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19/01/2010

Catástrofe no Haiti: 50 quilômetros para o inferno

El País
Antonio Jiménez Barca
Em Porto Príncipe
Na sexta-feira à noite, soldados dominicanos abriram a fronteira para que um ônibus de socorristas desse país atravessasse para ajudar os milhares de feridos no terremoto de Porto Príncipe. No lado haitiano da fronteira não havia ninguém. Também não havia eletricidade nos semáforos e em nenhum edifício. Somente uma estranha lâmpada pendurada de uma marquise graças a um gerador e que não iluminava nada nem ninguém.

Um país devastado

  • Caio Guatelli/Folha Imagem

    Vista aérea da cidade de Porto Principe mostra região atingida por terremoto de 7 graus

Pedro Sosa, um médico dominicano, comentou em voz alta, enquanto o ônibus se entrava por uma estrada escuríssima, que certamente todos os funcionários tinham fugido para Porto Príncipe para ajudar suas famílias.

Pouco depois desapareceu a cobertura dos telefones celulares. Fazia 20 quilômetros que o ônibus avançava para Porto Príncipe, transformada desde terça-feira em uma cidade arrasada e irreconhecível.

Às margens da estrada começaram a aparecer pessoas caminhando sem destino aparente. Nos povoados miseráveis que se cruzavam no caminho havia gente reunida em torno de uma mesa iluminada com uma vela, sentada nas cadeiras de plástico de um bar. Um casal de velhos jogava damas à luz de um círio enfiado em um balde para que iluminasse um pouco mais.

A 20 km da fronteira, isto é, a 30 de Porto Príncipe, apareceram os primeiros muros derrubados, os primeiros postes de luz inclinados. Circulavam muito poucos automóveis.

Às vezes, várias ambulâncias velozes dentro de um comboio com todas as luzes de emergência acesas passavam em direção ao hospital de Jimaní. Às vezes eram caminhonetes em frangalhos que transportavam na parte traseira feridos cobertos por lençóis. O motorista dirigia preocupado: a estrada, segundo se dizia, estava minada de bandidos armados dispostos a sequestrar carros de estrangeiros. Cada vez se viam mais casas demolidas, mais apartamentos afundados ou partidos pelo meio.

As pessoas, com a fachada em ruínas ou não, continuavam sentadas na calçada em suas cadeiras de plástico, à luz de velas, olhando para a estrada.

O ônibus ultrapassou o aeroporto, iluminado com poderosos refletores, e continuou diretamente para o centro da cidade nas trevas. Havia pessoas com máscaras e lanternas entrando pelas ruelas destruídas. Em uma praça, um monte de pneus queimava ao lado de um semáforo retorcido em um ângulo de 45 graus com o solo.

Os faróis do ônibus iluminaram subitamente uma esquina com centenas de pessoas deitadas na rua, desde crianças com máscaras abraçadas a suas mães a pessoas dormindo de medo que suas casas caíssem sobre elas ou sem medo de nada porque já haviam caído. Levantavam os olhos com a passagem extravagante de um ônibus a essa hora em que não se vê nada, como que se perguntando o que iria lhes acontecer.

Há contêineres derrubados, carros amassados com uma parede no capô, cabos pendurados como morcegos, homens que vendem nas esquinas pedaços de carne, de fruta ou bananas verdes.

Há um edifício de escritórios milagrosamente intacto com todas as luzes acesas: da rua se veem as poltronas reviradas e as gavetas abertas. Há jovens dormindo no teto dos carros, ruas com uma casa destruída e ao lado outra não, sem que se possa saber por quê. Há um acampamento de gente amontoada na rua atrás de um cartaz que diz em inglês "Precisamos de ajuda, comida e água". Há um supermercado em cinzas. Não há luz, mas os carros passam iluminando tudo com as buzinas à todo volume para não atropelar os que dormem na rua.

Há muita gente perambulando de um lado para outro, com o rosto coberto com lenços, como bandoleiros. Há um morto no meio da estrada envolto em sacolas de plástico e um cemitério sem o muro externo. E um edifício de vários andares arrasado que ficou com forma de mil-folhas.

Há também um hospital de campanha perto da base militar onde estacionou o ônibus dominicano de madrugada. Pedro Sosa, o médico, foi ajudar. Em uma mesa comprida há uma mulher e uma menina de 3 anos que chora: emite um gemido longo e constante a cada minuto, sem parar nem acelerar. Permaneceu três dias embaixo da terra, tem as costelas e o quadril quebrados e a mulher ao lado não é sua mãe, porque sua mãe morreu. Um enfermeiro lhe dá leite de um pacote com uma seringa e Sosa se coloca ao lado, convencido de que o inferno existe e de que chegou em um ônibus.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves


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