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20/01/2010

A segunda morte do general

El País
Miguel Ángel Bastenier
El País
A vitória nas eleições chilenas do liberal Sebastián Piñera contra o candidato da Concertação, o democrata-cristão Eduardo Frei, se presta a uma aritmética tão enganosa quanto convencional: cresce a direita e retrocede a esquerda na América Latina. Mas a alternância chilena tem provavelmente muito mais a ver com outro tipo de renovação da paisagem política.

Como escreve o professor Manuel Alcántara: "Aplicar o termo 'ciclo político' à América Latina reproduz a confusão habitual que se gera quando se vê a região como um todo homogêneo". Direita e esquerda existem, mas dentro de ambas as diferenças são tais, que colocar no mesmo capítulo Venezuela e Brasil porque ambos tenham governos nominalmente de esquerda é mais do que equivocado. Muito mais racional seria falar de nações com instituições democráticas consolidadas ou não consolidadas.
  • Reuters

    O candidato de direita Sebastián Piñera, eleito novo presidente do Chile. O bilionário desbancou 20 anos de governo de esquerda no país e gerou crise entre os membros da união de esquerda

O Chile, embora funcione como uma democracia plenamente consolidada, tinha até o domingo uma nota de rodapé limitadora: apesar de o general golpista Augusto Pinochet estar morto física e politicamente há algum tempo, não se podia dizer o mesmo do pinochetismo eleitoral. Este pode ser, em troca, o grande "presunto" das presidenciais de domingo.

O triunfo de Piñera, que havia votado "não" no referendo de 1989 contra o sombrio militar, envolve uma mudança tão simbólica quanto necessária, mas não na passagem clássica de esquerda para direita ou vice-versa, porque o que une Piñera a Frei é muito mais do que os separa. É aí que reside a continuidade básica.

A novidade deve ser buscada na personalidade do próprio candidato: homem de negócios de sucesso, nº 701 na lista dos mais ricos do mundo da "Forbes", proprietário do clube de futebol Colo-Colo, um verdadeiro Berlusconi, mas de bem com a justiça e dotado de qualidades que seduziram a maioria dos chilenos, os quais, ainda que agradecendo à Concertação os serviços prestados nos últimos 20 anos, talvez estivessem cansados de um governo que precisava estar permanentemente calibrando cotas de poder entre a esquerda-esquerda; a não-tão-esquerda; e o centro, principais forças que integravam a coalizão.

A derrota de Pinochet na consulta de 1989 frustrou seus planos de suceder a si próprio, mas não o liquidou politicamente de vez. Sua sombra ampliada continuou se projetando sobre o país, limitando, ameaçando, atemorizando. É verdade que essa ameaça foi se esvaindo como a própria vida, e o Chile chegou à democracia sem adjetivos muito antes que o general morresse, mas o pinochetismo antropológico não poderia desaparecer tão facilmente; o juiz Baltasar Garzón o quis arrematar em 1998, julgando-o na Espanha, quando o ex-ditador estava fazendo compras em Londres, mas as autoridades judiciais britânicas inventaram circunstâncias extenuantes para que ele escapasse à justiça. E só por isso essa aparente "piñerização" democrática de grande parte da direita chilena vem a constituir a segunda e definitiva morte do ditador.

No Chile, perfilam-se assim hoje duas novas forças políticas: a do socialista dissidente Marco Enríquez Ominami, conhecido como "Me-O", que obteve 20% dos votos no primeiro turno; e o "piñerismo" pós-pinochetista. Ominami disse que vai formar um novo partido. Para dar o golpe de graça na Concertação, ou negociar com ela de poder para poder? Cabe reinventar a coalizão planejada por Ricardo Lagos e José Miguel Insulza com os dois Frei, pai e filho, ou o futuro pertence a um bipartidarismo de social-democracia reconstruída e direita moderna?

O historiador Alfredo Jocelyn-Holt afirma que o Chile, além de colocar a interrogação de a que terceira via pertencia o general, provavelmente se refletia na formação das duas grandes coalizões, que eram necessárias para dotar da maior base possível de acordo a adoção de uma democracia plena. Mas a vitória de Piñera, eleito sem ranços do passado, parece deixar a todos em liberdade para buscar de novo seu lugar.

É o que Hernando Soto chama de "a gaseificação do voto", uma dispersão que desenha um panorama muito mais complexo de "Me-oistas" e socialistas da Concertação, unidos ou desunidos, por um lado; piñeristas liberados de Pinochet, por outro; a democracia-cristã como direita da esquerda e esquerda da direita buscando a vida; e outros partidos menores nos dois extremos do espectro eleitoral. Todos podem defender sua sorte separadamente. E essa estupenda confusão foi armada por um presidente-eleito chamado Sebastián Piñera.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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