UOL Notícias Internacional
 

15/01/2010

Porto Príncipe se tinge de sangue

El País
Iban Campo
Em Santo Domingo (República Dominicana)
Há dezenas de milhares de mortos na capital haitiana. O corte das estradas dificulta a ajuda. O terremoto foi o pior em 200 anos

Morte, devastação e caos. É a maneira mais direta e cruel de descrever no que se transformou Porto Príncipe, a capital do Haiti, em consequência do poderoso terremoto que assolou o país mais pobre da América e que deixou dezenas de milhares de mortos. Depois da poeira levantada pelos desmoronamentos, os primeiros raios de sol, na quarta-feira, confirmaram os piores prognósticos do trágico entardecer de terça.

Um desastre atrás do outro

2009O pior terremoto. O abalo que sacudiu o Haiti, de magnitude 7.0 na escala Richter, é o mais forte registrado no país nos últimos dois séculos e o pior desde 1946 na ilha que divide com a República Dominicana
2008Quatro furacões. A passagem de Ike, Hanna, Gustav e Fay em menos de um mês provocou a morte de 793 pessoas, 466 só na cidade de Gonaives, a mais atingida, e deixou mais de 850 mil desalojados
2004A tempestade Jeanne. No ano em que uma sangrenta revolta obrigou o presidente Jean Bertrand Aristide a deixar o país e exilar-se na África do Sul, às destruições dos combates se somaram as deixadas pela tempestade tropical Jeanne, que causou mais de 3.000 mortes
  • Fonte: El País
Com uma magnitude de 7 na escala Richter, o tremor de terra mais forte nos 200 anos da história do país não respeitou nenhum edifício, por mais autoridade que se alojasse nele. O epicentro, a pouco mais de 10 km de profundidade, situado a 15 km a sudoeste de Porto Príncipe, destruiu a capital haitiana e calcula-se que tenha afetado 3 milhões dos 4 milhões de habitantes da área metropolitana.

Entre os escombros e sobre o asfalto das ruas, a morte coberta de sangue, coberta pouco a pouco com lençóis brancos pelos sobreviventes que procuram familiares, que pedem ajuda e rezam por seu destino. Enquanto isso, gritos brotam das ruínas, de pessoas presas entre os escombros que pedem desesperadamente para serem resgatadas.

As autoridades haitianas, em um primeiro cálculo fornecido pelo primeiro-ministro Jean Max Bellerive, chegaram a falar em "centenas de milhares de mortos". Horas mais tarde, o presidente René Preval falou em dezenas de milhares. "Não sei, até agora escutei que talvez haja 50 mil ... 30 mil mortos", disse a um jornalista da "CNN".

Pouco antes, o presidente da até então pobre e desmatada, e agora também destruída nação, contou em declarações ao "Miami Herald" como havia caminhado entre cadáveres. "O que contemplei é algo inimaginável. O Parlamento veio abaixo, o prédio da Fazenda veio abaixo, as escolas desmoronaram, os hospitais caíram". A milhares de quilômetros do Haiti, em seu exílio sul-africano, o ex-mandatário Jean Bertrand Aristide qualificou a situação como "uma tragédia que desafia a compreensão".

Não há comida, água, eletricidade, transporte e remédios. Os serviços médicos, já escassos e precários, não dão conta. Os membros da força de paz no Haiti, dependentes da ONU, tentavam na quarta-feira organizar a situação enquanto pensavam em seus companheiros esmagados pelos muros do edifício em que trabalhavam. Entre eles, seu chefe, o tunisiano Hedi Annabi, cuja morte foi confirmada pelo presidente haitiano. A sede da organização foi totalmente destruída. Cerca de cem funcionários da ONU continuavam desaparecidos ontem à noite. Foi confirmada a morte de duas dezenas de capacetes-azuis.

Os religiosos também não se livraram da catástrofe. O chefe da Igreja Católica, o arcebispo Serge Miot, estava entre as vítimas. A catedral de Porto Príncipe também ficou entre os edifícios derrubados pelo sismo.

Diante da falta de telecomunicações habituais, o satélite se transformou na única ferramenta de contato possível. Assim, graças à internet via satélite, o ministro-conselheiro da embaixada dominicana no Haiti, Pastor Vásquez, conseguiu dizer, perguntado sobre como chegar até sua sede, uma das poucas que suportaram o choque das ondas telúricas: "Isto é um caos, um grande caos. Recomendo que tentem arrumar um motorista para trazê-los".

Um país devastado

  • Caio Guatelli/Folha Imagem

    Vista aérea da cidade de Porto Principe mostra região atingida por terremoto de 7 graus



E contou o mesmo que a correspondente da Univisión em Santo Domingo, Onysela Valdez, deslocada por algumas horas graças ao exército dominicano, ao voltar ao país vizinho para transmitir sua crônica: "Você vai caminhando e se choca com pedras, vê corpos sobre o asfalto, pessoas com membros arrebentados, cobertas de poeira, que não sabem aonde ir nem o que fazer". Ela descreveu o panorama como aterrorizante.

A dificuldade para mover-se pela estrada tornou impossível durante quase todo o dia transportar ajuda por terra. Muitas das vias permanecem bloqueadas pelos escombros. Outras, rachadas de lado a lado pelo efeito devastador do terremoto. Em Santo Domingo as autoridades consulares haitianas agradeciam a solidariedade do povo dominicano e pediam escavadeiras de escombros como um dos utensílios de maior necessidade. Descartavam-se roupas, mas havia urgência de alimentos enlatados, água potável e remédios.

Destruição no Haiti

  • Imagens aéreas mostram a destruição em Porto Príncipe, capital do Haiti, depois do terremoto de sete graus na escala Richter que atingiu o país

E de tudo isso e mais também precisavam em uma pequena cidade chamada Jerald Batai, na estrada para Porto Príncipe desde o sudoeste da República Dominicana, onde conseguiu chegar a jornalista da Noticias SIN Rosa Encarnación. "Vi dezenas de pessoas gritando nas ruas, com os braços arrebentados ou amputados, pés desprendidos ou o crânio aberto." Não foi a única coisa. "Vi duas escolas desmoronadas com dezenas de estudantes mortos dentro. Mortos em calçadas perto de pessoas feridas que clamavam por ajuda." E no hospital ela narrou que as pessoas se amontoavam em todo o edifício e seu exterior. "Dezenas de feridos esperavam uma ajuda ainda inexistente."

O epicentro do terremoto se encontra a apenas 15 km de Porto Príncipe. Cerca de 4 milhões de pessoas vivem na capital e nos arredores. Delas, cerca de 3 milhões foram afetadas pelo abalo - mortas, feridas ou que perderam tudo. Durante a noite de terça para quarta-feira, milhares de pessoas dormiram ao relento em plena rua, porque suas casas foram reduzidas a nada ou porque temiam repetições do terremoto (calcula-se que foram 28 ao todo). O pânico se apoderou do Haiti.

Com as estruturas do governo danificadas pelo abalo e a sede da ONU devastada, as testemunhas contam que não se viam sinais na quarta-feira de que os esforços para resgatar os soterrados estivessem organizados. "Há gente demais que precisa de ajuda... faltam equipamentos, sacos para colocar os mortos", afirmou para a agência Reuters o porta-voz haitiano da Cruz Vermelha, Pericles Jean-Baptiste.

Milhares de pessoas vagavam na quarta-feira, atônitas e cobertas de pó, pelas ruas de Porto Príncipe. "Estão nas ruas, sentadas, caminhando, sem lugar para onde ir", explicou Rachmani Domersant, um dos trabalhadores da ONG Comida para os Pobres.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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