UOL Notícias Internacional
 

26/12/2009

Plena unificação europeia também exige unificar a memória dos dois totalitarismos

El País
Lluís Bassets
Sobre o século 20 ainda se projeta um olhar hemiplégico. Sabemos tudo sobre o nazismo. Milhares de livros e filmes conseguiram revelar até o último detalhe do Holocausto. Os campos de extermínio são lugares da memória conhecidos por todos os europeus. Os grandes temas da história dos totalitarismos fascistas foram incorporados à iconografia e ao catálogo de ideias recebidas da cultura popular. Não ocorre o mesmo com outro império totalitário que dominou o Leste Europeu durante um período muito mais longo que o nazismo, nem com seu rastro milionário de vítimas, em boa parte ainda pendentes de contagem e reconhecimento.

Ao contrário, ainda hoje na Rússia se pretende manter uma memória simpática de Stalin que minimiza suas infâmias. A salvação histórica daquele monstro ditador faz parte inclusive do putinismo hoje no poder; algo perfeitamente coerente com o papel do serviço secreto soviético na construção da Rússia atual, como viveiro da burguesia de Estado que controla a economia privada e a administração pública.
  • AP/Arquivo

    Na foto de 23 de julho de 1945, Josef Stalin (direita), Winston Churchill (esquerda) e Harry S. Truman (centro) se cumprimentam, em Potsdam, na Alemanha. O colunista do jornal El País defende uma devassa na história da ex-União Soviética antes da unificação total da Europa


A concessão do prêmio Sakharov à organização Memorial é todo um gesto contra o olhar hemiplégico. Não é novidade: o primeiro prêmio, em 1988, foi para o sul-africano Nelson Mandela e para o ucraniano Anatoli Marchenko, este o único premiado a título póstumo, pois morreu na prisão em 1986 e sob Gorbachev, em consequência de uma greve de fome a favor da libertação dos prisioneiros políticos; e mais recentemente, em 2002, o recebeu o dissidente cubano Oswaldo Payá. Tampouco é novidade a virtude da inoportunidade política. Já o foi premiar o prisioneiro e dissidente chinês Hu Jia, no ano passado, o que incomodou muito o regime de Pequim. E agora, no exato momento em que Washington retoma seus laços com Moscou e se multiplicam as gentilezas europeias com quem tem nas mãos as torneiras de nossa energia, os parlamentares europeus saem com esse despropósito. A iniciativa do Parlamento Europeu vai na contracorrente e não atende aos requisitos da diplomacia europeia nem ao realismo político.

Memorial é todo o contrário da KGB, o nome mais conhecido da polícia política soviética. Tem alguns princípios que são o oposto dos serviços secretos de onde saiu Putin: o respeito incondicional aos direitos humanos, à vida e à liberdade das pessoas; e sua concepção da história como um conjunto indissolúvel formado por presente, passado e futuro. A sobreposição entre o olhar para o passado e a vigilância do presidente tem todo o sentido para essa organização militante. Esta é uma das coisas que a diferencia de outras associações semelhantes de outros países. Mas não a única: Memorial une cidadãos de todas as ideologias; e não atua em um só país, a Rússia, mas sobre um território internacional. Além disso, o período de tempo que lhe interessa é extenso e remoto, sem atender a prescrições nem confusões sobre o esquecimento.

A fome da Ucrânia (Holodomor) remonta a 1932. As primeiras matanças e campos como os que formaram depois o gulag pertencem aos primeiros anos da revolução soviética e da guerra civil russa. Cabe imaginar uma vigilância sobre o presente russo que estenda uma anistia sobre o tenebroso passado soviético? Ou uma visão do passado que despreze o atual estado dos direitos humanos? A realidade do regime autoritário exige a vinculação. O passado russo, em boa parte oculto sob os mitos antifascistas, é também o passado da Europa. Assim como o anticomunismo serviu no pós-guerra mundial para ocultar crimes fascistas, agora tenta-se de Moscou que a mitologia antifascista sirva para frear o trabalho da memória sobre o passado stalinista.

O trabalho da Memorial é de transcendência europeia. As relações entre a Rússia e a UE também dependem de que o êxito acompanhe seu trabalho admirável. Uma estreita associação com o grande país europeu que é a Rússia, do tipo que seja, só será possível a partir de uma aceitação do passado stalinista por parte de todos os europeus, como a que ocorreu em relação ao nazismo. A plena unificação europeia também é um trabalho de unificação da memória, algo que não pode se conseguir se não forem desacopladas as ideologias contrapostas que justificam o esquecimento de um dos dois totalitarismos através do conhecimento exaustivo do outro. Nada se pode construir sobre o desprezo e o esquecimento. A primeira UE se fundamentou na reconciliação franco-alemã e teve na memória dos fascismos sua pedra de toque. A atual, com seus sócios do antigo bloco soviético, não culminará sua unidade enquanto persistir esse olhar hemiplégico que impede de iluminar os buracos negros da memória do comunismo com a mesma intensidade com que se fez com o nazismo.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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