UOL Notícias Internacional
 

17/01/2010

Últimas iniciativas da Al Qaeda mostram as limitações da inteligência dos EUA

El País
Antonio Caño
Em Washington (EUA)
A CIA, ao contrário de sua lenda, é uma instituição pesada e burocrática. Incapaz de competir pelos melhores cérebros de cada safra universitária, tem de se conformar geralmente com funcionários disciplinados que ascendem através de anos de serviço e buscam uma vida sem sobressaltos. Para muitos deles, ir para o escritório de manhã entre a vegetação paradisíaca de Langley, no norte da Virgínia, e dirigir de seu computador o bombardeio de um "drone" (aviões teleguiados) sobre uma aldeia do Paquistão é tão rotineiro quanto despachar a correspondência.

O prolongamento da guerra contra o terrorismo, porém, está apresentando maiores exigências. Os voluntários para atuar em zonas de combate escasseiam, os conhecedores do terreno e do idioma do inimigo ainda se contam nos dedos de uma das mãos, e a CIA teve de recorrer a rígidos turnos que obrigam praticamente todos os seus funcionários a passar um tempo em território hostil.

Na maioria dos casos esses turnos são de um ano, um prazo pensado para que os agentes não passem tempo demais longe de suas famílias, mas insuficiente para que se formem convenientemente nos costumes daqueles que combatem. Somente os jovens disputam missões que, além de coragem, exigem a sagacidade que só os anos conferem. Os verdadeiros especialistas preferem fazer análises na paz de seus escritórios.

Essas limitações não eram tão evidentes na época dourada da CIA, durante a guerra fria, quando seus agentes competiam com rivais ainda mais burocratizados e cínicos que eles, os espiões da KGB. Mas hoje, quando enfrentou jovens sugestionados como o nigeriano Umar Faruk Abdulmutallab, ou ilustrados fanáticos como Humam Jalil Abu Mulal al Balawi, o agente duplo jordaniano que matou sete funcionários na base de Khost, no Afeganistão, as carências da CIA têm consequências drásticas.

E não é um problema só da CIA. As 16 agências civis e militares encarregadas da espionagem dos EUA sofrem em alguma medida enormes dificuldades para responder aos desafios representados pela Al Qaeda e suas múltiplas manifestações. Seu treinamento é tão precário e sua adaptação ao meio tão rala que, como afirma Reuel Marc Gerecht, um antigo espião e especialista no assunto, "sem a ajuda da Blackwater [a companhia de segurança privada hoje rebatizada de Xe], a atividade da CIA no Afeganistão provavelmente estaria paralisada".

Entre os sete mortos em Khost, dois eram de fato funcionários da Xe, que, liberados da escravidão do regulamento e estimulados pela atração do dinheiro, preenchem algumas das muitas lacunas da espionagem americana no Afeganistão e em outras frentes desta guerra. Os comandos militares queixaram-se oficialmente de que suas forças em campo carecem da informação necessária para fazer seu trabalho e alertaram que nestas condições o inimigo se torna muito difícil.

Os três fracassos colhidos pelos serviços de inteligência nos últimos dois meses acenderam todos os sinais de alarme. No caso de Nidal Malik Hasan, o oficial médico do exército que em novembro cometeu uma chacina em Fort Hood, no Texas, o FBI havia detectado 18 e-mails trocados com o religioso radical da Al Qaeda no Iêmen Anwar al-Awlaki, que faziam suspeitar claramente de seus planos, mas os enviou para a segurança militar com um código diferente do que esta usa para os assuntos urgentes. Ninguém agiu a respeito.

Sobre o avião de Detroit, a Agência Nacional de Segurança (NSA na sigla em inglês) havia interceptado comunicações da base da Al Qaeda no Iêmen sobre o planejamento de um atentado com o envolvimento de um nigeriano. A CIA, por sua vez, havia entrevistado na embaixada americana em Lagos o pai de Abdulmutallab sobre a denúncia que este havia feito sobre a ligação de seu filho com o radicalismo islâmico. As duas agências remeteram suas respectivas informações a seus superiores, para ficar armazenadas entre pilhas de dados avulsos que a espionagem coleta todos os dias.

A concorrência infantil entre os departamentos e o escasso zelo dos responsáveis impedem que cada órgão faça pouco mais do que exige o protocolo. E como o protocolo não obriga a cotejar os dados fornecidos pelo pai de Abdulmutallab com o arquivo de vistos do Departamento de Estado não foi possível incluí-lo na lista de pessoas vetadas para entrar no país. Contribuindo para o desastre, o Departamento de Estado reconheceu que não poderia encontrar o nome do suspeito em sua documentação devido a um erro na digitação do sobrenome.

Em 2004 foi criado o Centro Nacional de Contraterrorismo, exatamente com o objetivo de coordenar a atividade de todos os departamentos e evitar erros como esses. Seu atual diretor, Michael Leiter, que certamente estava de férias no momento do atentado frustrado e demorou dois dias para se reintegrar ao posto, teve de escutar o presidente Barack Obama dizer que "o sistema falhou sistematicamente".

A consequência mais dramática desses erros foi a da base de Khost, provavelmente o pior golpe contra a CIA em toda a sua história. Embora talvez neste caso, além do erro evidente que representa permitir que um agente duplo se reúna ao mesmo tempo com sete de seus melhores funcionários - sem dúvida motivado pela inexperiência e o desconhecimento do meio -, deve-se mencionar também o mérito da Al Qaeda. A organização terrorista soube planejar uma ação que exigiu meses de trabalho paciente e minucioso para burlar a vigilância não só da CIA, mas também do serviço secreto jordaniano (GID), muito mais hábil no manejo do terreno.

A Jordânia era até agora, por esse motivo, um aliado imprescindível da espionagem americana, que se alimenta de colaborações como essa para compensar suas limitações na região. Exatamente na sexta-feira esteve em Washington o ministro das Relações Exteriores da Jordânia, Nasser Judeh, para recompor essa aliança. "Se informação é poder, compartilhar a informação é ainda mais poder", disse a secretária de Estado, Hillary Clinton.

Mas algumas das desvantagens dos serviços americanos em relação a seus inimigos não são solucionadas com mais colaboração ou mais reformas. A burocratização, a pressão por resultados e o relativismo das convicções são, como as férias de Leiter e do próprio Obama, consequências naturais das sociedades desenvolvidas, que além disso pagam o preço da ansiedade provocada pelos meios de comunicação.

Sem ter chegado sequer a explodir o avião, o jovem Abdulmutallab semeou o pânico entre os americanos. Como disse o veterano jornalista Ted Koppel, "o fato pode ser descrito como um sucesso absoluto da Al Qaeda".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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