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21/01/2010

Por que o Haiti é tão pobre?

El País
Luis Prados
As catástrofes naturais, tão frequentes neste início de século - tsunami no Índico em 2004, terremotos na Caxemira em 2005, em Sichuan em 2008, o recente em Sumatra e agora no Haiti -, ocorridas em países pobres ou em desenvolvimento costumam fazer com que a explicação física do desastre também sirva para justificar as causas da pobreza da região afetada. O castigo de Deus se desataria sobre os mais frágeis, habitantes de terras de natureza impossível.

O Haiti, concretamente, tem algumas desvantagens físicas em relação a sua vizinha, a República Dominicana: menos chuvas, solo mais pobre, os rios das montanhas dominicanas correm na maioria para o leste... No entanto, os dois países, como escreve Jared Diamond em seu extraordinário livro "Colapso - Como as sociedades escolhem fracassar ou sobreviver", são o antídoto perfeito para o determinismo geográfico, o melhor exemplo de que são as sociedades que decidem o destino de um país.

  • Ruth Fremson/The New York Times

    Pessoas recebem garrafas de água distribuídas por um grupo da República Dominicana



Vejamos um pouco a história. Quando Colombo chega a La Española em 1492, calcula-se que habitavam a ilha 500 mil nativos, os tainos. Para sua desgraça, tinham ouro. Em 1519 restavam apenas cerca de 11 mil. A Espanha teve de importar mão-de-obra escrava, mas logo encontrou lugares de maior interesse no continente americano.

A negligência espanhola levou à ocupação francesa do terço ocidental da ilha no final do século 17. O cultivo intenso da cana de açúcar, acompanhado de um desmatamento selvagem e da perda de fertilidade do solo, transformou o Haiti na colônia mais produtiva da França em 1785. Então, sua população escrava chegava a 700 mil pessoas, 85% do total, contra os 30 mil na parte da ilha que continuava sendo espanhola.

A rebelião dos escravos haitianos e a constituição da primeira república negra, em janeiro de 1804, horrorizou o Ocidente branco. As novas autoridades haitianas legislaram para que nunca se repetisse a tragédia da escravidão: não haveria mais monoculturas, e sim pequenas parcelas de terra para subsistência de cada família, e se proibiu o estabelecimento e os investimentos de estrangeiros.

O autoisolamento se uniu à exclusão. O Haiti era a encarnação do pior pesadelo do colonialismo branco. Como diz Ian Thomson, autor de "Bonjour Blanc, a Journey Through Haiti", "pensava-se que os haitianos fossem incapazes de governar a si mesmos porque eram negros. Logo, era preciso provar que eram ingovernáveis". Os EUA, por exemplo, só reconheceram a independência do Haiti em 1862, em plena guerra civil. Apesar de tudo, a pequena república era muito mais rica que sua vizinha, a qual invadiu em várias ocasiões no século 19. No entanto, a República Dominicana contava com algumas vantagens: não estava superpovoada, seus habitantes falavam espanhol e não "créole" e eram de origem europeia, recebiam bem os homens de negócios estrangeiros e desenvolveram uma economia de exportação.

Os países sofreram instabilidade política e administrações atrozes - no Haiti, de 22 presidentes entre 1843 e 1915, 21 foram assassinados ou expulsos do poder; na República Dominicana, entre 1844 e 1930 houve 50 trocas de presidente - e a ocupação durante várias décadas pelos EUA. E depois o despotismo do clã Duvalier e do clã Trujillo. Duas ditaduras cleptomaníacas cujas sequelas ainda se podem sentir. Não há maldição geográfica. A sorte do Haiti foi decidida muito antes do terremoto da semana passada.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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