UOL Notícias Internacional
 

21/01/2010

Desespero embaixo da colcha no Haiti

El País
A. Jiménez Barca
Enviado especial a Porto Príncipe
100 mil pessoas sobrevivem sem nada nos acampamentos desorganizados que surgiram em Porto Príncipe

A senhora sai de baixo da colcha armada em quatro galhos que lhe serve de moradia, vê o estrangeiro e diz: "Me chamo Shomy Paul, tenho 38 anos, dois filhos vivos comigo e outros dois mortos que, junto com meu marido, também morto, continuam presos na casa. Mas não encontro ninguém que me ajude a tirá-los. Obrigada". A senhora fica satisfeita e volta para a sombra miserável da colcha e se agacha em uma esquina, como se contar a sua desgraça a alguém estranho e impotente lhe servisse para alguma coisa.

No acampamento improvisado de barracas denominado Nancharles, em Porto Príncipe, cada um de seus cerca de 6.000 habitantes possui uma história parecida ou pior. A Cruz Vermelha calcula que cerca de 100 mil pessoas sobrevivem agora em algum desses assentamentos levantados de um dia para o outro, povoados por gente sem casa e sem nada, distribuída em solares, montículos sem nome, fábricas abandonadas, praças centrais ou nos mesmos jardins de membros desaparecidos do governo haitiano.

  • Ruth Fremson/The New York Times

    Pessoas recebem garrafas de água distribuídas por um grupo da República Dominicana



Na entrada de Nancharles há um sujeito agarrado a um caderno de espiral. Anota as famílias que chegam: cada sobrenome, uma linha, especificando o número de filhos. Ao lado, Casandra, uma menina de 10 anos, mostra uma espécie de tíquete de metrô que de um lado apresenta um sobrenome escrito a lápis e do outro diz em inglês "Valid one". É o papel que permitirá que sua família receba comida quando chegar. A mãe a encarregou de ficar na entrada para ser a primeira da fila. Para não perder a ajuda.

Você tem irmãos?

Dois, menores.

Vai ao colégio?

Há muito tempo que não.

E seu pai?

Foi embora faz anos.

Você tem casa?

Desabou no terremoto.

O que você quer ser quando crescer?

Médica.

Dentro do acampamento, ouvem-se sobretudo frases angustiadas e obsessivas relacionadas à precária burocracia da organização caótica: "Dizem que não estou na lista! Que não tenho o tíquete!"

Uma senhora comprova no famoso caderno que efetivamente está anotada e depois explica que tem dois filhos, que seu marido saiu de casa na terça-feira do terremoto sem dizer aonde ia e não voltou. Sua casa desmoronou. O inventário de sua "casa" (de tudo o que tem) é o seguinte: quatro colchas que servem de paredes, três sacolas com roupas, duas panelas e três garrafas de água.

De repente aparecem membros da Cruz Vermelha haitiana e belga que pedem que se faça uma fila de um representante por família, de preferência mulheres. Trabalhosamente, centenas de haitianas formam a fila. Depois avançam uma a uma. "Pedimos que sejam mulheres porque são mais responsáveis e cuidam de seus filhos. É uma maneira de garantir que a ajuda chegará aos mais frágeis", explica Valérie Batselaere, da Cruz Vermelha belga. "O fato de fazerem fila corresponde a que deve haver uma ordem. A ordem vem antes da entrega", acrescenta.

A primeira mulher agarra a primeira caixa e compreende rapidamente que não há comida dentro: uma manta, uma tenda para se proteger da chuva, utensílios de higiene pessoal, um jogo de panelas...

E a comida? Um homem que limpa o mato de uma esquina no acampamento, que perdeu seu filho e sua casa, pergunta o mesmo sem parar de roçar: "E a comida?" "A comida chegará logo", afirma uma responsável da Cruz Vermelha haitiana.

Uma senhora cozinha um arroz com vagens em uma panela enorme. Em um espaço de 40 metros quadrados vivem 71 pessoas da mesma família. Faz muito calor lá dentro. Em uma esquina, uma mulher idosa se lava com uma caneca. Há um engraxate que sai todos os dias para buscar trabalho e volta sem um centavo porque, evidentemente, ninguém no Haiti pode se limpar da poeira. Há um pedreiro especialista em telhados que ficou sem trabalho em uma cidade cheia de casas que parecem bolinhos achatados com um golpe da mão.

Ninguém sabe nem calculou quantos dias, meses ou anos deverá permanecer esse exército composto de pessoas com a vida partida pela metade, pedindo tíquetes e fazendo filas, vivendo da caridade internacional.

Casandra continua na entrada. Uma jovem jornalista aparece montada em uma moto. A menina sorri assombrada e dá uma cotovelada de admiração em uma amiga.

Por que está rindo?

Porque é uma mulher. Branca.

Gosta dela?

Sim.

Por quê?

Porque é bonita.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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