UOL Notícias Internacional
 

08/01/2010

É a guerra de Obama

El País
Lluís Bassets

Terrorismo

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, assumiu nesta quinta-feira (7) a responsabilidade pelas falhas na segurança, que permitiram que um nigeriano tentasse explodir um avião com destino a Detroit, e ordenou medidas para melhorar os procedimentos

A pior de todas é a que se trava em nossos cérebros. Pode dar-se por perdida quando se aceitam seus termos. E é preciso escrevê-lo com todas as letras: na Europa está sendo perdida. É a guerra cultural, na qual as ações violentas têm uma dupla função persuasiva: amedrontar o conjunto da população e transferir a responsabilidade, a culpa, para os que atuam em desconformidade com o islamismo radical, transformando-se com isso em alvos potenciais. O resultado é que conduzem à restrição da liberdade de expressão e à censura. Essa guerra tem muitos cúmplices, porque não são só os muçulmanos radicais que pedem um estatuto especial para sua religião. Na Irlanda, no primeiro dia do ano, entrou em vigor a lei antiblasfêmia, que pune com uma multa de até 25 mil euros quem as proferir em público. Um soldado dessa guerra é o somali que no primeiro dia do ano tentou assassinar, de machado e faca na mão, Kurt Westergard, o desenhista que publicou uma caricatura de Maomé no jornal dinamarquês "Jyllands Posten" em 2005, e que desde então se encontra sob proteção policial. Nas críticas às caricaturas de Maomé concordaram o papa, Tony Blair e inclusive George Bush, apesar de em seu país a liberdade de expressão estar muito melhor protegida do que na Europa.

Não fica atrás a guerra seguinte, que é travada à vista de todos, na rua e nas instituições. Como a anterior, tem a virtude de que começa a ser perdida quando se aceita que existe. O sonho da invulnerabilidade pode conduzir a maiores aberrações. Dura será a vida dos que utilizam o transporte aéreo. Mas o mesmo pode acontecer com trens, ônibus, metrôs e inclusive automóveis particulares. Há no entanto uma inversão de termos neste caso. Na Europa, hoje mais acostumada à sociedade de risco, a reação é moderada. Nos EUA, por sua vez, onde prosperou a lenda de um país invulnerável, nem mesmo Obama conseguiu reverter os efeitos da guerra sobre o estado de direito e as liberdades. O soldado dessa guerra é o nigeriano que tentou explodir o avião da Northwest ao chegar a Detroit, vindo de Amsterdã, no dia de Natal. Guantánamo continuará aberta graças a ela. Como continuará havendo presos sem julgamento, ordens de detenção secretas, escutas sem controle judicial e tudo o que Bush fez, sim, no atacado, agora no varejo e com mais cuidados e prevenções.

Mas onde mais se nota que estamos perdendo a segunda guerra, a dos valores, é na terceira, que é onde há realmente combatentes, batalhas e Estados-maiores confrontados e é no fundo a verdadeira guerra de Obama. É lamentável e repugnante como toda a guerra, mas é a mais certa e eficaz. Trava-se em segredo, sem bravatas, silenciosamente. Embora seus efeitos surjam de vez em quando, com não pouco alarme. Por exemplo, no ataque suicida à base da CIA no Afeganistão, um revés histórico para os EUA, que acreditavam ter Bin Laden ao alcance das mãos através de um agente duplo e afinal perdeu sete agentes próprios e um de um país aliado como a Jordânia. Essa ação da Al Qaeda é a resposta a uma guerra cibernética, através de aviões teleguiados, que a CIA mantém no Afeganistão e no Paquistão e que custou a vida de pelo menos uma vintena de importantes dirigentes terroristas.

Com Obama se intensificou esse tipo de guerra, a ponto de alguns especialistas afirmarem que substituirá a atual presença maciça de tropas na zona de conflitos que se estende do Paquistão à Somália. A CIA realizou 55 ataques com seus "drones" Predator e Reaper durante o primeiro ano de Obama na Casa Branca, uma cifra que é o dobro da de 2008 com Bush e supera toda a atividade durante os oito anos da presidência anterior. Formalmente, trata-se de um programa de assassinatos seletivos autorizado por Bush, depois que outro presidente republicano, Gerald Ford, o proibiu em 1976.

O australiano Philip Alston, relator especial da ONU sobre Execuções Extrajudiciais e professor de direito na Universidade de Nova York, considera que esse tipo de ação pode ser legal em condições de guerra justa: quando não há outro meio para deter ou impedir que o inimigo prossiga sua atividade e quando se tomam todas as precauções para evitar as vítimas civis. Mas não parece ser o caso, porque nem sequer há informação oficial nem possibilidade de controle judicial ou parlamentar sobre esse tipo de ação.

Bush fazia um pacote com todas as guerras, ao qual denominava Guerra Global contra o Terror, que alguns confundiam com uma guerra contra os árabes ou contra o islã. As faturas por aqueles erros, cada vez mais elevadas, continuam chegando hoje. Obama matiza e distingue: mas isso não o torna imune às críticas, da direita por sua excessiva moderação e da esquerda por sua continuidade com a guerra ilegal de Bush. De sua perícia para travá-la sem muito desgaste e para ganhá-la, isto é, terminar com o perigo certeiro da Al Qaeda, não depende unicamente sua presidência, mas também a segurança de todos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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