UOL Notícias Internacional
 

08/01/2010

A história do movimento antiglobalização

El País
Antía Castedo e Bernat García Em Madri
Perder a rua, ganhar o discurso

O movimento, que perdeu visibilidade há cinco anos, vê, junto com os ecologistas, como a crise econômica leva os governos a adotar propostas que antes desprezavam


Impostos sobre os bônus concedidos aos banqueiros, erradicação dos paraísos fiscais, taxas sobre transações financeiras. Essas bofetadas contra o neoliberalismo não são propostas de um pequeno grupo de radicais, mas sim de alguns dos dirigentes dos países mais ricos do planeta. A crise econômica pôs em destaque todos os debates que foram propostos pelo movimento antiglobalização há anos.

Não é que Gordon Brown, Angela Merkel ou Nicolas Sarkozy tenham se afiliado à ATTAC [Associação pela Tributação das Transações Financeiras para Ajudar os Cidadãos, na sigla em francês]: os governos não ardem de desejo de reformar o sistema, só pretendem estabilizá-lo, acalmar a opinião pública e atenuar as consequências mais negativas da crise. Mas onde estão os adversários da globalização neoliberal? Com exceção da cúpula do clima de Copenhague, onde milhares de ativistas participaram dos protestos de rua, parece que o movimento antiglobalização se retirou para as trincheiras.

  • Casper Christoffersen/AFP - 18.dez.2009

    Ativistas usando máscaras de líderes mundiais, com cartazes de "vergonha climática", protestam contra o pouco progresso da Conferência das Nações Unidas sobre o Clima



No entanto, faz dez anos esse marasmo de ativistas radicais de esquerda, ecologistas, feministas, anticapitalistas e um longo etcetera surpreendeu o mundo com uma revolta maciça em Seattle (costa oeste dos EUA) que fez fracassar a Rodada do Milênio da Organização Mundial do Comércio (OMC). Uma convocação maciça pela internet conseguiu reunir cerca de 50 mil manifestantes. Ao sucesso repentino, foram aderindo organizações de todo o mundo. Seguiu-se a criação de um Fórum Social Mundial, em Porto Alegre (Brasil), como contrapeso às reuniões do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial ou das cúpulas dos países mais ricos do mundo (G-8).

A capacidade de convocação foi cada vez maior. A Rodada de Seattle foi um fracasso. A pressão popular conseguiu inclusive que o Banco Mundial anulasse sua reunião em Barcelona em 2001, por medo do boicote dos ativistas. Manteve o encontro, mas por teleconferência. Mesmo assim, entre vitoriosos, desconcertados e impotentes, mais de 300 mil manifestantes inundaram as ruas da capital catalã nesses dias. Entre eles, desde a esquerda parlamentar até o Batasuna [união da esquerda basca].

Depois veio Gênova. A cúpula do G-8 marcou o primeiro ponto de inflexão do movimento. Os 150 mil ativistas que invadiram as ruas da cidade italiana se chocaram frontalmente com uma repressão policial sem paralelo nas convocações anteriores. Carlo Giuliani, um ativista italiano, transformou-se na primeira vítima mortal da rebelião, um mártir que morreu sob os tiros de um policial italiano.

Susan George, vice-presidente da ATTAC França, cabeça visível do movimento e autora do Relatório Lugano - a bíblia dos antiglobalização -, afirma que a estratégia de ir de cúpula em cúpula era um "modelo insustentável", sobretudo depois da morte de Giuliani e da violência policial em Gotemburgo (Suécia) em uma reunião de líderes europeus em 2001. "Não parecia que esta fosse a forma de avançar no futuro", explica. "Passamos meses negociando com a polícia e depois sempre descumpriam as promessas. Decidimos que não queríamos lhes dar a oportunidade de sempre apresentar as manifestações como demonstrações de violência."

Os críticos, no entanto, argumentam que o movimento carecia de coerência desde o início e que em seu interior conviviam facções que em alguns casos chegavam a defender posições opostas. "Uma confederação frouxa de muitas visões e ideologias políticas, muitas delas distantes demais para permitir uma posição comum", é como caracteriza o movimento Fredrik Erixon, diretor do Centro Europeu de Política Econômica Internacional, com sede em Bruxelas. "Seus líderes eram, na essência, não só antiglobalização como anticapitalistas, com uma agenda muito radical. Não se entendiam com os grupos ecologistas ou os concentrados na pobreza", explica Erixon, que acredita que a desilusão inicial com certas posições exemplifica os problemas posteriores do movimento. "Um homem como José Bové, a primeira cabeça visível, animou inicialmente os grupos antipobreza a aderir ao vagão antiglobalização. Mas estes logo perceberam que o que Bové dizia na realidade ia contra os interesses dos países pobres." Bové, um sindicalista agrícola francês que se destacou por suas posições antiliberais, ganhou notoriedade por atacar um McDonald's e hoje ocupa uma cadeira no Parlamento Europeu.

No seio do movimento, explica Iolanda Fresnillo, do Observatório da Dívida na Globalização, ampliou-se a sensação de que "outros definiam a agenda" e de que as organizações deviam tentar impor a sua própria, e não só reagir a metas estabelecidas pelo Banco Mundial, o FMI ou a UE. Mas o principal motivo do enfraquecimento do protesto de rua vinha se consolidando desde Seattle. "Apesar de conseguir que um ou outro encontro fosse cancelado, não se viam decisões de longo prazo. As pessoas perceberam sua pouca capacidade de influência. A vontade diminuiu", diz Eric Toussaint, membro do comitê internacional do Fórum Social Mundial.

Os acontecimentos nos primórdios da guerra do Iraque foram o paradigma dessa decepção, segundo Toussaint. "Nunca havíamos conseguido levar tanta gente à rua", ele lembra. Milhões de pessoas se rebelaram contra o governo Bush e seus aliados em 15 de fevereiro de 2003 em dezenas de capitais europeias. "E os EUA invadiram o Iraque somente um mês depois."

A partir de então, o silêncio. Apesar das grandes mobilizações, não surgiram respostas. "As pessoas participavam com a expectativa de mudar o rumo da reunião. Em Seattle fizemos isso, porque eles não conseguiram tomar decisões, devido às contradições e à pressão dos antiglobalização. Mas depois as pessoas perceberam que não conseguiam influir nessas cúpulas. A vontade diminuiu", conclui.

A coisa se institucionaliza. Josep Maria Antentas, ativista e coautor do livro "Resistencias Globales", junto com Esther Vivas, opina que o movimento vive hoje "uma etapa de fragmentação". Aumentam as lutas locais e a rebelião se especializa. A própria Vivas decidiu candidatar-se nas eleições europeias à frente da Esquerda Anticapitalista. Ela o justifica da seguinte forma: "A resistência no terreno social não basta; é fundamental, mas não podemos ficar só aí. É preciso lutar em todos os campos e não deixar o terreno político e eleitoral nas mãos dos partidos que hoje monopolizam esse âmbito".

O Fórum Social Mundial, que nasceu em 2001 com apenas 12 mil participantes, conta hoje com 140 mil delegados. Salvatore Cannavo, membro do Fórum Social de Gênova, é crítico do processo de Porto Alegre. "Está muito ligado a grandes organizações. O fórum não foi capaz de absorver os protestos maciços dos estudantes europeus contra os planos da reforma educacional de Bolonha na Espanha, Itália, França ou Alemanha."

Dez anos depois, a pergunta é evidente: quais foram as conquistas reais, imputáveis ao movimento antiglobalização? Embora os mais otimistas considerem que suas pressões conseguiram conter a ferocidade do sistema capitalista, Salvatore Cannavo é taxativo: "Na verdade, pouco ou nada". "É certo que muitos países hoje adotam algumas de nossas reivindicações, mas são anúncios, intenções e poucos fatos", explica Toussaint. "Não tiveram qualquer influência na agenda política", acrescenta Erixon. "A crise foi tão profunda e perigosa que não deixou espaço para meros pontos de vista ideológicos. Se você quiser que o escutem, precisa ter algo sério para dizer", argumenta.

  • Nicholas Kamm/AFP - 1º.dez.2009

    Ativistas do grupo CodePink organizam protesto antiguerra em Washington, nos Estados Unidos



Na opinião dele, nem sequer o debate sobre o imposto Tobin ou os bônus dos banqueiros é mérito dos antiglobalização, senão a conseqüência de uma crise que quase derrubou o sistema financeiro. "A questão dos sistemas de bônus está relacionada ao risco que representam para a estabilidade financeira, e não a mera exploração de pessoas inocentes, que era o argumento dos antiglobalização há dez anos."

Mesmo assim, com o recente destaque do G-20, muitos pensam que seus novos integrantes, países em desenvolvimento como Índia, China ou Brasil, que haviam adotado algumas das reivindicações - como a necessidade de abrir os órgãos de decisão dos organismos internacionais para novos países -, hoje têm poder para pôr em prática receitas mais sociais e igualitárias. "Isso é verdade no caso do Brasil, mas não ocorre com a China ou a Índia. O governo brasileiro integrou parte das demandas, mas seu presidente está ainda mais interessado em buscar o reconhecimento de Washington", opina Toussaint.

Josep Maria Antentas vê um avanço evidente: a chegada ao poder da revolução bolivariana na América Latina: Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia ou Rafael Correa no Equador, os presidentes mais altermundistas deste início de século. A nacionalização dos recursos naturais, o discurso anti-imperialista, o desprezo pelo livre comércio ou a rejeição à presença militar dos EUA no continente refletem os princípios do primeiro grande feito dessa revolta: o levantamento dos zapatistas no México contra o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta na sigla em inglês), que entrou em vigor em 1º de janeiro de 1994.

No início do século 21, o clima se perfila como ponto de encontro de todas as organizações que apostam em um modelo econômico alternativo. "É o eixo que vai aglutinar as redes no futuro", analisa Paul Nicholson, dirigente da Via Campesina. Na mudança climática confluem muitas questões. Uma delas, o desequilíbrio na relação entre os países pobres e os ricos, está no centro do movimento antiglobalização desde seu início. Se primeiro pedia a abolição da dívida dos países mais pobres, agora exige que não sejam estes os mais prejudicados pela mudança climática, já que são os que menos contribuíram para a mesma. Segundo Nicholson, o clima vai ajudar na articulação de novas redes sociais no futuro próximo.

A crise econômica, ao contrário do que se poderia esperar, não instigou a rebeldia social. Até agora os governos fizeram esforços para mitigar as consequências da crise com seus pacotes econômicos de estímulo à economia e aliviar a situação dos desprotegidos, como na Espanha, onde se ampliaram as ajudas ao desemprego. Mas isso tem um fim. A imperativa necessidade de reduzir o déficit levará os governos a prejudicar as classes populares. "A ofensiva contra esses setores vai se reforçar", explica Toussaint. Será então que as massas sairão à rua contra os banqueiros, os organismos internacionais ou os governos liberais com a mesma força que irrompeu em Seattle ou Gênova? Será preciso esperar para ver. De toda forma, segundo Susan George, ainda é cedo para julgar. "A história do movimento tem apenas uma década. E dez anos, em termos históricos, não são nada."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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