UOL Notícias Internacional
 

29/12/2009

"Mali nos deu toda a sua ajuda", diz Miguel Ángel Moratinos

El País
Miguel González
Em Madri
A cinco dias do início da presidência espanhola da União Europeia, em 1º de janeiro próximo, Miguel Ángel Moratinos Cuyaubé (nascido em Madri em 1951) não tem tempo para férias. Os seis meses que se aproximam são os mais frenéticos da diplomacia espanhola nos últimos anos: está sob sua responsabilidade a organização de mais de 2.500 reuniões, incluindo 14 cúpulas de chefes de Estado e de governo.

No sábado, pouco antes de voltar a Madri para acompanhar o primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero a Chipre - última etapa de sua ronda de contatos com os líderes dos 27 -, Moratinos conversou por telefone com "El País". "O mais importante é a saída coordenada da crise econômica e estabelecer uma estratégia de crescimento sustentado dos países europeus com o horizonte de 2020", responde quando perguntado do que gostaria de apresentar como balanço em 30 de junho de 2010, ao fim da presidência que está prestes a começar. "E depois, em nível pessoal", explica, como se se tratasse de uma carta aos Reis Magos, "gostaria que, com o acordo de todas as partes, pudéssemos reconhecer o Estado Palestino." Em apenas seis meses? "É um pouco justo", admite, em um rasgo de realismo, "mas vamos trabalhar para isso."

El País: Em quê esta presidência difere das três anteriores que teve a Espanha? Da última, com a Aznar, só se recorda sua foto ao lado de Bush com os pés sobre a mesa...
Miguel Ángel Moratinos:
Esta é a presidência de uma nova Europa, a do Tratado de Lisboa, a do século 21, que quer pesar e assumir suas responsabilidades na governança global. É o início de uma nova etapa no já longo processo de construção europeia e ocorre em um momento de mudança das regras do jogo das relações internacionais. Essa é a diferença.

El País: A presidência espanhola não está desvalorizada pelo surgimento das novas figuras institucionais da União: o presidente permanente do Conselho [Van Rompuy] e a Alta Representante [Catherine Ashton]? Não é frustrante para o ministro espanhol não presidir as reuniões de seus colegas das Relações Exteriores?
Moratinos:
Não está nada desvalorizada. É outra responsabilidade. O grande desafio é sermos capazes de abrir caminho para as novas instituições. Pessoalmente, não sinto nenhuma frustração, vou presidir os Conselhos de Assuntos Gerais, com uma agenda bastante substancial, e o que vamos fazer é apoiar a Alta Representante para que possa cumprir sua nova missão com todo o trabalho que a presidência espanhola preparou ao longo do último ano. Nas reuniões que mantive com a baronesa Ashton, pude comprovar sua liderança e capacidade política.

El País: O Tratado de Lisboa assenta as bases de uma política externa europeia, mas não chega tarde demais? Na falida cúpula de Copenhague contra a mudança climática parece ter-se consolidado a ideia do G-2: um mundo bipolar, com os EUA e a China como superpotências.
Moratinos:
Estamos em um momento de mudança dos equilíbrios de poder no mundo. Daí que a UE, com maior razão, precisa dotar-se dessa representação única, que lhe dê maior presença internacional. Será preciso trabalhar para chegar a um G-3. Não basta que os EUA e a China falem. A voz da Europa deve se fazer ouvir. Estamos decepcionados com os resultados de Copenhague, mas não vamos cruzar os braços. Sob a presidência espanhola, a UE continuará puxando o carro. Vamos exercer toda a nossa capacidade para alcançar um acordo à altura do que os europeus esperam.

El País: A primeira cúpula da presidência espanhola da UE será com o Marrocos, no próximo dia 8 de março em Granada [sul da Espanha]. O rei Mohamed 6º virá?
Moratinos:
É uma cúpula muito importante, com um grande valor simbólico e histórico, porque será a primeira cúpula que o Marrocos celebra com a UE, e tudo o que signifique ancorar o norte da África à Europa é positivo. Ainda estamos trabalhando na agenda e esperamos que tenha uma participação no mais alto nível.

El País: Apesar de suas boas relações com o Marrocos, a Espanha teve de recorrer à França e aos EUA para resolver o caso Haidar.
Moratinos:
Era um caso muito complexo e tivemos de utilizar todas as capacidades diplomáticas e de influência que a Espanha tem com o Marrocos e com os atores que poderiam levar a uma solução satisfatória do problema, que era o que pedia a senhora Haidar. Às vezes em política internacional, embora se tenha capacidade de interlocução com uma parte, no final há necessidade de um esforço coletivo. Eu creio que é preciso ver o lado positivo, porque não se trata só desse fato, mas da solução definitiva do problema do Saara Ocidental, e aí a equação entre EUA, França e Espanha ficará clara em uma nova estratégia trilateral.

El País: Foi uma concessão admitir no comunicado que o governo divulgou depois do regresso de Haidar a El Ayun que a lei marroquina à aplicada no Saara?
Moratinos:
Não foi uma concessão, mas uma constatação, como dizia o próprio comunicado. Poderíamos perguntar à senhora Haidar se ali se aplica ou não a lei marroquina. Uma coisa é constatar a realidade e outra é o estatuto do Saara Ocidental, cuja definição corresponde à ONU e nós compartilhamos.

El País: Não foi ingênuo o ministro das Relações Exteriores ao aceitar que seu homólogo marroquino lhe enviasse a senhora Haidar sem negar-se a isso?
Moratinos:
Eu rejeitei essa expulsão, [mas] depois se realizou de fato e quando já sabíamos que a senhora Haidar seria expulsa as autoridades policiais atuaram corretamente, aplicando a lei. Não havia outra alternativa. As razões humanitárias levaram tanto a polícia quanto o governo a assumir essa situação que havíamos rejeitado e condenado quando me foi anunciada. Não houve qualquer cumplicidade nem consulta política, foi somente a informação que meu colega marroquino me transmitiu diante de um fato já consumado.

El País: Não poderia tê-la colocado de volta no avião para El Ayun?
Moratinos:
Não se discutiu, porque uma vez que ela entrou em território nacional, com permissão de residência, a norma não o permitia. A própria instância judicial foi clara: era enviá-la em uma espécie de pingue-pongue de um país para outro.

El País: O PP [Partido Popular] acusa o governo de mentir por não ter informado sobre essa conversa com o ministro marroquino e sacrificar os interesses dos agricultores espanhóis no acordo com a UE que coincidiu com o desenlace do caso Haidar.
Moratinos:
Mente-se quando se nega a realidade, e eu em sede parlamentar narrei toda a verdade. Não se mentiu em nenhum momento. Ao contrário, sempre se agiu de boa-fé, com vontade de resolver o problema. Com relação à imagem do senhor Rajoy com os tomates... é bastante patética. O PP, quando era governo, negociou uma série de contingentes alfandegários para os produtos agrícolas marroquinos. O que houve agora é a conclusão de um longo processo de negociação no qual se defenderam os interesses agrícolas espanhóis, sem nenhuma relação com o caso Haidar.

El País: O senhor falou com as famílias dos três trabalhadores humanitários catalães sequestrados na Mauritânia em 29 de novembro?
Moratinos:
Falei no dia de Natal. Transmiti-lhes minha solidariedade e meu compromisso para ajudar, como está fazendo o governo, a encontrar uma solução rapidamente, o mais rápido possível, embora saibamos que esses sequestros são complexos.

El País: Como as encontrou?
Moratinos:
Satisfeitas com o trabalho que o governo está fazendo, muito unidas e esperançosas de que tudo se resolva com rapidez, embora logicamente seja um momento difícil para todos.

El País: Apesar da dramaticidade da situação, o senhor está satisfeito por ter desenvolvido nos últimos anos as relações com países como Mali, dos quais a Espanha estava praticamente ausente?
Moratinos:
É indubitável que a nova política espanhola na África nos permitiu contar com uma maior capacidade de interlocução. Feliz ou infelizmente, segundo se olhe, meu colega italiano está agradecido por termos lhe dado uma base de apoio, já que a Itália [com dois cidadãos sequestrados pela Al Qaeda] não tem embaixada na Mauritânia ou em Mali, onde inauguramos a nossa há três anos.

El País: Que atitude que encontrou no presidente maliense?
Moratinos:
O presidente Touré tem muito boa relação com a Espanha e está muito satisfeito com a cooperação espanhola. Nos contatos que tivemos com ele, nos ofereceu toda a sua ajuda, mas prefiro manter a discrição e não revelar o conteúdo nem as gestões que estamos realizando com os diversos interlocutores para esse caso.

El País: O presidente da Argélia, Abdelaziz Buteflika, visitará Madri em breve.
Moratinos:
Vamos ter no início do ano uma reunião de alto nível com a Argélia, e não tenho dúvida de que a segurança no Sahel [faixa sul do Saara] será um dos componentes essenciais das conversas.

El País: A Argélia, que é um dos países que mais sofre o açoite do jihadismo, quer que a ONU proíba o pagamento de resgates pela libertação de reféns.
Moratinos:
A Argélia sofreu durante décadas o açoite do terrorismo jihadista, às vezes, diante da incompreensão da comunidade internacional. Mas a Espanha, que também sofreu o terrorismo da Al Qaeda, compreende perfeitamente a atitude de firmeza que as autoridades argelinas mantêm em todas as suas atuações.

El País: E elas podem entender que a prioridade para a sociedade espanhola seja salvar a vida de seus três compatriotas?
Moratinos:
Claro, tem de entendê-lo. Para o governo e para toda a sociedade nosso compromisso é que os trabalhadores voltem sãos e salvos, e é isso que vamos fazer, buscando toda a capacidade de negociação e de solução do problema.

El País: Um dos êxitos da presidência espanhola na UE será a cúpula da União pelo Mediterrâneo, em junho em Barcelona. Não teme um fiasco como em 1995, quando apenas líderes foram à capital catalã?
Moratinos:
É um desafio difícil, mas ainda temos seis meses para prepará-la adequadamente. É verdade que para garantir o sucesso da cúpula é preciso iniciar uma nova dinâmica de paz no Oriente Médio, e a isso vamos nos dedicar nos primeiros meses de 2010. Todos os atores, desde Mubarak a El Assad ou Netanyahu, demonstraram interesse em estar em Barcelona, mas temos de conseguir uma atmosfera que permita que os projetos possam se desenvolver. O prioritário agora é implementar o secretariado da UPM em Barcelona, e em janeiro vamos realizar uma reunião no Cairo para desbloquear o processo.

El País: O PP pactuou com o governo os objetivos da presidência espanhola da UE, mas se opõe a sua ideia de modificar a posição comum sobre Cuba, por acreditar que o regime castrista não deu passos que o justifiquem. Também alguns governos, como o alemão, fazem reparos. Mesmo assim espera consegui-lo?
Moratinos:
Não está garantido, mas vamos tentar. Em ocasiões anteriores movemos o conjunto da UE, depois de explicar nossos objetivos e raciocínios, e queremos fazê-lo também nesta ocasião. Vamos ver como reagem os países membros.

El País: Cuba ajudaria, se fizesse algum gesto...
Moratinos:
Todos devemos ajudar. Cuba vive uma situação econômica e social muito difícil e precisa de uma boa relação com a UE. E nós, os europeus, devemos estar mais presentes na ilha neste momento de reformas.

El País: Quem representará a Espanha na posse do novo presidente de Honduras?
Moratinos:
Dependerá de como evoluirá daqui até 27 de janeiro a situação política hondurenha. Tomamos nota das eleições, mas não podemos admitir que haja um presidente golpista, o senhor Micheletti, na entrega da faixa presidencial.

El País: O fato de a Espanha não reconhecer a independência de Kosovo não é um problema?
Moratinos:
Não. Já dissemos que atuaremos com espírito construtivo, assumindo que a maioria dos países europeus reconheceu a declaração unilateral de independência, mas buscando os dois elementos vertebrais de nossa posição: a estabilidade dos Bálcãs e a perspectiva europeia de todos os países da região.

El País: Sua viagem de julho passado à Guiné Equatorial provocou muitas expectativas, mas afinal Obiang não permitiu a presença de observadores nas eleições de 29 de novembro, que ele ganhou de modo avassalador.
Moratinos:
É uma decepção. O presidente Obiang não cumpriu sua palavra e ele assumirá as razões de não o ter feito. Mas para o governo espanhol não era o que esperávamos depois de [ter mostrado] uma vontade de ajuda e cooperação. Foi um erro não permitir que houvesse observadores espanhóis nem presença da mídia.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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