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14/01/2010

Espetáculo esportivo deve continuar, apesar dos atentados terroristas?

El País
Carlos Arribas
Em Madri

Uma história de tragédias

5 de setembro de 1972Palestinos do grupo Setembro Negro atacam a residência israelense na Vila Olímpica de Munique, Alemanha. Dezessete mortos: 11 israelenses, cinco palestinos, um policial alemão. Os jogos olímpicos continuaram.
29 de maio de 1985Morrem 39 pessoas, na maioria torcedores do Juventus, pisoteados nas arquibancadas do estádio de Heysel, em Bruxelas, antes da final da Copa da Europa contra o Liverpool. A partida foi jogada até o fim.
15 de abril de 198996 torcedores do Liverpool morrem empurrados contra as grades do estádio de Hillsborough, durante o jogo Liverpool-Nothingham. A partida foi suspensa no sétimo minuto.
27 de julho de 1996Dois mortos ao explodir uma bomba no Parque Olímpico de Atlanta, EUA. Os Jogos Olímpicos continuaram.
3 de março de 2009Ataque terrorista à equipe de críquete do Sri Lanka, em Lahore, onde iam jogar com o Paquistão. Sete mortos. A partida foi suspensa.
8 de janeiro de 2010Membros da guerrilha independentista Flec atacam em Cabinda o ônibus que transporta a seleção do Togo para a Copa da África de futebol. Morrem 3 pessoas. O Togo se retira da copa, que será jogada de todo modo.
"The show must go on" - o espetáculo deve continuar -, cantava o Queen quando todo mundo sabia que Freddie Mercury tinha poucos meses de vida. Eles invocavam um mantra mil vezes repetido no mundo do espetáculo, um slogan também gasto pelo uso no mundo do esporte desde que o presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI) na época, Avery Brundage, o colocou em órbita em setembro de 1972. "Os jogos devem continuar", proclamou Brundage durante os Jogos Olímpicos de Munique, assim que se soube que o grupo palestino Setembro Negro havia assassinado dois esportistas israelenses enquanto mantinha outros nove sequestrados em sua residência na Vila Olímpica.

O espetáculo deve continuar, argumentou-se para não suspender a final de Heysel, há quase 25 anos, apesar de 39 torcedores do Juventus terem acabado de morrer pisoteados nas arquibancadas. O espetáculo deve continuar, voltou a ouvir-se de mil bocas na semana passada, pouco depois que a guerrilha Flec atacou em Cabinda (Angola) o ônibus que transportava a seleção de futebol do Togo à Copa da África, matando três de seus membros.

Há alguns dias Samuel Eto'o, o atacante de Camarões, telefonou para seu amigo Adebayor, capitão da seleção do Togo. "O futebol está acima de tudo, inclusive da política", disse o ex-jogador do Barça. Adebayor o escutou em Lomé. Sua equipe havia se retirado. "Seria um erro continuar", disse o primeiro-ministro de Togo, Gilbert Houngbo. "Seria irresponsável fingir que não aconteceu nada e deixar o espetáculo seguir adiante."

Alimentam essa perseverança tenaz, essa obstinação que aparentemente se choca com o senso comum, com o devido respeito às vítimas da violência, necessidades práticas - como devolver às televisões, aos anunciantes, os valores já adiantados para o evento? Quem se encarregaria dos prejuízos? -, simplicidades sentimentais - a competição imediata como catarse - e políticas - como dar aos terroristas o gosto de reconhecer sua vitória inapelável suspendendo a competição contra a qual atentaram? - e sobretudo uma ilusão, o mito de que o esporte, de que o futebol, está acima do humano, é o único âmbito em que as leis da realidade ficam em suspenso, a normalidade da miséria é esquecida, se instauram a ficção da paz, a ilusão de uma trégua. É uma religião.

Quando a realidade real, em forma de rajada de metralhadora, penetra nesse recinto, no santuário da fé olímpica, futebolística, a única reação que cabe é a estupefata negação da realidade - mesmo que seja tão física quanto os seis mortos depois do ataque da Al Qaeda contra a equipe de críquete do Sri Lanka que se dirigia para o estádio de Lahore para jogar contra o Paquistão em março de 2009 -, a estranheza, a condenação que fecha o caminho da reflexão, a uma pergunta: na realidade acreditamos que o esporte está acima de uma realidade social da qual exatamente se alimenta, a qual precisamente utiliza?

Pouco depois de terminar a final de Heysel em Bruxelas, a Copa da Europa de 1985, na qual sua equipe, a Juve, derrotou o Liverpool por 1 a 0, Michel Platini, então apenas um jogador de futebol, declarou: "Alguma coisa dentro de mim morreu". Talvez fosse sua forma de se defender de tantas críticas que recebeu por comemorar como se nada tivesse acontecido - 39 mortos nas arquibancadas por uma avalanche - o gol, marcado de pênalti presenteado, que deu a vitória a sua Juve.

Há alguns anos, o então secretário-geral da Uefa, Gerhard Aigner, revelou que Platini foi dos que se opuseram à continuação da partida. Depois, de seu cargo de presidente da Uefa, Platini, que sempre afirmou que os jogadores tinham saltado para o campo sem conhecer o verdadeiro alcance da tragédia, matizou sua posição. "O presidente pediu aos jogadores que jogássemos, e creio que foi muito importante ter feito isso", disse. "Se não tivéssemos saído ao campo teria sido pior, tenho certeza. Se o público no estádio, os italianos, tivessem sabido que havia tantos mortos, teriam procurado vingar-se."

"O que aconteceu em Cabinda, obra de bandidos armados e dos que os protegem, foi de uma baixeza só comparável aos atentados de Munique em 1972", reagiu o Ministério das Relações Exteriores de Angola. "O fato é de uma covardia maior se pensarmos que se trata de um ataque a esportistas, que sempre estiveram imbuídos dos melhores valores humanos, alheios aos interesses de qualquer espécie."

Cabinda, a floresta de Mayombé, onde Lobo Antunes viu macacos com olhos humanos balançando-se nos ramos das mangueiras, são 800 quilômetros quadrados separados de Angola por uma cunha traçada pela régua e o compasso das metrópoles para permitir ao Congo belga uma saída para o mar e dividir o povo bakongo sob três bandeiras diferentes. Cabinda, herança do passado colonialista, da guerra fria, das guerras coloniais, disputada por tropas cubanas durante a guerra com Portugal, são as plataformas petrolíferas da Chevron no Atlântico, 60% da produção angolana, que já é superior à da Nigéria, território fechado aos visitantes, pavilhões fortificados para os trabalhadores do petróleo, 40 mil habitantes, 10 mil soldados do exército angolano, uma guerrilha, a Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (Flec).

Cabinda é um estádio flamejante erguido como um monumento ao absurdo por uma construtora de Xangai, um gramado que se solta ao menor sopro da capa arenosa sobre a qual foi fixado e menos de mil espectadores na primeira partida, Costa do Marfim, 0; Burquina Fasso, 0. Angola, país classificado em 161º lugar dos 173 no ranking de desenvolvimento humano da ONU, país sem escolas, quase sem hospitais, gastou US$ 1 bilhão na Copa da África de futebol. Seguindo a tradição de todos os países que decidem organizar um grande evento esportivo, o regime de Luanda deseja que a copa seja uma vitrine de sua grandeza, de seu poder, uma mostra de sua capacidade.

A escolha de Cabinda como uma das quatro sedes, a cidade na qual o Togo deveria jogar, exatamente, e por isso passavam por ali de ônibus, também não foi casual. Foi uma escolha política, um símbolo, uma sede decidida por Luanda para mostrar ao mundo sua soberania sobre um enclave muito rico e muito disputado. Símbolo contra símbolo: a vitrine da Copa da África magnífica dá a conhecer a todo o mundo as ações da guerrilha Flec, mais ativa nos dois últimos meses, a verdadeira situação de Cabinda, o enclave esquecido.

Tudo graças ao futebol, que não é uma religião nas nuvens que se alimenta do ar. Toda a realidade social, incluindo a violência, faz parte de sua essência.

O francês Jean Marie Brohm, promotor da crítica radical ao esporte, denunciou "a mistificação ideológica do esporte", o falso conceito de que a magia da competição transcende e domina os latejos da vida humana na vida real. O fez depois dos acontecimentos em Munique 72, do ataque do Setembro Negro e da frustrada tentativa policial de resgate, que acabou com 17 mortos, 11 deles atletas olímpicos israelenses, e sobretudo da resposta do presidente do COI, Avery Brundage, de seu "Os jogos devem continuar", de como pressionou para que continuassem as competições durante as longas horas da tomada de reféns - só suspendeu temporariamente os jogos no dia seguinte, 6 de setembro, para celebrar a grande homenagem fúnebre no estádio com as bandeiras a meio pau -, de como, em sua homenagem, foi capaz de equiparar o ataque terrorista com a prévia expulsão da racista Rodésia (atual Zimbábue) de Ian Smith pela pressão dos países africanos. "Sofremos dois selvagens ataques políticos", clamou Brundage. "Perdemos a batalha da Rodésia contra a simples pressão política e sofremos a operação da guerrilha que cobrou 17 vidas."

Angola foi mais criticada nestes dias, no entanto, mais por sua incapacidade de garantir a segurança do que por sua aposta arriscada de montar uma sede em Cabinda. "Sabiam das ameaças terroristas e não souberam enfrentá-las", disse o presidente da Copa do Mundo de Futebol da África do Sul, Danny Jordaan, rápido na hora de se distanciar de seus vizinhos. Os gastos com segurança comem cada vez mais o orçamento geral dos eventos esportivos. Nos Jogos de Salt Lake City em 2002 (EUA), realizados à sombra e sob a psicose dos atentados terroristas de 11 de Setembro, chegaram a um quarto dos gastos totais. Tudo será pouco para conseguir que o espetáculo nunca pare.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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