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29/12/2009

O dilema dos aiatolás

El País
Ángeles Espinosa
Em Teerã
As autoridades iranianas enfrentaram no domingo um difícil dilema. Se reprimissem duramente os protestos, o risco de novos mortos agravaria as fissuras que a crise pós-eleitoral abriu na sociedade iraniana. Se não atuassem, a oposição se beneficiaria do ciclo de festas religiosas e cerimônias de luto pelos mortos, como já havia ocorrido nos meses anteriores à revolução que expulsou do poder o xá, 30 anos atrás.

O que estava claro é que não poderiam impedir que as pessoas saíssem à rua no dia mais importante de seu calendário, a Ashura, que comemora o mito fundador do islamismo xiita: a morte de Husein, neto de Maomé, pelas mãos do califa Jazid.

Decidiram pedir às confrarias que realizassem suas cerimônias a portas fechadas e limitassem as procissões para evitar que os opositores as capitalizassem. Todas as medidas foram em vão. No centro de Teerã, no domingo, havia mais manifestantes antigoverno do que penitentes.

O confronto, seis meses depois que a oposição acusou o presidente Mahmud Ahmadinejad de ter roubado as eleições, prova o grau de cansaço de boa parte dos iranianos com o sistema político que os levou a um beco sem saída.

As autoridades acusam "as potências estrangeiras de incitar os protestos". Mas é preciso muita convicção para se atirar à rua depois da repressão que no verão passado deixou, segundo números oficiais, 36 mortos e 4 mil detidos, dos quais 200 foram a julgamento e 80, condenados a penas entre cinco e 15 anos de prisão. A oposição duplica o número de mortos.

Há notícias de protestos em Tabriz, Ilam, Mahabad, Isfahan, Najafabad, Shiraz, que deixam claro que o mal-estar não se limita às elites aburguesadas da capital, ou os "quatro meninos ricos" aos quais se referiu Ahmadinejad. A crise revelou divisões entre as elites dirigentes. Os ex-presidentes Rafsanjani e Khatami mostraram seu apoio à oposição. Também importantes religiosos, como o grande aiatolá Hosein Ali Montazeri, cuja morte há oito dias, aos 87 anos, deu um novo impulso aos protestos, somando aos jovens ativistas urbanos a seus seguidores, gente mais velha e mais religiosos.

O que é mais grave, pela primeira vez no domingo, são as indicações de discrepâncias inclusive dentro das forças de segurança. Algumas fontes falam que em vários pontos houve agentes que se negaram a obedecer às ordens de disparar.

O jogo dos fundamentalistas que controlam os centros de poder está contribuindo para radicalizar os manifestantes. Sua negativa a entabular diálogo com a oposição, como lhes sugeriram alguns conservadores moderados, destruiu as pontes para a reconciliação. Nas manifestações já não se pede a repetição das eleições, mas o fim do sistema islâmico ("morte a Khamenei", em referência ao líder supremo, ou "Revolução, liberdade, república iraniana", parafraseando o slogan oficial que acaba com "república islâmica").

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves A tensão entre os conservadores do regime e a oposição reformista ameaça o futuro da república islâmica

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