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08/01/2010

A carga moral do século 21

El País
Elena Sevillano
Sentimo-nos culpados. Por não passar tempo suficiente com a família, por não gostar de nosso corpo, por mil razões. Os remorsos sem controle deterioram a autoestima, provocam ansiedade e depressão. Aprender a perdoar-se não é fácil

Ao consultório da psicóloga Laura Rojas-Marcos chegam pacientes com transtornos alimentares, depressão, ansiedade, estresse, problemas familiares. "Não sei o que me acontece." Por trás dessa angustiante incerteza, muitas vezes se encontra a culpa, um sentimento que pode "deteriorar nossa autoestima, nossa paz interior e nossa felicidade", descreve a especialista. A culpa é necessária e positiva quando implica responsabilidade e ajuda a diferenciar a boa e a má conduta, mas seu reverso tenebroso incapacita, bloqueia. Tanto que ela lhe dedicou um livro, "El Sentimiento de Culpa", em que diferencia dois tipos. De um lado está a real, a que aparece como o Grilo Falante quando causamos algum dano. "Está bem que seja assim para um torturador argentino que atirou pessoas de um avião ao mar", declara a assessora Pilar Varela. De outro lado, a falsa, a patológica e a que sofrem os sobreviventes de uma catástrofe ou crianças que se acusam pela separação de seus pais. "Quando não serve para aprender e a única coisa que provoca é dor, é preciso pedir ajuda", aconselha a psicóloga María Jesús Álava.

As origens do sentimento de culpa estão inscritas em nossa evolução, segundo o psicólogo Xavier Guix. "O que muda são as causas às quais atribuímos esse sentimento. Hoje, por exemplo, não ser suficientemente feliz chega a ser motivo de autoinculpação. Há 30 anos, ser feliz era o que podia causar culpa", afirma. As gerações anteriores eram mais condicionadas pela religião judaico-cristã, pelo pecado, o "não agi bem com meu próximo", segundo reflete Álava. A autora de "La Inutilidad del Sufrimiento" considera que o ritmo diabólico e o consumismo derivam em cargas de outro tipo: pais angustiados por não dedicar tempo suficiente a seus filhos, pessoas que creem falhar com seus amigos, indivíduos com pais idosos que vivem sozinhos ou em uma residência, trabalhadores convencidos de que não estão superando as expectativas no trabalho.

As mulheres costumam experimentar mais culpa por questões relacionadas à família, o lar e o cuidado dos filhos; os homens são mais pressionados pelo trabalho, segundo concordam os especialistas. "É um sentimento mais feminino, sobretudo no que se refere à culpa cotidiana", acrescenta Varela. Para muitas, esta se transforma em uma alternativa excludente: "Se sou uma boa engenheira, sou uma mãe ruim; se sou boa mãe, sou uma má engenheira". Uma suposta escolha que provoca ansiedade. Rojas-Marcos prefere falar de papéis, mais que de diferenças entre sexos: "O papel de cuidador [que costuma corresponder à mulher] se sente culpado pelo fato de ir trabalhar deixando os filhos em casa; o papel de caçador-coletor [associado ao homem] sente-se culpado se não for um bom provedor". Se não ganhar dinheiro suficiente, se ficar desempregado.

"Na Espanha há dificuldades para dizer não, pelo que vão dizer; é uma questão cultural", detecta a psicóloga, em contraposição com o mundo anglo-saxão: "Ali se age melhor, são mais diretos". O que vão dizer, as relações sociais, a imagem que projetamos, são outras fontes de culpa no século 21, segundo a especialista, que prossegue: nos sentimos culpados quando causamos dano ou desejamos mal a alguém, quando uma relação se deteriora ou sentimos afeto por outra pessoa, quando nos fazem chantagem emocional ou manipulamos, quando não gostamos de nosso corpo ou nos irritamos com aqueles de quem cuidamos...

Diante dessa lista, cabe pensar que nossa carga é maior que a de nossos pais, mas a especialista acredita que é o contrário: "Viver em democracia ajuda a dissipar mais a culpa falsa e nos concentrarmos mais na real. É mais saudável quando temos liberdade para nos expressar, nos explicar ou pedir ajuda".

Uma vez detectado o problema, identificada a fonte de culpa e se esta é real ou falsa, o passo seguinte é "utilizar recursos para a solução de conflitos", explica Rojas-Marcos. "Se é possível consertar, temos de ver a maneira de reparar o dano", continua. Se não tem solução, "aprender a viver com isso". "É importante perdoar aos outros e a nós mesmos", receita. "É um erro pensar que a culpa nos dignifica; ao contrário, pode fazer com que demos o pior de nós mesmos", intervém Álava. Guix aponta o matiz entre culpa (sentimento, carga emocional) e responsabilidade (consciência, conhecimento das próprias ações). "Felizmente começa-se a dar um novo enfoque a nossa evolução, em que a culpa é substituída pela responsabilidade. E uma das primeiras responsabilidades consigo mesmo é aprender a viver sem culpar-se por isso", afirma.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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