UOL Notícias Internacional
 

14/01/2010

Por que Margaret Thatcher era tão "dama de ferro"

El País
Walter Oppenheimer Em Londres
Londres revela documentos oficiais que confirmam o caráter tirânico de Margaret Thatcher, seu racismo latente e seu cinismo

Por algum motivo a chamavam de Dama de Ferro. A forte personalidade da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher fica perfeitamente refletida nos documentos de seus primeiros dias em Downing Street, recém-divulgados pelos Arquivos Nacionais do Reino Unido ao completar-se 30 anos de sua classificação como secretos. As minutas sobre suas discussões orçamentárias com o ministro do Tesouro e chanceler do Exchequer (Receita) na época, Geoffrey Howe, suas primeiras cúpulas internacionais, seus comentários ácidos sobre o que considerava a excessiva prudência dos funcionários de Whitehall e seus primeiros choques com os políticos continentais daqueles anos confirmam seu forte caráter e sua determinação.

Traçam também um perfil menos gratificante sobre o racismo que impregnava boa parte de sua personalidade, confirmam sua fobia aos sindicatos e o papel do Estado na sociedade e revelam até que ponto o patriotismo e o nacionalismo dominavam seu pensamento político.

  • Shaun Curry/AFP - 30.dez.2009

    A ex-primeira ministra britânica Margaret Thatcher aparece em foto tirada em junho de 2009



Filha de um comerciante de Grantham (Lincolnshire, centro da Inglaterra), Thatcher conquistou a liderança do Partido Conservador em 1975, foi a primeira - e até agora a única - mulher eleita primeiro-ministro pelos britânicos e esteve em Downing Street desde 4 de maio de 1979 até 22 de novembro de 1990. Nesse longo período no poder, introduziu reformas econômicas profundas baseadas sempre no livre comércio e transformou a vida política britânica. Apesar de ser eleita por seus concidadãos como o primeiro-ministro britânico mais relevante da história, à frente de Winston Churchill, também foi uma figura que sempre escolheu o confronto ao pacto e que aplicou até as últimas consequências a base fundamental do pensamento tory: cada um é responsável por si mesmo e o Estado não existe para ajudar os indivíduos.

Com 84 anos completados em outubro, viúva, quase abandonada por seus dois filhos, Thatcher vive semi-reclusa em seu apartamento em Belgravia, no centro de Londres. Os médicos lhe aconselharam em 2002 que renunciasse a falar em público, depois de uma série de pequenas embolias. Sua filha Carol confirmou em 2008 que Thatcher começa a sofrer demência e que perdeu a memória em curto prazo.

  • Gianfranco Calcagno/EFE - 29.jun.2009

    A ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher na porta de sua residência no centro de Londres (Inglaterra). Thatcher quebrou um braço em um tombo em casa e passou três semanas internada

Em junho de 2009, Thatcher quebrou um braço em um tombo em sua casa e passou três semanas internada em um hospital. Em novembro, o ministro dos Transportes do Canadá, John Baird, quase provocou um conflito diplomático ao divulgar involuntariamente a notícia errada de que a ex-primeira-ministra tinha falecido. Grande admirador da política britânica, Baird tinha dado o nome Thatcher a seu gato, e quando este morreu enviou a seus amigos uma mensagem seca: "Thatcher morreu". A mensagem chegou aos ouvidos do primeiro-ministro canadense, Stephen Harper, que participava de um jantar de gala e que só se salvou do vexame de anunciar aos convidados a triste notícia porque seus assessores lhe pediram que esperasse a confirmação da morte por Londres.

Margaret Thatcher nunca quis que sua condição de mulher tivesse relevância política, como reflete o pânico que causou em Downing Street a informação de que o governo do Japão ia mobilizar um pequeno exército de 20 mulheres lutadoras de caratê para protegê-la durante a cúpula que os chefes de Estado e de governo das grandes potências econômicas realizariam em Tóquio no final de maio de 1979, poucas semanas depois de sua chegada ao poder.

As notícias sobre esses planos foram confirmadas pelos japoneses e os britânicos tiveram de explicar cortesmente ao governo japonês que, embora apreciasse o gesto, "a senhora Thatcher vai participar da cúpula como primeiro-ministro, e não como uma mulher, e está segura de que não precisa dessas senhoras; a reação da imprensa em particular seria inaceitável".

As minutas de seu primeiro encontro com o então presidente francês e na época presidente de turno da Comunidade Europeia, Valéry Giscard d'Estaing, em 5 de junho no Palácio do Eliseu, refletem uma Thatcher ardentemente europeísta naquele momento. Mas também revelam que já surgia a semente de sua posterior eurofobia e dão conta de sua determinação, já então, exatamente um mês depois de ganhar as eleições, a reduzir a contribuição britânica para os cofres europeus.

As minutas daquele encontro indicam que a primeira-ministra explicou a Giscard que haveria "uma mudança na política britânica em relação à Europa", depois da aberta hostilidade do governo trabalhista anterior sobre a integração europeia. "A primeira-ministra disse que era a líder de um partido comprometido com sua filosofia para a Europa, dedicado à ideia da Comunidade Europeia e determinado a seguir uma política de verdadeira cooperação. Nessa cooperação descansa o melhor interesse, tanto para a Europa como para o Reino Unido. Há evidentemente problemas particulares nos quais o Reino Unido terá de lutar por seus interesses, mas isso deverá ser feito no âmbito de um comprometido europeísmo", constata a nota.

O mais importante desses problemas era o fato de que o Reino Unido, que então representava 15,25% da riqueza comunitária, contribuía com 18% do orçamento europeu. E queria diminuir essa contribuição para reduzir os impostos na Grã-Bretanha. Giscard mostrou-se muito receptivo a esses argumentos e propôs que houvesse um debate sobre o assunto na iminente cúpula europeia que se realizaria em Estrasburgo, e que nesse debate a Comissão Europeia "estabelecesse os fatos e analisasse a situação". "Os fatos já ficaram estabelecidos: a comissão não deve trazer fatos, mas ideias", respondeu a Dama de Ferro. Quatro anos depois, Thatcher conseguiu o famoso "cheque britânico" que ainda hoje permite ao Reino Unido reduzir substancialmente sua contribuição aos cofres europeus.

A rudeza e o forte caráter da primeira-ministra se refletem nas anotações à margem e nos sublinhados com que anotava com um grosso marcador azul os papéis de trabalho que chegavam a sua mesa. "Não é suficientemente duro", anotou nas margens da primeira proposta de cortes orçamentários que lhe apresentou o chanceler do Exchequer. "A primeira-ministra está convencida de que há um desperdício enorme na maioria dos ministérios", salienta uma nota de um funcionário.

Sobre a proposta da reforma do funcionalismo público que lhe apresentou o responsável da época, lorde Soames, escreve: "Vaga demais" e decide que essa proposta nem sequer circulasse no governo porque quer que os cortes aumentem para 5% do gasto, em vez dos 3% que Soames propõe. Na sua opinião, deveriam ser demitidos 66 mil dos 566 mil funcionários administrativos e congeladas durante seis meses as contratações de novos funcionários. "Conteúdo totalmente insuficiente", opina sobre uma proposta de seu responsável pelo emprego. "Não", escreve com frequência nas margens, sublinhado várias vezes para que não passe despercebido. Ou "pouco demais", ou "isto não vai funcionar".

Seu caráter impetuoso se destaca em vários episódios relacionados à Irlanda do Norte. As notas de uma conversa que manteve em 23 de agosto de 1979 com o ministro britânico para a Irlanda do Norte, Humphrey Atkins, refletem sua indignação pela política de neutralidade adotada pelos EUA no conflito do Ulster. Thatcher proíbe que seu ministro se reúna com o governador de Nova York, Hugo Carey, porque este anunciou que pensa em visitar a República da Irlanda. E enfatiza que não acredita que o então presidente americano, Jimmy Carter, estivesse disposto a discutir com ela "a política americana em relação a sua população negra, por exemplo".

Seu enfado tem um duplo fundo: por um lado, acredita que o governo da Irlanda está protegendo implicitamente o terrorismo do IRA e despreza os argumentos de seu ministro de que quer convencer Dublim de que o terrorismo republicano prejudica igualmente ambos os países. Thatcher lhe responde que "não acredita, que não há evidências de hostilidade entre a República da Irlanda por um lado e o IRA pelo outro" e argumenta que a única forma de pressionar a Irlanda é a imposição de sanções contra os irlandeses residentes no Reino Unido. Thatcher chegou inclusive a propor que eles fossem privados do tradicional direito de voto nas eleições britânicas, o que nunca chegou a acontecer.

  • JOEL ROBINE/AFP

    Em foto tirada em julho de 1987, a ministra britânica Margaret Thatcher cumprimenta o presidente francês na época, François Mitterrand

Por trás da irritação com os EUA se escondia não só a neutralidade do governo, como a remessa de fundos privados para os republicanos através da poderosa colônia irlandesa nos EUA e a negativa de Carter a vender ao Reino Unido mais armas destinadas ao polêmico Royal Ulster Constabulary (RUC), a polícia da Irlanda do Norte, sempre alinhada do lado protestante no conflito irlandês. "Os americanos deveriam perceber que enquanto continuarem financiando o terrorismo serão responsáveis pela morte de cidadãos americanos [como ocorreu em um atentado no hotel Hilton em Belfast] e também de outros", queixa-se Thatcher.

Um documento relata uma conversa com Carter na Casa Branca em dezembro de 1979, na qual tentou convencê-lo a vender armas ao RUC. Segundo as anotações oficiais, "ela mesma manipulou as duas pistolas que o RUC usava habitualmente e não tinha nenhuma dúvida de que a americana Ruger era muito melhor".

O racismo latente no caráter de Thatcher também fica claro nos papéis agora desclassificados. Embora tenha acabado aceitando a acolhida no Reino Unido de 10 mil vietnamitas que fugiam do regime comunista, os famosos "boat people", os documentos refletem que se opôs firmemente a isso e que só a intervenção do ministro do Interior, William Whitelaw, e do chefe do Foreign Office, lorde Carrington, a fez mudar de opinião.

Thatcher argumentava que haveria "distúrbios na rua" se os vietnamitas recebessem moradias de proteção oficial em detrimento da população branca e admitiu que "colocaria muito menos objeções se se tratasse de refugiados da Rodésia, poloneses ou húngaros, porque seria muito mais fácil assimilá-los na sociedade britânica".

Quando Whitehall lhe explicou que havia recebido montanhas de cartas de simpatizantes conservadores favoráveis à chegada dos vietnamitas, Thatcher respondeu que os que haviam escrito essas cartas "deveriam ser convidados a aceitar um refugiado em sua casa". E chegou a propor ao primeiro-ministro da Austrália a compra conjunta de uma ilha na Indonésia ou nas Filipinas para instalar ali os vietnamitas. A ideia foi abandonada devido à forte oposição do primeiro-ministro de Cingapura, Lee Kuan Yew, que temia que isso pudesse acabar criando um Estado que fizesse concorrência à economia de sua própria ilha-Estado.

Outro documento revela seu cinismo. Uma carta de julho de 1978, quando ainda era líder da oposição, revela que Thatcher se opôs aos planos para publicar uma história da inteligência militar durante a Segunda Guerra Mundial que viesse a reconhecer a existência do MI5 e do MI6, os serviços secretos britânicos. "Dois mestres em direito me ensinaram uma regra muito boa: nunca admita nada a menos que não tenha outro remédio senão fazê-lo; e mesmo assim só se tiver razões específicas para isso e dentro de limites definidos." Até 1994, o Reino Unido não reconheceu a existência de seus serviços secretos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,45
    3,141
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,39
    64.684,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host