UOL Notícias Internacional
 

15/01/2010

Crise reduz renda e qualidade de vida dos imigrantes na Espanha

El País
Daniel Borasteros
Em Madri
36% dos estrangeiros convivem com cinco ou mais pessoas; 14% já obtiveram a nacionalidade espanhola

As condições de vida de mais de 1 milhão de imigrantes que vivem na Comunidade de Madri (1.113.551 registrados) se deterioraram no último ano até quase despencar. A pesquisa anual do Conselho de Imigração, apresentada na quarta-feira por seu titular, Javier Fernández-Lasquetty, faz uma radiografia da fatura que a crise cobrou dos estrangeiros nos últimos 12 meses: a perda do emprego, o aumento da temporalidade no trabalho e salários mais baixos - até 68,4% ganham menos de 1.000 euros - castigaram com muita intensidade. O número de desempregados imigrantes em Madri alcança 21,17%, contra 12,46% de espanhóis, segundo a última Pesquisa de População Ativa. O desemprego duplica entre os homens, passando de 26,1% para 13,12% só em um ano.

O declínio do bem-estar se traduz, entre outras coisas, em uma considerável superpopulação nas casas (até 10% vivem com mais de sete pessoas), em um retrocesso no uso dos serviços bancários (menos contas correntes e menos cartões de crédito) e em uma maior precariedade laboral e salários mais baixos (13,1% ganham menos de 600 euros mensais e a renda média caiu de 1.000 para 900 euros). A amostragem, elaborada pela Fundação de Estudos de Economia Aplicada, foi realizada entre outubro e novembro de 2009. Foram entrevistadas 3.283 pessoas de dez nacionalidades.

  • Desiree Martin/AFP - 20.abr.2007

    Em foto de 2006, imigrantes africanos chegam à costa espanhola, em Los Cristianos (Espanha). Fuga de profissionais qualificados do continente africano gera ameaça, a maioria dos imigrantes africanos possuem diploma universitário

O uso das contas bancárias diminuiu de 83,6% para 74,5% e também a posse de cartões de crédito, de 74,4% para 67,9%. Uma situação que deriva do fato de que os imigrantes, para montar seus negócios, usam suas próprias poupanças (mais de 41%) do que empréstimos (13%). Também o favorece um contexto em que algumas corporações financeiras, como o BBVA, encerraram seus serviços específicos para estrangeiros (criaram divisões em março de 2007, que fecharam no início do ano passado). Essas entidades afirmam que ainda não estudaram os números que afetam os imigrantes.

O declínio do bem-estar dos imigrantes significa que cada vez menos têm domicílios de sua propriedade e um aumento de pessoas sem contrato de trabalho (já chegam a 22% do total). E outros números mais sutis. Por exemplo, que o número de imigrantes com filhos diminuiu de 54% para 50%, dado atribuído ao fato de que a conjuntura não permite trazer os filhos. Ou que os lares com internet baixaram de 50% para 44%.

O dado da internet é sintomático, já que essa ferramenta é uma janela fundamental de comunicação com seus países de origem. Entre outras coisas, pelos serviços de telefonia através da rede, como o programa Skype, que barateia muito as ligações internacionais.

Também diminuíram, embora ligeiramente, os casais mistos entre estrangeiros e espanhóis. Se no ano passado eram 8% do total, hoje são 7%. Os nacionalizados, porém, aumentam um ponto, para 14%, devido à conclusão dos trâmites, que duram em média três anos.

"Não vamos negar que agora nossos compatriotas vivem mais amontoados para baratear os custos, é normal viver muitos em cada domicílio", analisa Corina Meza, presidente da Associação Guarani de paraguaios em Madri, uma das poucas nacionalidades que continuam chegando à Espanha. E assim proliferam nas paradas de ônibus os cartazes multilíngues oferecendo quartos. Por exemplo, o de Silvia, equatoriana desempregada que tem dois inquilinos que a ajudam a pagar sua hipoteca em Carabanchel.

"É claro que no último ano notou-se um aumento tremendo nas buscas de emprego e nas ajudas", continua Meza. Uma percepção compartilhada pelas comunidades de romenos e por sua própria embaixada. "A impressão subjetiva é de que muitos estão indo embora porque abandonam as bolsas de trabalho e as ajudas de igrejas e associações", comentam.

Pondo a lupa sobre os resultados laborais, constata-se que trabalham por conta alheia a imensa maioria dos imigrantes, 89,9%, e por conta própria só 9,3%. Uma cifra que se mantém estável.

Apenas 28% dos imigrantes ganham mais de 1.000 euros por mês. Em 2008, chegavam a 36,4%. Para o equatoriano Miguel, chefe de uma equipe de operários, isso se deve à falta de horas extras no setor da construção, onde os salários bases tinham muitos acréscimos. "Embora se trabalhe o mesmo, não se ganha igual", conta Miguel. Também baixou o preço dos peões, e agora é possível encontrar mãos dispostas a trabalhar por 20 euros por uma jornada de mais de dez horas.

Fernández-Lasquetty, que esmiuçou os números para a imprensa, atribuiu os dados à "catastrófica" gestão econômica do governo de José Luis Rodríguez Zapatero e a sua abordagem da crise. O conselheiro, que se felicitou porque a convivência não se deteriorou nos dois anos de dificuldades econômicas, também comentou a decisão do prefeito de Vic de dificultar o registro dos imigrantes sem documentação, com a qual se mostrou absolutamente em desacordo e que qualificou de "ilegal".

Exatamente, a secretária de Estado de Imigração, Consuelo Rumí, afirmou na quarta-feira que o índice de desemprego dos imigrantes, que na Espanha toda chega a 28%, "tocou o teto e desde o primeiro trimestre de 2009 a situação está estagnada".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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