UOL Notícias Internacional
 

18/01/2010

Médico relata como foi fazer primeira cirurgia de mudança de sexo de um menor na Espanha

El País
Mónica L. Ferrado
Em Barcelona (Espanha)
Em 1999, o cirurgião plástico e reconstrutivo Iván Mañero decidiu enfrentar um desafio: especializar-se em cirurgia de mudança de sexo. Na Espanha não havia onde estudar a matéria, por isso teve de passar longos períodos na Holanda, no Brasil, no Reino Unido e nos EUA. "Os colegas me chamaram de louco, diziam que eu arranjaria mais problemas que qualquer outra coisa", explica. No início foi assim.

Ao voltar, instalou sua clínica privada em um edifício na Rambla de Cataluña, em Barcelona. Foi à primeira reunião de moradores para se apresentar cordialmente. Um deles começou a gritar que era o demônio. Também começou a notar comentários entre seus colegas cirurgiões plásticos.

Felizmente as coisas mudaram, e muito. Hoje ele se sente realizado com as mais de 500 intervenções de mudança de sexo que já realizou. E não só em seu centro privado. Hoje está à frente da Unidade de Transtornos de Gênero do Hospital Clínic de Barcelona. Suas mãos modelaram a vagina do primeiro menor transexual operado na Espanha, depois de receber autorização judicial.

El País: O senhor criou um precedente. Os protocolos devem ser modificados para permitir a mudança de sexo em menores?

Iván Mañero:
Creio que cada vez operaremos mais jovens. A sociedade está cada vez mais madura e há maior conhecimento. Mas, mesmo que a lei chegue a permiti-lo, em primeiro lugar deveria dar-se poder aos médicos para que possam estudar caso a caso e tomar a decisão. Se o diagnóstico é claro, o paciente tem a cabeça equilibrada e fisicamente está bem desenvolvido, devemos tomar a decisão para evitar que sofra por mais tempo que o necessário. É o caso de nossa paciente, que tem 16 anos.

El País: Sua paciente sofria uma disfonia de gênero. Pode nos explicar?

Mañero:
A transexualidade é um transtorno, tudo indica que se nasce com ele. Há uma discórdia entre gênero e sexo. Como gênero a pessoa se sente mulher, enquanto seus genitais são masculinos. E isso faz que sua vida não seja normal. Nós colocamos em acordo seu sexo com sua mente.

El País: Quando começam os conflitos entre sexo e mente?

Mañero:
Alguns pacientes lembram que com 5 ou 6 anos já tinham comportamentos como querer ser como a irmãzinha, querer fazer pipi como uma mulher. No caso de nossa paciente, desde os 4 anos se veste como menina. Há alguns anos usa maquiagem e roupas de mulher, que correspondem a como ela se sente.

El País: Qual foi a reação depois da operação?

Mañero:
Ao despertar depois da intervenção, muitas pacientes choram de alegria. Em poucas semanas sua vida é normal e querem esquecer o tempo passado. Nossa paciente estava em tratamento havia três anos. Tinha tentado se suicidar várias vezes. Fisicamente já era menina. De fato, depois da operação sua aparência não mudou. Obteve o órgão de que precisava para se sentir mulher em suas relações sociais e sexuais.

El País: Ela vai operar os seios ou retocar a face?

Mañero:
Isso é secundário. Se seguiu um tratamento hormonal desde jovem pode ter desenvolvido seios, com os quais se sinta à vontade. Também faz que seu desenvolvimento facial masculino não tenha avançado e seus traços sejam mais femininos ou infantis.

El País: Quanto tempo dura a operação?

Mañero:
Cerca de duas horas e meia. Mudou muito; a primeira que fiz em 1999 durou 14 horas. E os resultados são muito bons em nível fisiológico e psicológico.

El País: Não se dá importância demais aos genitais?

Mañero:
O ambiente religioso de nossa sociedade fez que os genitais sejam órgãos a se esconder.

El País: A sociedade compreende a transexualidade?

Mañero:
Durante muito tempo foi considerada algo marginal. O erro é não diferenciar entre gênero, sexo e orientação sexual. Gênero é como eu me sinto - homem ou mulher. Sexo é como são meus órgãos. E orientação, com quem quero manter relações. Pode haver um transexual homossexual, por exemplo. Hoje isso é melhor compreendido, mas ainda falta. Por exemplo, antes se falava em mudança de sexo. Hoje é reatribuição de sexo.

El País: O perfil de seus pacientes mudou?

Mañero:
Hoje nos procuram muito mais jovens, e vêm com o apoio da família. Estou tratando uma dezena de menores, o que não significa que vão passar por cirurgia. São controlados, recebem apoio, tratamento endócrino e se trabalha com as famílias para que compreendam seus comportamentos.

El País: Existem mais meninas presas em corpo de menino?

Mañero:
A proporção seria de 80% de meninas que não se correspondem com seu corpo de homem, e 20% que se sentem meninos, mas têm físico de mulher.

El País: O senhor deve se sentir orgulhoso por ser o primeiro na Espanha a operar um menor...

Mañero:
Não tem nenhum mérito. Tem mais mérito operar pacientes maiores de 55 anos, que também têm outras complicações de saúde. Tive um paciente de 57 anos, casado, com câncer de fígado. A única coisa que queria era ser mulher durante o tempo de vida que lhe restava. Viveu preso em seu corpo durante o franquismo, com o que isso representava.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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