UOL Notícias Internacional
 

06/01/2010

Apostas viciadas no cassino do futebol

El País
Luis Gómez
O negócio emergente das empresas online dedicadas ao jogo se transformou em uma tentação para bandos inescrupulosos dispostos a alterar os resultados dos eventos esportivos

O delegado fez uma descrição muito simples do assunto: "Os bandidos estão na Europa, os apostadores na Ásia e o dinheiro é dividido em Berlim". O policial falava de futebol e explicava os resultados de uma profunda investigação que terminou no início de dezembro com a prisão de 17 pessoas e pôs em dúvida a limpeza de 200 partidas de futebol disputadas em diversos países da Europa. Segundo especialistas da polícia alemã, grupos criminosos de diferentes nacionalidades encontraram nas apostas esportivas pela internet um meio muito rentável de ganhar dinheiro com riscos limitados. A metodologia era igualmente simples: atuavam sobre apostas seguras a partir de jogos cujo resultado estava combinado.

Nunca antes se havia visto no futebol uma lista tão ampla de jogos, times, jogadores e árbitros comprados. Não era novidade que uma partida fosse comprada ou que existisse um acordo sobre determinado resultado, mas os casos conhecidos foram obra de marginais ou resultado de interesses esportivos, e não econômicos, exceto alguns exemplos documentados, relativos às loterias da Itália.

Foi esta investigação realizada na Alemanha que pôs em evidência práticas diferentes das clássicas. Já não são dois diretores que combinam um resultado ou que enviam um terceiro para comprar um jogador. A investigação da promotoria de Bochum coloca em cena homens sem escrúpulos, capazes de comprar o médico de um clube para que ponha sedativo na bebida dos jogadores, os garçons de um hotel para que introduzam drogas nos alimentos ou, sem ir mais longe, capazes de sequestrar ou assassinar intermediários.

O escândalo motivou a reação de altos dirigentes das principais instituições futebolísticas, Fifa e Uefa, que se mostraram dispostos a cooperar com as instâncias policiais e judiciais. Alguns outros dirigentes se aventuraram a manifestar que também não era necessário dramatizar o assunto, porque 200 partidas combinadas não podem pôr em xeque um esporte que organiza centenas de milhares de partidas a cada temporada.

Essa versão "desdramatizadora" parte da base de que uma maioria dos jogos que foram investigados corresponde a ligas menores ou competições de países de segundo nível. Exceto um encontro da Liga dos Campeões - KF Tirana (Albânia)- Stabaek (Noruega), que acabou em 4 a 0 para os noruegueses -, a maior parte dos casos corresponde a jogos da terceira e quarta divisões alemãs ou da segunda da Bélgica, Áustria e Suíça, além das ligas eslovena, lituana, turca, croata, bósnia e húngara. A explicação também é simples: são competições em que os jogadores ganham pouco e são mais acessíveis a receber compensações em torno de 20 mil euros, como ocorreu nos casos investigados.

Sejam partidas de maior ou menor nível, trate-se de futebol ou de qualquer outro esporte, o cenário é novo: as apostas esportivas pela internet, conhecidas como "apostas online", um negócio em expansão que atrai, segundo alguns estudos, 3 milhões de europeus e que não tem regulamentação na maioria dos países da UE. É um negócio que a proibição não parece afetar, porque opera através da internet. E aí está a questão: os cassinos online são proibidos nos EUA e os americanos continuam sendo alguns dos principais clientes dessas empresas, algumas delas domiciliadas em lugares como Gibraltar ou Malta.

A internet é o meio e o problema ao mesmo tempo, e a prática demonstra como é complexo colocar portas na rede. Como ocorreu com os downloads ilegais, agora é a vez do futebol, só que aqui não se trata da inocente cópia de um filme. Aqui entra em jogo a essência de um esporte.

Caso não mediassem as apostas online, ninguém teria reparado nos dois casos espanhóis objetos de suspeita. Ambos ocorreram na mesma data: 13 de junho de 2009. Jogavam-se duas partidas da segunda divisão espanhola, em sua penúltima jornada: Las Palmas-Rayo Vallecano e Alavés-Alicante. Duas das equipes, Las Palmas e Alavés, jogavam o rebaixamento para a segunda divisão. O Las Palmas precisava apenas de um empate. O Alavés, de um pouco mais: ganhar do Alicante e que o Las Palmas perdesse do Rayo para chegar com possibilidades à última etapa.

O Alavés ganhou por 1 a 0 do Alicante, equipe que já estava rebaixada e não jogava nada. E Rayo e Las Palmas empataram a 0, por isso a equipe canária se salvou. O empate a 0 era um resultado aceitável para as duas equipes: para o Las Palmas porque se salvava e para o Rayo porque seu goleiro, Cobeña, se transformaria no menos goleado da categoria: era um prêmio desejado pela equipe, que não jogava nada mais importante em campo.

Algumas crônicas mencionam que as duas equipes pouco fizeram para marcar, inclusive há referências a críticas dos torcedores pela pequena combatividade dos jogadores. Houve gritos de "Trapaça!". Definitivamente nada que não tenha ocorrido em outros jogos em circunstâncias parecidas, na Espanha ou fora dela.

Sobretudo na Itália, como conta um ex-jogador espanhol que militou durante anos em um time italiano: "Perto do final da temporada é muito comum que as partidas terminem em empate porque as equipes combinam o resultado. A primeira vez que isso me aconteceu eu não percebi. O capitão me disse que era preciso empatar, mas pensei que estivesse brincando. No primeiro tempo recebi uma bola muito bem colocada, dessas que dá gosto chutar com toda a força. E foi o que fiz. Chutei tão bem que ela entrou no gol. Meus companheiros não me abraçaram. Alguns me xingaram. Depois o capitão se dirigiu a mim perguntando se eu estava louco, o que havia feito. Então percebi que a coisa era séria. Tivemos de deixar que nos marcassem um gol antes do intervalo".

O empate entre Las Palmas e Rayo Vallecano era um resultado "razoável", bom para as duas equipes. Mas havia a internet e as apostas online. E houve gente que apostou no 0 a 0. Mais gente do que o habitual em uma dessas partidas. Tanta gente que a casa miapuesta.com, sediada em Londres, suspendeu as apostas em determinado momento e deu o aviso. Este chegou às casas de apostas em Madri (a única comunidade, junto com o País Basco, onde as casas de apostas presenciais estão regulamentadas). Pela lista de pessoas envolvidas neste caso concreto, algumas já divulgadas, pode tratar-se de amigos ou parentes de alguns jogadores das duas equipes, que, sabendo de um resultado combinado, quiseram obter um benefício suplementar. Os casos de resultados combinados sem dinheiro no meio se transformam, graças à internet, em uma possibilidade de renda econômica.

Pouco ou nada se investigou sobre o Alavés-Alicante. Neste caso, não se tratou de um empate, mas também foram registradas apostas fora do normal.

A investigação policial dos dois casos é mínima. Apenas em Madri foram comprovados os jogos realizados nas casas de apostas. Segundo um porta-voz policial, "não houve nenhum ganho extraordinário", mas os dados obtidos foram enviados à Promotoria do Estado. A maior aposta foi de 300 euros. "Temos um problema adicional: nosso Código Penal não sanciona a compra de partidas, por isso, mesmo que tivéssemos algum indício a mais, pouco poderíamos fazer agora."

À diferença dos cassinos online, nas casas de apostas o apostador deve se identificar e sabe que se receber mais de 3.005 euros de prêmio a casa é obrigada a comunicá-lo. Mais complicado é seguir a pista de um apostador pela internet e saber se se trata de um menor de idade.

Porta-vozes das casas de apostas, tanto online como presenciais, argumentam que as primeiras vítimas desses casos são as empresas. "Não sabemos se uma partida foi combinada, mas somos obrigados a pagar." "Por esse motivo", diz Sasha Michaud, porta-voz da Aedapi, uma associação de cassinos online da Espanha, "temos acordos assinados com as principais instituições desportivas para informar sobre situações suspeitas." Betfair, um dos principais cassinos de apostas esportivas, diz ter uma equipe de 35 pessoas que "trabalham 24 horas por dia tentando detectar alguma fraude".

O jogo online não está regulamentado na Espanha, apesar de faturar mais de 200 milhões de euros por ano. Algumas de suas empresas patrocinam importantes clubes de futebol (a Bwin patrocina o Real Madrid e a 888.com o Sevilla) e veiculam sua publicidade abertamente. O setor do jogo acusa essas empresas de concorrência desleal: "Quantas empresas online pagam impostos na Espanha? Nenhuma", afirma o gerente de uma casa de apostas, "motivo pelo qual podem dar maiores porcentagens em prêmios."

Os cassinos online são um mercado em alta e um grande negócio na rede. E o futebol se transformou em um dos motores dessa atividade. O resultado sempre incerto de uma partida é o atrativo que faz mudar de mãos centenas de milhões de euros por dia. Esse dinheiro que circula tão facilmente agora também é um butim apetitoso para organizações sem escrúpulos ou para oportunistas. Futebol e crime organizado acabam de encontrar um ponto de contato na rede. Uma má notícia para o futebol.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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