UOL Notícias Internacional
 

20/01/2010

Fim do idílio: o primeiro ano do governo Obama

El País
Antonio Caño
Ao se completar um ano da presidência Obama, a excitação se diluiu e prevalece um sentimento de oportunidade perdida. Mas o saldo de sua gestão é favorável: os EUA estão em melhor situação hoje do que em janeiro de 2009, e o novo governo recuperou prestígio e autoridade

Toda explosão de paixão, individual ou coletiva, termina na saudade, frequentemente na decepção e, tudo o mais, na calma.

O caso de Barack Obama não é diferente. Sua vitória eleitoral provocou uma maré de entusiasmo poucas vezes vista. Depositaram-se nele expectativas sobre-humanas, impossíveis de satisfazer. Consideraram-no capaz de uma mudança, como quer que cada um a entenda, que equivaleria ao renascimento de nossa sociedade hipócrita e desmoralizada. Atribuíram-lhe poderes especiais e esperava-se que de sua poltrona no Salão Oval emitisse o sinal de que a humanidade precisava para a salvação. Este país religioso, que em cada presidente acredita ver a chegada do Messias, alcançou o paroxismo com Obama, e o mundo, ansioso por liderança e farto de George Bush, se contaminou sem reservas.

Passado o tempo, ao completar-se um ano de sua posse como presidente dos EUA, essa excitação se esfumou e o sentimento que hoje prevalece é o de uma oportunidade perdida.

  • Molly Riley/Reuters - 20.jan.2009

    Recém-empossado, Barack Obama é aplaudido após assinar primeiro ato de seu governo



O antigo fervor sobrevive apenas em alguns grupos de fiéis entre a comunidade afro-americana. Os cartazes com seu rosto, que um dia tiveram alta cotação nas melhores galerias do país, hoje são material de liquidação em lojas para turistas. Sua biografia deixou de dominar as estantes das livrarias, onde hoje arrasa a memória infeliz de Sarah Palin.

A direita recuperou a iniciativa política, os conservadores voltam a ser o grupo ideológico majoritário no país e o Partido Republicano é o favorito para conseguir a maioria parlamentar nas próximas eleições. A tentativa de bipartidarismo naufragou diante da primeira onda, o clima político continua sendo dolorosamente áspero e os cidadãos mais uma vez refletem majoritariamente nas pesquisas seu pessimismo sobre o rumo em que caminha o país.

Esse panorama não é, entretanto, o resultado necessário da má gestão de Barack Obama. O saldo de seu primeiro ano é, paradoxalmente, bastante favorável. Os EUA estão em melhor situação hoje do que em janeiro de 2009 e, embora algumas das causas de tensão mundial subsistam, o novo governo recuperou prestígio e autoridade para desenvolver sua política externa com o apoio internacional conveniente.

Na ordem interna, a ameaça de colapso que pairava sobre a economia americana desapareceu. O sistema financeiro se recuperou. Os bancos devolveram, na maior parte, o dinheiro que o Estado lhes entregou para sua salvação e hoje voltam a fazer negócios. As empresas vão se recuperando pouco a pouco da letargia, inclusive a deteriorada indústria do automóvel, que com a ajuda do governo começou a reestruturação de que precisava e já apresenta lucros. A Bolsa sobe como reflexo das previsões otimistas que, embora de forma moderada, os analistas emitem. Inclusive aceitando que o plano de estímulo de cerca de US$ 800 bilhões aprovado em fevereiro passado não tenha tido um impacto decisivo na melhora da situação, o governo merece uma parte do crédito pelo que foi conseguido.

No âmbito internacional, essencialmente rompeu-se o isolamento em que os EUA haviam caído durante a administração anterior e se estabeleceram as bases para a cooperação com a Rússia e com a China e para um melhor entendimento com a UE sobre o Irã e o Oriente Médio. Eliminou-se o maniqueísmo que sobrecarregava a guerra contra o terrorismo e fortaleceram-se os argumentos americanos com a abolição das medidas que turvavam seu sistema democrático.

Em condições normais, este balanço seria suficiente para reconhecer uma boa atuação. Mas não é assim. Obama perdeu mais de 20 pontos de popularidade nestes 12 meses e baixou inclusive de 50% de aprovação em uma pesquisa da rede CBS esta semana. De todos os ângulos da cena política dispara-se contra ele. A direita o acusa de ter socializado a economia do país, a esquerda o critica pela guerra do Afeganistão e por ainda não ter conseguido fechar Guantánamo, e os independentes estão decepcionados com a exacerbação da luta partidária.

Cada um pode encontrar um assunto no qual Obama lhe falhou, embora estes sejam às vezes contraditórios. Onde os conservadores veem a prova de que o país se precipita para o comunismo, os liberais observam o exemplo de que Obama se entregou aos grandes interesses de sempre. De um extremo ao outro, o estado de opinião se radicaliza por minutos em meios de comunicação cada dia mais expostos à precipitação e à superficialidade.

É o que Paul Starr, professor de sociologia na Universidade Princeton, chama de "governar na era da Fox News", a rede de televisão conservadora. "Quando Walter Cronkite é substituído por Glenn Beck [o ultra titã da Fox] e Keith Olbermann [seu equivalente esquerdista na MSNBC], a liderança política perde um sócio imprescindível na construção do consenso. Esse é o problema que Obama enfrenta", afirma Starr.

O longo debate sobre a reforma da saúde é o paradigma do que aconteceu este ano. Ainda pendente de ratificação pela comissão mista Senado-Câmara de Deputados, não é exagero dizer que inclusive a versão mais modesta dessa lei constitui um passo de gigante para o sistema de saúde dos EUA. A garantia de um seguro-saúde para mais de 30 milhões de pessoas que hoje não o têm por carecer dos recursos para pagá-lo ou por sofrer doenças crônicas que as tornam inadmissíveis para as companhias, representa um feito extraordinário. Jonathan Cohn, o especialista da revista "New Republic", considera esta "a peça legislativa mais importante em uma geração". É um sucesso que, como ocorreu em sua época com a Seguridade Social ou com os direitos civis, deveria estar fora de qualquer discussão.

  • AFP - 20.jan.2009

    Michelle e Barack Obama acenam. Depois de um dia cheio, o presidente dos Estados Unidos
    e a primeira-dama deram um giro por 10 bailes inaugurais oficiais na capital americana



No entanto, não é assim. O debate sobre a reforma da saúde, provavelmente mal dirigido pela Casa Branca e toscamente manipulado pela oposição, é a batalha na qual se forjaram os piores estereótipos sobre Obama e na qual este perdeu a maior parte de seu crédito. Se agora, quando o mais difícil desse debate passou, não forem corrigidas as impressões criadas, essa iniciativa pode acabar sendo, como adverte a escritora e colunista Peggy Noonan, "uma vitória desastrosa".

Na opinião de Noonan, Obama cometeu um erro ao priorizar a aprovação da reforma da saúde em um momento em que a preocupação do público estava centrada exclusivamente na falta de postos de trabalho. Seja ou não assim, o certo é que atualmente só 36% da população, segundo a pesquisa da CBS, apoiam essa legislação, contra 54% que a rejeitam.

Para a direita, essa iniciativa é o exemplo do modelo de economia centralizada e intervencionista, no estilo socialista, que o presidente quer impor. Para a esquerda, a lei aprovada no dia de Natal pelo Senado é o auge de uma política entreguista por parte de Obama e uma traição à mudança prometida. Arianna Huffington, um dos emblemas progressistas do país, disse que se trata de "uma reforma só no nome". O ex-presidente do Partido Democrata e ex-candidato presidencial Howard Dean pediu aos congressistas que votem contra. Ralph Nader chegou a considerá-la "um produto de Tio Tom".

Todos eles passam por cima dos méritos de uma legislação que, segundo o cálculo feito por Harold Pollack, professor da Universidade de Chicago, entregará todo ano subsídios para ajudar as famílias a pagar seu seguro-saúde no valor de US$ 196 bilhões, que é mais do que o Estado aporta atualmente em todos os seus programas de assistência social.

Talvez toda essa discrepância entre os fatos e as percepções sejam consequências da excitação em meio à qual Obama assumiu a presidência. Talvez Obama esteja simplesmente sendo vítima da paixão que ele mesmo gerou. Certamente, a mesma energia que o levou à Casa Branca serviu para revitalizar contra ele as bases conservadoras que hoje se agitam com sucesso entre a América profunda com as chamadas "tea parties". Sobre esse movimento, Palin e seu grupo do Partido Republicano estão construindo a estratégia para reconquistar o poder.

Se for assim, se os EUA vivem sob o ofuscamento próprio da paixão, o julgamento sobre a presidência de Obama poderia ser mais ponderado com o passar do tempo. Um ano, em todo caso, não é suficiente para qualificar uma gestão de governo. É um prazo, como o dos cem dias, útil para os jornalistas, mas, como afirma David Greenberg, professor da Universidade Rutgers, insuficiente para os historiadores. "Nenhum dos presidentes que serviram de modelo para Obama - Lincoln, Roosevelt ou Kennedy - conseguiu em seu primeiro ano definir a direção de sua presidência. As mudanças não ocorrem da noite para o dia", afirma Greenberg.

As mudanças, indicam diversas fontes no entorno de Obama, começarão a ser notadas a partir de agora, quando diminuir o atrito pela questão da saúde, quando a maior criação de emprego aliviar a angústia da população e, sobretudo, quando se reduzir a expectativa de resultados imediatos.

Barack Obama toma posse e anuncia
nova era de responsabilidade

Então será o momento de conhecer de verdade que tipo de presidente é Obama. Até agora a poeira levantada pelo impacto de sua eleição não permitiu ver com clareza o fundo de sua personalidade e de seus recursos como governante. Alguns indícios surgiram, no entanto.

O primeiro: é um homem muito reflexivo. Por exemplo, demorou meses para tomar a decisão de reforçar com 30 mil soldados a campanha no Afeganistão. E prudente. Manteve um difícil equilíbrio entre a pressão popular contra Wall Street e a necessidade de proteger o sistema financeiro. "Em contraste com a geração do Twitter que apoiou sua campanha, ele não crê que sua primeira ideia seja a melhor. Tem uma preferência acadêmica pela precaução", opina a jornalista e editora Tina Brown.

Este primeiro ano também revelou um político essencialmente pragmático, que crê que o melhor sucesso é aquele que é possível obter. "Não transformemos o melhor em inimigo do bom" é uma frase que Obama repetiu na polêmica da saúde, na cúpula do clima ou nas negociações entre israelenses e palestinos. "Não é uma figura de argila ideológica, é um personagem que prefere fazer coisas e deixar que os outros modelem sua imagem. Não porque não seja bom nisso, é que, em um universo político de ideólogos vociferantes, ele carece tanto da ideologia quanto do instinto para enfrentá-los", opina o colunista Richard Cohen.

Por isso a esquerda se sente tão decepcionada com um presidente que, apesar do fracasso do bipartidarismo, se nega a governar contra a metade do país. E por isso a direita teve de recorrer a seus argumentos mais baixos e pueris, o do racismo e o da ameaça bolchevique, para tentar neutralizar um presidente imbatível no intercâmbio civilizado de ideias.

Talvez, como sugerem alguns dos obamólogos emergentes, Obama seja civilizado demais para o cargo que ocupa. Talvez seu estilo didático e suas qualidades oratórias, fabulosas para uma campanha eleitoral, não combinem com as exigências de seu terrível cargo.

Talvez. Mas é mais certo que o perfil de uma presidência vá sendo moldado com o exercício do poder. Como disse o próprio Obama em 2006, "não creio que alguém saiba o que é ser presidente até que se é presidente". Ou, como afirma o professor Greenberg, "as verdadeiras conquistas de uma presidência ocorrem quando é preciso combater contra ventos tempestuosos de frente".

Hoje sopram esses ventos. Soprarão ainda mais fortes nas eleições legislativas de novembro. Esses ventos medirão a integridade dessa figura esbelta que cativou o mundo. Esses ventos, que já levaram a paixão provocada nas ruas em 20 de janeiro de 2009, provarão agora se Obama é o presidente transformador que a história americana produz uma vez em cada geração, ou uma efêmera figura do YouTube.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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