UOL Notícias Internacional
 

09/01/2010

Imigrantes africanos se rebelam nos campos mafiosos da Itália

El País
Miguel Mora
Em Roma (Itália)
Milhares de trabalhadores temporários que são explorados e vivem em condições desumanas causam distúrbios nas ruas de Rosarno. A revolta explodiu devido aos tiros disparados por dois moradores contra dois trabalhadores. Os imigrantes denunciam atos constantes de violência racista. Vários jornalistas que chegaram ao lugar foram atacados por moradores que não queriam testemunhas

Local do conflito

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Várias centenas de imigrantes africanos, jovens trabalhadores temporários contratados pelos agricultores locais para colher laranjas e tangerinas, estão há 18 horas em revolta em Rosarno, na Calábria. A rebelião começou na quinta-feira ao cair da tarde, depois que dois temporários (um nigeriano sem documentos e um refugiado político originário do Togo) ficaram levemente feridos pelos tiros de uma pistola de ar comprimido disparados por dois moradores, sem motivo aparente. O balanço provisório é de 32 feridos, oito detidos e vários contundidos.

A rica região agrícola de Piana (planície) de Rosarno, ao norte da região italiana de Reggio Calabria, é dominada por empresas ligadas à 'Ndrangheta, a poderosa máfia local. Os cerca de 3 mil trabalhadores que, segundo estimativas, estariam hoje na região vivem em condições desumanas, em armazéns ou fábricas abandonadas, sem banheiros nem camas, e são recrutados pelos capatazes das "ndrine", os bandos mafiosos que possuem a terra.

Os capatazes escolhem os trabalhadores mais fortes ao amanhecer, como se fosse um mercado de gado, segundo conta no sábado uma reportagem do jornal "La Repubblica". O pagamento é de 20 euros por dia, e a jornada dura entre 12 e 14 horas. Os escolhidos também devem pagar uma comissão de 5 euros (25% do salário) a seus recrutadores. Os temporários procedem na maior parte da África central e do Magreb, e quase todos chegaram à Itália em barcos através da ilha siciliana de Lampedusa. Gana, Senegal, Togo, Sudão, Marrocos, Costa do Marfim, Mauritânia, Nigéria e Congo são seus lugares de origem.

Desde o início da década de 1990, os miseráveis percorrem as regiões do sul da península italiana, da Sicília à Púlia, Calábria e Campânia, seguindo as temporadas das colheitas. Há dois anos já ocorreram incidentes semelhantes em Rosarno, e pouco depois em Castelvolturno (Campânia) grupos de imigrantes africanos se enfrentaram com a Camorra depois do assassinato a tiros de vários companheiros.

Na quinta-feira, a raiva dos deserdados explodiu depois do ataque de dois italianos armados com pistolas de ar comprimido. Os temporários marcharam pela estrada que liga os laranjais ao povoado, viraram automóveis, queimaram latões de lixo e atacaram com paus e pedras alguns veículos. Um dia depois a tensão continua muito alta. Os moradores calabreses passaram ao contra-ataque e tentaram linchar alguns trabalhadores que marchavam para a prefeitura para pedir melhores condições de vida e o fim da violência. "Precisamos de proteção, porque sofremos continuamente atos de violência racista", disse Siski, um imigrante de 25 anos.

Cerca de 300 policiais antidistúrbios, vindos de cidades próximas, tentam evitar os choques entre cerca de 700 imigrantes e 300 moradores. Entre os feridos, 14 pertencem à comunidade imigrante e 18 às forças da ordem. Um cidadão local, Giuseppe Bono, 38 anos, foi detido por tentar atacar os africanos com um trator. Jovens locais, preparados para a guerrilha, permanecem de prontidão no centro da cidade. As redes de televisão contaram que nas ruas de Rosarno se vive um clima de "caça ao negro". Todas as lojas estão fechadas, houve disparos para o ar e vários jornalistas que chegaram ao lugar foram atacados por moradores que não queriam testemunhas.

A "vendetta" explodiu depois que se difundiu o falso rumor de que uma mulher supostamente agredida pelos africanos estava grávida e tinha perdido o filho. O ministro do Interior, Roberto Maroni, comentou o fato afirmando que "a Itália foi tolerante demais com a imigração clandestina nos últimos anos". "Em Rosarno se vive uma situação difícil como em outros lugares, porque em todos esses anos se tolerou, sem fazer nada eficaz, uma imigração clandestina que por um lado alimentou a criminalidade e por outro gerou uma situação de forte degradação", explicou Maroni.

O comentário do dirigente da Liga do Norte foi censurado pelo líder da oposição, Pierluigi Bersani, mas a crítica mais ácida surgiu dentro da maioria. A revista "Ffmagazine", ligada à Fundação Farefuturo, de Gianfranco Fini, afirmou: "Na Itália existe escravidão, e um Estado cívico, moderno e democrático não pode tolerar que milhares de pessoas vivam na indigência mais absoluta".

A Conferência Episcopal Italiana condenou "os atos de violência e a situação de extrema dificuldade que vivem os imigrantes, sem ajuda humana nem econômica". O episódio representa um "símbolo de intolerância e degradação humana", salientou Bruno Schettino, presidente da Comissão Episcopal para as Migrações.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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