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11/01/2010

Lich Ramírez Sanchez, o Chacal, diz que não se arrepende dos crimes que cometeu

El País
Antonio Jiménez Barca
O homem mais procurado do mundo, capturado pela morte de 80 pessoas, fala pela primeira vez desde que foi preso

Seu pai, advogado burguês e comunista, deu-lhe o nome de Ilich Ramírez Sánchez quando nasceu na Venezuela há 59 anos. Sua mãe, católica e conservadora, preferiu batizá-lo como Carlos. A polícia, inspirando-se num livro da época, o apelidou de "O Chacal". Assim ficou conhecido pela história: Carlos, o Chacal. Nos anos 70 se transformou no homem mais procurado do mundo, com mais de 52 nomes diferentes em mais de 100 passaportes. Deixou atrás de si um rastro de 80 mortes, segundo o Ministério de Interior francês.
  • O terrorista venezuelano Illich Ramirez Sanchez, conhecido como o Chacal, em rara aparição pública, espera para ser interrogado por promotores alemães em Paris, na França. Ele é acusado de ter participado de atentado na conferência da OPEC em Viena, Áustria, em 1975



Passou parte de sua adolescência em Londres, onde ao mesmo tempo aderiu ao comunismo e participou de festas pagas por milionários xeques árabes. Estudou na Universidade da União Soviética. Lá conheceu membros da resistência palestina. Uniu-se a eles. Combateu contra o Exército jordaniano no chamado Setembro Negro. Tinha 21 anos. De lá voltou de novo às festas de Londres, já transformado em chefe de terroristas.
Atribuem-se a ele assassinatos à queima-roupa, bombardeios em lojas no centro de Paris, trens, atentados com carros-bomba. Em 1975 sequestrou, a mando de outros cinco terroristas, todos os participantes de uma reunião da Opep em Viena: tomou 60 pessoas como reféns, entre eles 11 ministros. Um deles o definiu como um homem dotado de surpreendente capacidade mental para atuar sob pressão.

Diz-se comunista desde 1964, professa o Islã, mas nunca foi nem espartano, nem austero, nem pobre: sempre teve ares de dândi (inclusive na prisão, onde estava com um casaco de caxemira). "Vestir-se decentemente é uma questão de origem de classe, companheiro. Não é preciso renegar as origens de cada um", afirma.

Durante mais de 20 anos, passou incógnito de um país a outro, de Iêmen a Uganda, da Síria à Argélia, da Líbia de Gaddafi à Romênia de Ceausescu, até que foi preso numa madrugada de agosto de 1994 enquanto dormia num vilarejo nos arredores de Cartum (Sudão), vendido pelas autoridades sudanesas ao famoso super-espião francês Philippe Rondot. Desde então definha na prisão francesa, onde, segundo ele, "abunda a mediocridade".
Está condenado a prisão perpétua por assassinar a sangue frio num apartamento de Paris, em agosto de 1974, com três balas, depois de convidá-los para beber, dois inspetores da polícia francesa e um antigo companheiro terrorista libanês que, segundo Carlos, o havia traído. Aceitou falar com o "El País" por telefone desde a prisão.

El País: Por que você diz que há muita mediocridade na prisão?
Ramírez:
Porque há muitos analfabetos. As pessoas aqui não têm interesses intelectuais, é difícil sentar e comentar uma notícia. O interesse de muitos é simplesmente fumar droga e coisas assim.

El País: E você, o que faz?
Ramírez:
Trato de ajudar meus advogados e sigo as notícias o melhor que posso, nos canais de televisão que chegam até mim. Um deles é espanhol, Telemadrid, que é ruim, é claro: vi outro dia Fernando Silva Sande [ex-chefe dos Grapo], um delator, e fiquei triste. E também leio.

El País: Você sabe que pode morrer na prisão?
Ramírez:
A condenação perpétua não quer dizer nada. É um problema político.

El País: Suas ideias políticas mudaram?
Ramírez:
Ah, senhor! Aos 14 anos, em janeiro de 1964, eu entrei nas Juventudes Comunistas da Venezuela. E até hoje não mudei um fio de cabelo. Continuo sendo comunista. Não sou um tipo dogmático, estudei, conheci gente importante na direção de países comunistas. Continuo fiel aos princípios leninistas imanentes: sou um comunista convicto e militante.

El País: Continua defendendo a utilização das armas?
Ramírez:
Depende da conjuntura. Em situações determinadas. Como na Colômbia hoje em dia. Ou no Afeganistão: isso é legítimo.

El País: Eu falava de terrorismo.
Ramírez:
O que a respeito do terrorismo? Eu sempre fui contra o terrorismo. Quando bombardeiam o Afeganistão, isso sim é terrorismo.

El País: Eu me referia a você: foi considerado o terrorista mais procurado do mundo.
Ramírez:
Vou dizer uma coisa: eu fui condenado por assassinato culposo, não premeditado. Não por terrorismo. Ou seja, acusar-me de terrorismo é uma mentira, como me chamar de El Chacal.

El País: O que quer dizer?
Ramírez:
A polícia inglesa encontrou esse livro de Frederic Forsyth em cima da chaminé da casa de uma moça que diziam que era minha amiga e que tinha revólveres e coisas assim. Eu tenho o recorde de operações executadas pela resistência palestina. Não digo dirigidas ou planejadas, mas executadas. Em pessoa. Ninguém executou mais operações que eu. E estou orgulhoso disso. E me tratam como um chacal.

El País: Quantas são?
Ramírez:
Eu sei lá. São muitas, moço.

El País: Essas operações, como você as chama, derramavam sangue e faziam vítimas.
Ramírez:
Sim, é claro. Mas poucas, poucas vítimas inocentes: 10% das baixas. E 10% não é nada, meu irmão. Yassser Arafat falou na ONU e foi com um ramo de oliveira numa mão e um fusil na outra. Eu não tenho nada a acrescentar quanto a isso.

El País: Quando uma pessoa decide matar outra por uma ideia que considera justa?
Ramírez:
Como justa? E quantas pessoas mataram os espanhóis no Iraque? Quantos afegãos morrem diariamente? Quantos? Isso não o incomoda? Lutar contra isso é glorioso e heroico.

El País: Você não se arrepende de nada?
Ramírez:
O arrependimento é um conceito religioso. Eu não digo que nunca haja pecado. Mas na luta militante revolucionária, não. Se o cara é mulherengo, gosta de beber pinga, rum, vinho bom, e agor a que sou muçulmano, não deveria fazê-lo: de fato, não o faço porque estou preso.

El País: Como tudo começou? Com o exemplo de seu pai?
Ramírez:
Na Venezuela, eu era o responsável pela juventude comunista com 200 militantes sob minhas ordens. Meu pai não estava de acordo com a violência, era advogado, via a tomada do poder de outra maneira.

El País: Quando você decidiu tomar as armas?
Ramírez:
Ninguém decide isso, meu irmão, são as circunstâncias que decidem. Nesse momento, ou a pessoa fica para trás ou segue adiante. Aqueles que sentam num café e decidem fazer isso ou aquilo não têm futuro. As circunstâncias históricas que decidem.

El País: Mas qual foi este momento para você?
Ramírez:
em 1971, depois dos combates do Setembro Negro contra o Exército jordano, um general me disse: "Rapaz, precisamos de você no estrangeiro". Eu havia combatido contra os soldados jordanos, que, ouça, eram uns caras valentes, bons combatentes, com colhões, que acreditavam em seu rei, Hussein, que era um cara não como esses reizinhos de ópera, era um rei de pegar em armas, não era nenhum bobo. Assim me disseram que eu fosse para Londres e assim começaram as questões internacionais.

El País: E depois?
Ramírez:
Viajei muito. Mas isso não era nada novo para mim. Conheci praticamente todos os países comunistas.

El País: O que você pensava quando lia que era o terrorista mais procurado do mundo?
Ramírez:
Pois às vezes eu dava risada. Porque sabia que tinham boas fotos de mim e colocavam fotos toscas.

El País: Nunca duvidou ao ver que havia vítimas inocentes?
Ramírez:
Quando há operações com explosões, bombas, fogo, esse tipo de coisas, às vezes há gente que não tem nada a ver e passa por ali, eu já disse, é cerca de 10%.

El País: Numa entrevista ao jornal "Al Watan" em 1979, você reconhecia um conjunto de atentados...
Ramírez:
Essa entrevista fiz de boa fé, mas foi manipulada, cheia de erros.

El País: Então você não os assume?
Ramírez:
Veja, irmão, vou dizer uma questão: 90% das coisas pelas quais sou responsável executivo nunca são mencionadas.

El País: Por quê?
Ramírez:
Têm seus motivos. Todo será sabido no momento certo. Quando eu publicar minhas memórias. Entretanto, ainda é cedo. Eu as escrevi em novembro de 1992, em Amã, e fiz duas cópias datilografadas que enviei a duas pessoas que não se conhecem. Ainda não é o momento. Eu não vou me meter a ser sapo, que é como chamamos os delatores na Venezuela agora. Há chefes de Estado envolvidos, até na França.

El País: Em que participou?
Ramírez:
Homem, não vou delatar a mim mesmo. Se estivéssemos tomando um café ou uma bebida à beira da piscina, em Caracas, poderíamos falar de uma maneira mais livre, sem dúvida. Mas nessas condições, pode compreender...

El País: Você é acusado de ter trabalhado como mercenário, sobretudo na Romênia, com Ceausescu.
Ramírez:
Eu tinha carinho e respeito por Ceausescu. Era um pouco iluminado, um homem da montanha, que vinha de uma família muito pobre. Grande patriota, muito solidário. Recebeu-nos de uma maneira muito calorosa. Estávamos ali com todas as honras: cassa, meios para viajar, mas não recebemos um centavo deles. E afirmo: todos os atentados contra exilados romenos foram feitos pela polícia, enquanto Ceausescu ainda estava vivo. Porque, uma vez mercenários, que merda trabalhar para a Romênia, trabalharíamos para os EUA! Você acha que eu podia dizer aos meus companheiros: "Ouçam, vamos matar o professor ou o jornalista tal" porque Ceausescu está mandando? Eles teriam cuspido na minha cara. Nós não pedíamos dinheiro: o exigíamos. Os Estados pagavam em milhões de dólares, e eu tenho orgulho de ter desempenhado um papel fundamental nessa questão. E não só a Estados "amigos", entre aspas, mas sim a Estados inimigos: e pagavam. Os franceses nos pagaram cinco milhões de dólares, sim, quando eu estava em Argel, no ano de 1976, por um avião da Air France que levamos até Entebe, o aeroporto de Uganda. Todo mundo paga, irmão.

El País: Como se faz para sequestrar um avião?
Ramírez:
Eu nunca sequestrei aviões pessoalmente. Sou inocente, meu irmão. Em todo caso, não é uma questão técnica.

El País: Como o prenderam?
Ramírez:
Uma noite, depois de sofrer uma operação na virilha, numa localidade próxima do Nilo Azul, às duas da manhã, entrou um tenente da guarda sudanesa histérico acompanhado de um grupo de guardas armados chorando. Um deles disse: "Temos ordens, comandante". Não sabiam nem como prender minhas mãos com essas tiras de plástico que os franceses haviam dado. Eu que expliquei. Ainda assim, fizeram um trabalho mal feito. Colocaram-me um capuz e me levaram ao aeroporto. Rondot estava lá.

El País: Como Rondot o localizou?
Ramírez:
Rondot não me localizou. A segurança sudanesa informou à CIA. Os caras da CIA tiraram muitas fotos de nós várias vezes. Não demos importância porque estávamos num país amigo. Os sauditas pagaram com seus petrodólares ao governo de Cartum.

El País: O que você acha de Bin Laden?
Ramírez:
Há muitos filhos desses árabes que são dos mais corruptos: herdeiros, ricos que só vivem na sem-vergonhice e nas drogas. E este homem, filho de um árabe rico, é um idealista, fez a jihad. Eu tenho respeito para com essa gente.

El País: Ele idealizou e inspirou os atentados de 11 de setembro e 11 de março...
Ramírez:
São duas coisas diferentes.

El País: São dois atentados.
Ramírez:
Não misture as coisas. Para mim, o de 11 de março deu tristeza.

El País: E o de 11 de setembro não?
Ramírez:
No 11 de setembro eu caí de bunda, como se diz.

El País: Como?
Ramírez:
Um dia liguei a televisão e vi a torre, e logo o outro avião e a outra torre, e me sentei na cama da cela e disse Alah-akbar, foi um golpe extraordinário contra o imperialismo.

El País: Essas torres estavam cheias de pessoas inocentes...
Ramírez:
Só uma fração das pessoas que os americanos assassinaram no Oriente Médio!

El País: Foi o mesmo que pensavam os que fizeram os atentados contra os trens em Madri.
Ramírez:
Há uma diferença: as pessoas que estavam nos trens não tinham nada a ver com a agressão dos exércitos. Há outros lugares onde os atentados poderiam ter sido feitos e eliminado uma certa classe aristocrática, burguesa, sem matar tanta gente inocente que circulava por ali, incluindo vários muçulmanos. Tenho a sensação de que lhes faltava experiência...

El País: No julgamento em Paris, disse: "Até o criminoso mais abominável pode se converter. Exceto o caso extremo do monstro, todo mundo pode se corrigir".
Ramírez:
Eu disse isso?

El País: Sim. Referia-se a você mesmo?
Ramírez:
Não, eu não sou um monstro. Eu sou muito humano.

Tradução: Eloise De Vylder

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