UOL Notícias Internacional
 

13/01/2010

A comemoração do bicentenário das independências latino-americanas

El País
Miguel Ángel Bastenier
Começa a grande comemoração do bicentenário. Os 200 anos das primeiras declarações latino-americanas que hoje se assemelham, arredondando conceitos, a proclamações de independência, irromperão em 2010, com a Espanha como um boneco de tiro ao alvo e hóspede de honra no banco dos réus.

O calendário começa com a Venezuela, cujo presidente, Hugo Chávez, vocifera que não se deveria permitir que a Espanha se associasse aos atos patrióticos, como fará, no entanto, mas com a prudência de ser só uma acompanhante das festividades. Em 19 de abril se comemorará a destituição do governador espanhol Vicente Emparán pelo conselho municipal de Caracas; seguirá a Argentina com a constituição em 25 de maio da Junta Autônoma de Buenos Aires; em 20 de julho tocará à Colômbia, onde uma peleja conhecida como "a floreira de Llorente" acabou custando um vice-reinado; em 16 de setembro foi o padre mexicano Miguel Hidalgo y Costilla quem encabeçou um verdadeiro levante popular contra a monarquia hispânica; e no dia 18 a formação da Junta de Santiago do Chile completará a via crúcis espanhola, à espera de que em 2011 e até 2025 se estenda uma espessa representação simbólica de proclamações povoada de "bons" e "maus".

O que se declarava não era, apesar de tudo, a independência, e sim que diante da soberania cessante da Espanha, subjugada por Napoleão, os "criollos" [brancos nascidos nas colônias americanas] reivindicavam seu autogoverno, embora unicamente, entende-se, até que Fernando 7º recuperasse seu augusto trono. Cabe argumentar que uma declaração de ruptura com a Espanha não seria diretamente assuntível por aquelas repúblicas de proprietários em um mar de indigentes de outra cor, e seria preciso ver essa rebeldia como tática que ainda não ousava ser estratégia; mas também que a fórmula transacional permitia imaginar outro final, contanto que parte do "criollato" - que, sim, existiu - aceitasse uma soberania interna sem desligamento completo da metrópole, como argumentou o historiador equatoriano José Cañizares Esguerra, e sobretudo com a prudência das Cortes de Cádiz - que não existiu - para reconhecer em pé de igualdade o mundo hispano-americano. Mas essa solução certamente era moderna demais.

Os propósitos que animam os governantes latino-americanos são tão variados quanto sua procedência. A Colômbia do presidente Uribe, com muito criollo no poder, gostaria de celebrações aprazíveis sem condenados nem verdugos, mas alguns coléricos da esquerda já se encarregarão de falar em genocídio; e o mesmo caberia dizer do México, cuja direção, embora seja mais hispânica que o sepulcro do Cid, a mestiçagem do país e o conveniente que é recordar Hernán Cortés criarão tensões em todo o espectro político. E a Argentina, uma suposta Europa no cone sul, governada por uma diarquia de sobrenome Fernández - ou é Kirchner? -, dançará ao som que convenha para sobreviver a uma sociedade cada dia mais indisciplinada em sua proliferação de peronismos. Mas o maremoto é sobretudo caribenho ou andino.

O bolivariano Chávez concebe as comemorações como uma recuperação de tônus muscular diante das eleições legislativas de setembro, que segundo as pesquisas deveriam preocupá-lo. Já ocorreu algo parecido no começo do século 20, quando o ditador Juan Gómez se valeu do primeiro centenário para brindar-se de nacionalismo, mas a diferença está em que a Venezuela, embora tendo instituições de frágil octanagem e perdendo gás, não é hoje uma ditadura. Mas a grande crucificação vem da Bolívia. O presidente Evo Morales, índio aimara, apresenta emenda à totalidade: "Não houve colonização, mas invasão para roubar nossos recursos", disse e, para festejar, considera muito mais reivindicáveis algumas rebeliões indígenas do século 18 que o torpor (torpeza) com que La Paz enfocou a independência, mais preocupada em livrar-se de Buenos Aires que de Madri, razão pela qual não houve grito de independência até 1825.

O que será da Espanha neste "acompanhamento" votivo? Comemorar, financiar e não tomar qualquer iniciativa sem consensualizá-la com o México, Colômbia, Argentina, Peru e Chile; dialogar com Bolívia e Venezuela, porque com o Equador sob Rafael Correa, e apesar de seu bolivarianismo, não há problema. E explorar como a Espanha pode reconhecer sua responsabilidade, mas só conjuntamente com o criollo que foi braço executor de tanto abuso e crime contra o indígena e o escravo durante a colônia e na independência, porque os pecados do passado, como salienta o guatemalteco Severo Martínez Peláez em "La Patria del Criollo", não se esquecem; e a Espanha precisa recomeçar do zero.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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