UOL Notícias Internacional
 

16/01/2010

EL PAÍS entrevista Eduardo Frei, o candidato de Michelle Bachelet no Chile

El País
J. Marirrodriga e M. Délano
Em Santiago do Chile
Satisfeito e muito confiante depois de sua espetacular recuperação nas pesquisas, Eduardo Frei (nascido em Santiago do Chile em 1942) considera que seu rival, Sebastián Piñera, por ser um homem de negócios, terá conflitos de interesse caso chegue à presidência. O ex-presidente chileno, que confia em voltar a ocupar o Palácio de La Moneda depois das eleições de amanhã, recebe "El País" em sua residência em Santiago, onde afirma que vai abolir a Lei de Anistia, que deixa imunes crimes da ditadura militar.
  • AP Photo/Claudio Cruz

    Filho do ex-presidente Eduardo Frei Montalva (1964-1970), o engenheiro Eduardo Frei Ruiz Tagle, 68, nasceu em Santiago. Seguindo o caminho do pai, presidiu o Chile entre 1994 e 2000, após ser eleito com 57,9% dos votos válidos pela coligação Concertación, que está no comando do país há 20 anos, desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet


El País: A Concertação continua tendo sentido, 20 anos depois, com a democracia assentada e Pinochet morto?
Eduardo Frei:
O Chile teve historicamente um movimento de centro-esquerda muito forte. E um dos grandes êxitos da Concertação foi saber construir esse movimento. Sim, tem de ser modernizada e tornar-se mais transparente. Mas sobretudo tem de fazer uma renovação geracional. Assim como a presidente Bachelet implantou a paridade de gêneros, nós temos de fazer um processo especial para incorporar pessoas de 30, 35 e 40 anos para que assumam responsabilidades.

El País: E o senhor, que já ocupou o cargo, por que volta?
Frei:
Tomei a decisão em um momento em que vi uma coalizão cansada, muitas vezes desanimada, acreditando que ia perder. Fiz isso na campanha municipal, fui nomeado e a disputei porque acredito nela.

El País: Depois que o candidato de esquerda Marco Enríquez-Ominami obteve 20% no primeiro turno, o senhor disse que havia compreendido a mensagem dos cidadãos. Qual é essa mensagem?
Frei:
Ha uma reclamação muito forte contra o sistema político. Não só de pessoas, mas também da forma como se trabalha, para ter uma renovação de verdade, com uma política muito mais transparente, a começar pelo sistema de eleição binominal, que incomoda todo mundo. Além disso, as pessoas, especialmente nas classes médias e nos setores marginalizados, sentem que o mercado regula tudo e não é capaz de resolver seus problemas.

El País: Seu rival, Sebastián Piñera, é um conhecido homem de negócios. Terá conflitos de interesse se ganhar?
Frei:
As pessoas entenderam o que se define nesta eleição: duas maneiras de levar o país. E, como diz a canção, "não é igual". Somos muito diferentes: em temas trabalhistas, na relação entre o dinheiro e a política ou em questões de direitos humanos. Sobre o conflito de interesse, ficou claríssimo. Por exemplo, em março se discutirá a televisão digital. Não sei como se pode resolver isso. A televisão digital abre muitas possibilidade para a televisão pública, regional, educativa, cultural. Mas ele é o dono de um canal de televisão. Não tenho nenhuma confiança em como será resolvida a questão, se se atuar sobre a base do mercado.

El País: O período de mandato é muito curto, quatro anos sem reeleição. Isso sobrecarrega qualquer programa de governo?
Frei:
Eu sempre disse que não permite desenvolver políticas de longo prazo, mas a vantagem que tivermos é que a Concertação está há 20 anos aplicando as mesmas políticas. Por exemplo, o plano de hospitais de Ricardo Lagos não teria sido possível sem essa continuidade anterior e posterior. Mas há muitas coisas por fazer. Os cidadãos se sentem indefesos diante do setor privado e do público, e isso afeta principalmente as classes médias. Somos um país que se modernizou em muitos campos, mas não na política. Continuamos com um sistema de eleição binominal que destrói a democracia. Essa mudança é fundamental.

El País: Há quatro anos a então presidente eleita Michelle Bachelet disse a estes mesmos jornalistas que ia mudar o sistema binominal. O senhor fará isso?
Frei:
A direita se opôs a mudá-lo cada vez que propusemos. Se não há vontade para mudar, será preciso buscar outros caminhos e modificar a forma de reeleição de um parlamentar, modificar a forma de eleição das autoridades dos partidos. Se continuar o sistema binominal, o que se está desprestigiando é a autoridade, o poder e o sistema político.

El País: Piñera disse que não pensa em modificar as linhas gerais do governo que o Chile teve até agora.
Frei:
Sim, mas diz isso nos últimos dias. Quando a presidente Bachelet propôs importantes reformas, a direita a acusou de populista e de querer destruir o país. Nunca apoiaram uma reforma trabalhista em 20 anos e apresentaram permanentemente projetos de lei de "ponto final".

El País: O senhor pedirá para abolir a lei de anistia?
Frei:
Sim, estou comprometido com isso. O Chile fez uma tremenda contribuição ao processo de reconciliação nacional, com longos anos de sacrifício, com muito esforço para conhecer os casos através dos tribunais. É preciso continuar e manter isso. Foi em meu governo que se deteve e processou o ex-chefe da polícia secreta (general Manuel Contreras). Não conheço outro caso semelhante na América Latina.

El País: Seu pai, o ex-presidente Eduardo Frei Montalva, foi envenenado pela ditadura de Pinochet. Essa experiência o fez ver de outra maneira o tema dos direitos humanos?
Frei:
O tema geral dos direitos humanos, não. Desde o final de 1974 começamos a conhecer as histórias (de violações dos direitos humanos). Mas o Chile não interiorizou suficientemente que aqui houve uma organização para fabricar produtos químicos, botulínicos, para eliminar pessoas. Muito poucas ditaduras, pelo menos na América Latina, fizeram isso.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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