangel, que no entanto adverte contra o risco da autocomplacência. "Em geral se baixou a guarda, mas a política de Segurança Democrática não é questionável. As ações das Farc diminuíram este ano em relação a 2008 em nível nacional, mas aumentaram em Caquetá, Cauca e Nariño, regiões onde houve uma redução das ações militares. Isso tem a ver com a insegurança jurídica em que se encontra o exército, submetido a uma recente avalanche de denúncias, muitas vezes falsas."

A situação de fragilidade levou as Farc a modificar sua estratégia, afirma Ortiz. Por isso agora recorrem às emboscadas em zonas rurais e à intensificação de atos terroristas. "Buscam operações pontuais de baixo risco e grande exposição pública para dar uma imagem de força, embora estejam muito debilitadas. Como faz a ETA", explica Ortiz.

As condenações pelo assassinato de Cuéllar não param. A ONU lembrou na quarta-feira que a tomada de reféns, "prática recorrente" das Farc, "constitui um crime de guerra". A Organização de Estados Americanos e a União Europeia, que tem as Farc em sua lista de grupos terroristas, emitiram comunicados de repúdio. A eles somaram-se a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, para quem este crime mostra "as táticas cruéis das Farc", que incluem "matanças de civis, como a perpetrada em fevereiro contra 17 indígenas awá, sequestros, recrutamento de menores e uso indiscriminado de minas antipessoais".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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