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13/01/2010

"Em Rosarno só querem nos matar", diz morador de cidade italiana que sofre violência racista

El País
Miguel Mora Em Rosarno (Itália)
Centenas de imigrantes fogem da violência racista no sul da Itália. "Matamos sua fome e eles nos pagam destruindo nossa cidade. Que vão embora!", diz um morador.

Aonde irá Steven?

Steven Johnson, um liberiano de 26 anos, chegou à Europa em julho de 2008. Menos de dois anos depois, diz que estava melhor na África. "Aqui há sofrimento demais. É insuportável. Saí de meu país ainda menino, em 1994. Havia guerra e decidi ir para a Nigéria. Passei dois anos lá e depois fui para a Líbia. Ali passei mais dez anos. Sou cristão e ouvi falar que os italianos recebiam os refugiados políticos. Por isso vim para cá, para salvar minha vida. Cheguei em um barco a Lampedusa e me internaram durante seis meses em um centro de acolhimento em Crotone, na Calábria. Agora sei que ninguém me protege. Vivo como uma ovelha: durmo onde posso e como o que posso. Vim para Rosarno buscar trabalho há cinco dias, mas os rapazes do povoado me atacaram e me bateram. Agora preciso ir embora, mas não tenho ninguém; não tenho dinheiro. Agora sei que a Itália é um país racista e não quero mais ficar aqui. Mas não sei onde está minha família."

Johnson é um dos 2.000 trabalhadores temporários que viviam em condições de absoluta degradação na fábrica de azeite abandonada, chamada Opera Sila. Dos cinco dias que esteve aqui, só trabalhou um. Ganhou 25 euros colhendo tangerinas depois de trabalhar uma jornada de sol a sol. "Meu corpo inteiro dói. Tenho medo. Se não me matarem antes, creio que voltarei para a África. Faz muito tempo que saí de lá, mas não creio que esteja tão ruim quanto aqui."

Rosarno, uma cidade de 15 mil habitantes na Calábria [sul da Itália], cuja prefeitura foi dissolvida no ano passado por infiltração da Máfia, continua vivendo em meio a uma enorme tensão e a ataques racistas isolados. Centenas de imigrantes abandonaram no sábado o povoado em ônibus oferecidos pela Defesa Civil, depois de 48 horas de revolta e distúrbios.

Aterrorizados e sem saber para onde vão, os trabalhadores temporários na colheita da tangerina contam que não podem suportar o racismo e o sofrimento. "Não nos deixam trabalhar, e além disso nos atacam e só querem nos matar", diz Steve Johnson, um liberiano de 26 anos, enquanto prepara sua mochila e se dispõe a embarcar em um dos ônibus.

Os imigrantes que trabalham nesta próspera região da Calábria, dominada pela organização mafiosa 'Ndrangheta, viviam em uma antiga fábrica de azeite, em tendas de campanha individuais, colocadas uma ao lado da outra, sem água, sem luz, nem banheiro. Alguns dormiam em cisternas ao ar livre, escuras e estreitas, quase sem ventilação. Os temporários suportavam essas condições em troca de 25 euros por uma jornada completa.

Ao todo havia cerca de 2.500 homens, a maioria procedente da região subsaariana, e deviam ficar até o fim da temporada, em março. Alguns contam com autorização de residência, outros têm situação de refugiados políticos e muitos são clandestinos. No sábado de manhã, apesar da presença maciça da polícia e dos "carabinieri", os moradores de Rosarno continuaram atacando os que estavam escondidos nos campos. Destes, dez conseguiram fugir de uma casa isolada depois que um grupo de moradores a incendiou com gasolina, segundo explicou Laura Boldrini, porta-voz da agência da ONU para os Refugiados (Acnur) na Itália.

O padre Carmelo Ascone, "Dom Memé", pároco de Rosarno, explicou que os moradores do povoado não são racistas, "exceto alguns jovens cretinos e ignorantes". "É uma guerra de pobres contra pobres, porque aqui não há Estado. Aqui manda a 'Ndrangheta", diz Ascone.

A 100 metros da fábrica onde os imigrantes esperam para iniciar a fuga, um grupo de cerca de 60 moradores observa. "Matamos sua fome e eles nos pagam destruindo nossa cidade. Que vão para suas casas de uma vez, esses negros!", diz Gino Barreca, funcionário municipal. Seus companheiros estão armados de paus e ferros. Perto, na metade da estrada que leva à fábrica, duas caminhonetes da polícia impedem a passagem dos moradores. Um pouco mais adiante fica o inferno.

O outro dormitório dos explorados está no centro do povoado. Foi desocupado na noite de sexta-feira depois de uma jornada de guerrilha urbana que deixou um balanço de 40 feridos, três deles gravemente. No velho armazém de cítricos, fétido e abandonado, amontoavam-se 300 pessoas, dormindo quase sob a intempérie e dividindo dez banheiros químicos.

A beleza dos campos da Calábria se transformou em poucas horas no cenário de uma caçada. "A convivência agora não é possível", diz o padre Carmelo, "mas esses pobres desesperados voltarão. Têm fome e não sabem para onde ir." "Temos mais medo que fome", diz Petit Dennice, chefe de um grupo de trabalhadores que há duas semanas colhiam tangerinas. "Rosarno é a máfia", acrescenta. "Por isso vou para Nápoles." Mas em Nápoles também há máfia. "Sim, mas essa máfia é boa. Não viemos aqui para brigar."

Ferdinando e Massimo, dois jovens capatazes italianos, voltaram ao campo porque a crise os empurrou para o desemprego. Hoje são os únicos que trabalham. Com eles há um grupo de búlgaros, romenos e marroquinos. "Os africanos são boa gente, mas não querem se integrar", dizem os chefes. "Os búlgaros alugam uma casa por 200 euros e ficam para morar. Aqui não somos racistas, somos todos iguais", dizem. Mas os africanos ganham menos.

Pasquale Giovinazzo, um proprietário de terras que veio pagar suas dívidas com os temporários africanos, acredita que toda a culpa é da crise da agricultura. "Ganhamos por quilo de tangerina 0,20 euro, e é verdade que pagamos menos a eles, mas é porque trabalham menos e não têm o mesmo profissionalismo e a experiência dos outros."

A porta-voz da Acnur na Itália visitou os feridos. Conta que há três imigrantes hospitalizados, um deles a vítima que provocou a explosão de raiva de seus companheiros. "Ele tinha feito compras no supermercado quando alguns jovens do povoado dispararam em sua barriga com uma pistola de ar comprimido", explica Boldrini. Os outros dois receberam disparos nas pernas e um deles o impacto de mais de 50 chumbos.

Alguns imigrantes, que percorrem o país buscando o ganha-pão, abandonaram o povoado por seus próprios meios, de carro ou de trem. Com medo nos olhos, quatro rapazes de apenas 20 anos estão sentados na estação ferroviária de Rosarno, esperando o trem. São escoltados por vários policiais, mas ninguém pode afirmar que a partir de agora terão uma vida segura em outro lugar. No bar, o garçom diz a uma cigana: "A Itália para os italianos; quem não gostar que volte para casa".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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