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09/01/2010

Sara Morales conta como foi sua vida como "guerrilheira Selena" na Colômbia

El País
Carmen Pérez-Lanzac
Em Madri (Espanha)
Sara Morales chega uma hora atrasada ao encontro com a jornalista, que está subindo pelas paredes. Essa mulher carismática de 24 anos, mãe de três filhos e grávida do quarto, não muda de expressão. Tinha 11 anos quando as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a maior guerrilha do país, a raptaram. Foi guerrilheira à força até que conseguiu escapar em 2007. Não foi fácil. Atiraram nela. Ainda está fresca a cicatriz da bala que atravessou sua mão.

Uma jornalista incomodada por um atraso? Nada que vá apagar seu sorriso. Combinamos de nos encontrar em um restaurante especializado em "paellas", para que Sara coma de novo esse prato que provou há alguns dias e adorou. Veio à Espanha porque, junto com outros 11 ex-guerrilheiros e ex-paramilitares, forma o coral Canta Comigo, um projeto do Alto Conselho para a reintegração da Colômbia. É a primeira vez que sai de seu país e está radiante, encharcando-se do que vê, experimenta e escuta.

A incrível história de Sara Morales é de arrepiar os cabelos. Ela é a segunda de seis irmãos e cresceu sem pai ("nasci e tchau, ele se foi"). "Um dia saí para fazer uma compra. Minha mãe me mandou trazer leite, café e torradas, mas quando voltava para casa me levaram. Lá isso é normal, todas as famílias têm que dar uma cota para a guerrilha. Eu era uma menina muito esperta e eles me notaram."

Na selva, Sara se transformou em Selena. Mandaram que ela escolhesse um novo nome e ela se lembrou de uma cantora. Selena conheceu os maus-tratos, os gritos, o esforço físico, as balas. "Quinze dias depois, sem saber manipular uma arma, me levaram a um combate. Eu morria de medo. Pude ver pequenos companheiros caírem mortos. Eu chorava, era a única coisa que podia fazer." Aos 14 anos, graças a sua desenvoltura para se expressar, entrou na rádio das Farc. "Minha tarefa era modificar as notícias, mentir para dar razão à guerrilha. Como é fácil manipular", diz.

Com o tempo, Sara se apaixonou por um "soldado raso". Seus dois filhos mais velhos nasceram na selva e foram criados por famílias da região. Em 20 de julho de 2007, durante uma ofensiva do exército, Sara viu uma oportunidade de escapar. "Durante minha ronda noturna, fugi. Quando os companheiros perceberam, vieram atrás de mim. Dispararam e acertaram minha mão, mas eu escapei, fiz um torniquete e continuei. Depois me atingiram na perna, ainda bem que não pegou o osso..."

De repente ela solta: "Eu posso ir a um 'reality show' na televisão que eu ganho. Me defendo para a sobrevivência". Ela se adapta ao que surgir. Aqui está comendo seu primeiro lagostim, e já chupa a cabeça do crustáceo, como acabam de lhe explicar que se faz, e dá gosto vê-la. Sara conseguiu escapar. De volta ao seu povoado, encontrou sua mãe "mais velhinha, decaída". Fernando, seu irmão mais velho, não estava. "A guerrilha o matou por não colaborar."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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