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29/12/2009

"Madri deveria saber ganhar e perder", diz Jacques Rogge, presidente do COI

El País
Carlos Arribas
Em Lausanne (Suíça)
Uma das poucas pessoas na Terra que pode responder "não" a Barack Obama ou ao rei Juan Carlos é belga, tem 67 anos, fala um espanhol que, humildemente, qualifica de "turístico" e há oito preside o Comitê Olímpico Internacional (COI), um clube privado de pouco mais de cem sócios, escolhidos por nomeação, que monta a cada dois anos, alternando inverno e verão, uma grande festa esportiva-política-comercial chamada Jogos Olímpicos (de inverno e de verão).

Apesar de a sede do COI, às margens do lago Leman, ser um reluzente cubo de aço e vidro, com um interior imponente de frio mármore branco, Jacques Rogge mantém seu escritório no mesmo lugar onde ficava o de seu antecessor, o espanhol Juan Antonio Samaranch, uma pequena sala em um edifício anexo, o velho castelo de Vidy, construção do século 17 que o COI ocupa desde 1968. "Sou uma peça de uma cadeia", diz Rogge. "Sairei em 2013, mas se eu morrer amanhã há meia dúzia de pessoas que ocupariam meu cargo perfeitamente", disse. "Falo um espanhol turístico. Se houver dúvidas, falarei em francês."

El País: Já bem entrado o século 21, o que o preocupa como presidente do COI?
Jacques Rogge:
O primeiro desafio é o dos valores. Temos de lutar contra o doping e contra a corrupção nas competições, as apostas. São os dois grandes perigos. O segundo desafio é que os jovens mantenham seu interesse pelo esporte. O terceiro é um desafio universal: aumentar o apoio aos países em desenvolvimento; e finalmente lutar pela igualdade da mulher, um objetivo que não será alcançado de hoje para amanhã. É minha lista.

El País: Juan Samaranch será lembrado como o presidente que acabou com o amadorismo, que propiciou o tremendo boom econômico dos Jogos. O senhor gostaria de ser lembrado pelo quê? Pela globalização, pela igualdade de gêneros?
Rogge:
Seria um sonho. Sou uma peça de uma cadeia. Recebi o legado de Samaranch, tento melhorá-lo, e meu sucessor fará o mesmo. Sim, uma participação igualitária da mulher é um ponto muito importante de minha política, mas meu legado é lutar pelos valores.

El País: O problema do doping já está a caminho da solução com o poder que está assumindo a Agência Mundial Antidoping?
Rogge:
O caminho melhorou, mas a solução absoluta, que não haja doping, não creio que a alcancemos. O doping é uma coisa eterna, não desaparecerá nunca, mas a situação melhora dia a dia.

El País: Então a luta está melhor que dois anos atrás, quando o senhor lamentou em Madri o caos da Operação Porto, que impedia sanções aos ciclistas?
Rogge:
A Operação Porto foi uma desilusão. O juiz decidiu que não poderia transmitir as informações às autoridades desportivas. Nós respeitamos a decisão, mas estamos decepcionados, já que esperávamos poder atuar. No entanto, há uma segunda operação, a do atleta da marcha, com uma nova lei. Creio que a Espanha tomou boas medidas, sua lei contra o doping é muito moderna e o juiz poderá agir.

El País: No assunto da corrupção, o senhor dá destaque às apostas ilegais, mas também houve indícios de casos de corrupção nas federações internacionais. O COI vai criar alguma comissão de controle das federações ou de investigação das apostas?
Rogge:
Temos uma comissão de ética e, sob meu mandato, expulsamos dois membros e um terceiro se demitiu. Funciona bem. Tomamos outras decisões, como bloquear o orçamento da federação de boxe, porque acreditávamos que a arbitragem não era limpa. Pedimos a eles que mudassem e os advertimos que, senão, não restituiríamos o dinheiro. Eles mudaram. Fizemos o mesmo com a de voleibol. Dissemos a um dirigente que seus costumes não eram transparentes e que precisava mudar. Ele saiu.

El País: Mas, já que as federações terão cada vez mais peso no movimento olímpico, o COI não deveria controlar mais seu funcionamento interno?
Rogge:
Todas as federações que recebem dinheiro do COI têm uma auditoria muito estrita de empresas como PriceWaterhouse ou Ernest&Young, e exigimos democracia, transparência e uma assembléia geral de controle dos gastos e receitas dos dirigentes. Também há um controle em nosso programa de Solidariedade Olímpica, de bolsas e apoio financeiro, no qual controlamos até o último dólar.

El País: Como vão vigiar as apostas ilegais em Vancouver ou Londres?
Rogge:
Criamos uma empresa que vai observar todas as companhias de apostas, e se houver um perfil suspeito avisaremos a federação correspondente. Cuidado, há suspeitas, tome medidas. Isso já é feito no futebol e no tênis. Essa empresa começará a funcionar em Vancouver.

El País: O senhor tem suspeitas ou provas de que em alguma competição olímpica tenha havido algum problema de fraude de resultados?
Rogge:
Não. Tínhamos um acordo com a companhia da Fifa em Pequim, e lá não viram nada de suspeito. Nós sabemos que algum louco vai tentar isso algum dia e queremos estar prontos. Do passado não temos dúvidas, mas o futuro...

El País: O caso de Semenya, a atleta sul-africana campeã do mundo cujo gênero está sendo investigado pela federação de atletismo, pode obrigar o COI a mudar a definição de homem e mulher?
Rogge:
O elemento fundamental não é a presença de órgãos sexuais masculinos ou femininos, testículos ou ovários, mas o nível de produção de testosterona. A testosterona equivale a rendimento. Se uma pessoa tem, pela genética ou por doença, uma produção anormalmente alta de testosterona, é preciso tomar medidas porque prejudica as outras mulheres. Isso é o fundamental, porque é muito difícil definir o que é uma mulher; há exceções de cromossomos, de órgão sexuais, e por isso é fundamental a determinação da testosterona. Ser houver cromossomos excepcionais e produção excessiva de testosterona, é preciso dizer a essa pessoa: "Sinto muito, mas não pode participar".

El País: Mas também se sabe de esportistas doentes de gigantismo ou acromegalia [desenvolvimento excessivo das extremidades do corpo] por produção excessiva do hormônio do crescimento, que se beneficiam disso para jogar basquete ou saltar em altura e não sofrem proibições, ou atletas etíopes e ciclistas colombianos com maior nível genético de hematócrito.
Rogge:
Mas os casos conhecidos de acromegalia são todos casos de homens ou mulheres, sem dúvidas de cromossomos, e no caso dos ciclistas colombianos se podem aceitar exceções porque vivem na altura.

El País: No interesse da igualdade homem-mulher, pelo menos no número de competições o COI decidiu recentemente eliminar algumas provas clássicas, como a perseguição ou a pontuação, do programa olímpico de ciclismo em pista em Londres. O senhor é belga, um país onde os velódromos são catedrais. Como aficionado, não sofreu com a medida?
Rogge:
Não, porque a proposta da UCI estava muito bem documentada. Para alguns países, como a Bélgica, será duro, mas não estou aqui para favorecer meu país, e sim o esporte em geral.

El País: Sete das nove medalhas espanholas em pista chegaram em disciplinas desaparecidas...
Rogge:
E outros países ganharão agora mais medalhas. Se a UCI disser que o futuro da pista passa por outras provas, por mais mulheres, temos de escutar. Eles são os especialistas.

El País: O fato de o presidente da UCI, Pat McQuaid, ter sido convocado para entrar no COI em fevereiro não tem nada a ver?
Rogge:
É uma coincidência. A proposta é muito anterior. O programa olímpico precisa mudar. Acontecia a mesma coisa com o boxe feminino, que introduziremos em Londres. Nascerão novas campeãs. Na Inglaterra Chris Hoy ganhará menos medalhas, mas Veronica Pendleton poderá ganhar mais... Há equilíbrio.

El País: A dupla mista no tênis não tem nenhum peso nos torneios e seu valor esportivo é mais que duvidoso. Sua inclusão no programa olímpico pode criar uma nova tendência?
Rogge:
Sim, porque despertará um interesse muito grande nos Jogos. São outros tempos, mas imagine que tivesse havido uma dupla mista com Ferrero e Arantxa, que são mais ou menos da mesma geração, já não digo Nadal e Arantxa, que são de gerações diferentes... Seria algo grande.

El País: Mas não os veríamos na Espanha, pelo menos dentro de alguns anos. Depois da eleição do Rio para 2016, a candidatura de Madri acusou os senhores de ter-lhes mentido, de animá-los a apresentar-se, sabendo que não teriam possibilidades devido à rotação de continentes...
Rogge:
Madri deveria saber ganhar e perder. O prefeito e Juanito [Juan Antonio Samaranch Júnior, membro do COI, que estavam comigo nas primeiras reuniões, sabem exatamente o que eu disse. O que eu disse, e o direi em francês, é: "Claramente não é uma vantagem, mas não é uma lei não escrita. Não é uma vantagem, mas não é impossível porque já vimos antes, em Lillehamer 94, depois de Barcelona 92, ou Turim 06, depois de Atenas 04, que havia Jogos consecutivos no mesmo continente. Não há uma regra que diga que não é possível". Depois, as críticas dizendo que eu poderia controlar 66 votos para o Rio... uma besteira. Ninguém pode controlar votos. Pergunte a Juan Antonio, e lhe dirá que isso não funciona.

El País: O senhor acredita, então, que as declarações do prefeito Gallardón e de outros políticos foram uma justificativa para seu eleitorado?
Rogge:
O prefeito não fez declarações. Foi muito claro comigo, me mandou uma carta, me telefonou e nunca me criticou. O entorno, é possível. Veio pelo que se chama de decepção da derrota. É preciso ser um pouco filosófico.

El País: Na Espanha se chegou à conclusão de que o poder do esporte espanhol nos corredores era muito inferior ao que sua força desportiva deveria exigir, que se pinta menos nos escritórios, incluindo o COI, com um só membro do que nos estádios...
Rogge:
Não concordo. Estão aí Juanito, e Juan Antonio, que é membro de honra, estará com toda certeza Marisol Casado... Não há muitos países com mais de um ou dois membros, hem? E federativos que não são membros do COI, mas têm um papel muito importante, como Perurena em canoagem ou Odriozola em atletismo. Se quiséssemos equilibrar o peso político e o peso no COI, então a China deveria ter 15 membros, e só tem um, e é um país muito importante no esporte.

El País: Começaram a surgir dúvidas em relação à capacidade do Rio para organizar bons Jogos. Teme-se pela violência...
Rogge:
Nós não duvidamos, e acreditamos que a Copa do Mundo de 2014 ajudará muito o projeto. Há dois tipos de Jogos, aqueles em que tudo está pronto vários anos antes e aqueles em que tudo está por fazer. Em Sydney foi preciso construir muito, tinham apenas um velho estádio de críquete, nós sabíamos, mas confiamos nos australianos e o fizeram muito bem. Em Atenas tivemos dificuldades, mas finalmente aceleraram e saiu muito bem. Em Salt Lake City e em Turim tudo estava pronto. Por isso no COI não somos de maneira filosóficas contra um projeto virtual, embora represente um pouco mais de risco.

El País: O senhor confia plenamente no Rio?
Rogge:
Tivemos excelentes Jogos em Sydney, Salt Lake City, Atenas, Turim e Pequim, temos um sistema para ajudar o comitê de organização. Em Sochi não teremos problemas, porque os russos trabalham muito bem, é um grande país, 140 milhões de habitantes, um dos mais poderosos do mundo, tem petróleo, diamantes... Confiamos nos brasileiros porque têm um desenvolvimento extraordinário; as previsões do Banco Mundial são de que o Brasil será a quinta economia em 2025. Haverá momentos de preocupação, como com Atenas, mas saberão reagir. Com Londres também não há dúvidas, e teve de construir muito.

El País: Os Jogos do Rio podem ajudar o desenvolvimento social e político de toda a América Latina?
Rogge:
Já dissemos a Lula e ao prefeito do Rio que o sucesso dos Jogos não será só o sucesso esportivo, mas também o legado social. Dissemos de maneira muito clara que têm de trabalhar para melhorar a situação social. Prometeram isso e o farão.

El País: Um ano depois de Pequim, o senhor acredita que na China os Jogos marcaram um ponto de inflexão social e política?
Rogge:
Me parece que sim. Há várias medidas que o governo chinês tomou, melhorou muito a possibilidade de trabalhar da imprensa estrangeira, e as pessoas na China me dizem que os Jogos deixaram um legado no país, um legado de orgulho e de consciência. Mas, claro, os Jogos nunca vão mudar de uma vez um país de maneira fundamental. Não é uma obrigação dos Jogos.

El País: Mas, contemplando a história dos Jogos, simplesmente pensar em um legado social e político é uma novidade em relação ao que se pensava há 30, 40 anos...
Rogge:
É verdade que há 30, 40 anos, o movimento olímpico estava menos aberto à sociedade, e podemos dizer que o movimento olímpico se adaptou à sociedade. O legado começou com os Jogos de Barcelona em 92, um fantástico legado cidadão, e com Lillehamer, o primeiro legado ecológico. Desde esses dois Jogos dissemos sempre aos organizadores: por favor, senhores e senhoras, vocês precisam criar não somente bons Jogos durante duas semanas, mas também uma boa herança para sua cidade. Isso mudou.

El País: No Rio 2016 o golfe vai estrear e caberia supor que Tiger Woods, o melhor golfista da história, será o primeiro campeão. Do ponto de vista dos valores olímpicos, como analisa suas atuais desventuras?
Rogge:
Isso não é uma preocupação do COI, mas pedimos aos atletas que sejam um modelo para os jovens. É claro que o que aconteceu com Woods não o é, mas vamos ver como evolui. É uma decepção, claro, mesmo que seja sua vida pessoal: um atleta desse nível deve saber que sua vida pessoal está indissoluvelmente ligada à sua vida profissional.

El País: Depois de seus problemas pessoais, soube-se que no Canadá e nos EUA o investigam pelo uso de Actovegin e "blood spinning", para acelerar a recuperação depois de sua operação no joelho. O senhor, que é cirurgião traumatológico, acredita que a AMA deveria intervir?
Rogge:
A AMA já estudou esse produto. Primeiro o colocou como doping e depois o apagou da lista. Eu, como médico, não creio em produtos como o Actovegin, que funcionam provavelmente por efeito placebo, mas não é proibido.

El País: Nem tampouco o "blood spinning", o plasma rico em plaquetas extraído do próprio doente?
Rogge:
Desde 1º de janeiro alguma forma de administração, intramuscular, estará proibida, mas não a injeção intra-articular.

El País: Madri deve se apresentar de novo para os Jogos de 2020? O senhor aconselharia?
Rogge:
Se houver um apoio unânime no país como havia para Madri 2016, creio que Madri tem boas possibilidades. É preciso analisar o voto de Copenhague, mas me parece que o que Madri tem agora será moderno e eficiente dentro de dez anos também. O mundo não vai mudar tanto em dez anos para que as infraestruturas deixem de ser modernas e eficientes. Vai depender das pessoas que quiserem preparar a candidatura, mas para o COI seria muito gratificante uma candidatura de Madri. E também é preciso levar em conta que a candidatura do Rio era a terceira tentativa. Isso não quer dizer que vão ganhar por ser a terceira, mas...

El País: Dependerá do nível dos rivais? Fala-se de Paris, Roma, Berlim... grandes capitais que já acolheram os Jogos.
Rogge:
Será preciso ver isso em 2012, 2013. A data limite é setembro-outubro de 2011; e isso é amanhã, não é um futuro distante...

El País: O prefeito deveria anunciá-la já?
Rogge:
Não anunciar, mas sim ver se há consenso. Para o COI seria uma coisa boa.

El País: O senhor gostaria de continuar sendo presidente em 2020?
Rogge:
Não... [risos]. Meu cargo terminará em 2013. Então completarei 12 anos, é suficiente. Em 12 anos é possível realizar seus sonhos, suas ideias. E eu fiz isso.

El País: Falta-lhe organizar Jogos na África...
Rogge:
Quem sabe? Se houver uma boa candidatura em 2013, é possível, mas não sob meu mandato. Sob o meu mandato os últimos serão os de Londres. Depois continuo mais um ano e chega.

El País: Já há rumores de corredor pensando nas futuras eleições?
Rogge:
Ainda não há uma campanha eleitoral, que virá de uma maneira muito clara, mas estou muito tranquilo porque temos no COI meia dúzia de pessoas muito capazes que poderiam assumir o comando sem problemas. Se eu morrer amanhã, o COI poderia eleger um mês depois um candidato muito capaz. Não preciso me preocupar em formar um sucessor.

El País: Mas seria parte de seu legado que o sucessor mantivesse sua filosofia...
Rogge:
Creio que as pessoas em que penso já têm minha filosofia, uma filosofia que parte de que o atleta é o primeiro. E o segundo, que os Jogos não são só competição esportiva, mas também valores. E depois, a qualidade dos Jogos, e depois a universalidade, a relação homens-mulheres, o apoio aos países em desenvolvimento. Isso é o COI.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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