UOL Notícias Internacional
 

22/01/2010

Obama não pode em Massachusetts

El País
Carlos Mendo
O voto em Massachusetts deve ser interpretado como um referendo, e não só sobre a reforma da saúde

Pelo menos em Massachusetts, Barack Obama não pôde. E segundo seu porta-voz, Robert Gibbs, o presidente sente-se "frustrado". Não é para menos. Em um dos resultados mais surpreendentes no cenário político americano, um desconhecido senador estadual, Scott P. Brown, conseguiu derrotar a candidata democrata e secretária da Justiça do estado, Martha Coakley, e arrebatar dos democratas, contra todos os prognósticos, o assento no Senado de Washington do patriarca da família Kennedy, Edward, que o ocupou ininterruptamente desde 1962 até sua morte, no ano passado.

A eleição de Brown sacudiu como um terremoto os cimentos do Partido Democrata. E não só pela tradição liberal de um Estado onde os democratas registrados superam em uma proporção de 2 para 1 os republicanos, e onde as duas Câmaras legislativas estaduais e o gabinete do governador estão em mãos democratas. E, como se o anterior fosse pouco, onde a direção do partido se empenhou no apoio a sua candidatura a ponto de o casal Obama se apresentar no último domingo para acompanhar Martha Coakley em um ato eleitoral.

  • Robert Spencer/AFP

    O senador republicano Scott Brown foi anunciado na madrugada desta quarta-feira(20) com o grande vencedor das eleições distritais de Massachusetts, em Boston, nos Estados Unidos. O candidato derrotou a democrata Martha Coakley, que era apoiada pelo presidente norte-americano Barack Obama. Com a derrota da democrata, Obama perde a supermaioria de cadeiras no Senado dos EUA e pode ter dificuldade de aprovar as reformas que prometeu



A eleição de terça-feira foi crucial em escala nacional, porque uma vitória republicana representaria para os democratas a perda do número mágico de 60 senadores de um total de 100, necessário para evitar o que no jargão legislativo americano se conhece como "filibustering" [obstrucionismo]. Sem esses 60 votos nenhum projeto de lei pode ser enviado ao plenário da Câmara alta para discussão, mesmo que tenha sido aprovado em comissão.

Foi exatamente o que aconteceu. Scott Brown, que representará seu estado em Washington junto com o peso-pesado democrata John Kerry, se transforma no senador republicano número 41 e tira dos democratas essa supermaioria qualificada de 60, vital para levar adiante qualquer projeto legislativo, incluindo a reforma do sistema de saúde, considerada pelo presidente Obama a estrela de sua política interna.

Precisamente, o flamejante senador transformou a oposição à reforma da saúde de Obama no prato forte de sua campanha, uma oposição que lhe proporcionou uma convincente vitória por 5 pontos - 52% a 47% - contra sua adversária democrata. Considerações políticas à parte, os eleitores de Massachusetts não perdoaram à senhora Coakley sua gafe monumental ao confundir uma figura legendária da equipe de beisebol Red Sox de Boston, Curt Schilling, com um jogador dos Yankees de Nova York, o eterno rival do time local.

O resultado de terça-feira em Massachusetts não constitui só uma rejeição à reforma da saúde em nível federal proposta por Obama. Afinal, se essa reforma fosse em frente, afetaria muito pouco os habitantes do estado, que já conta em nível estadual com um sistema de proteção à saúde muito parecido com o que o presidente patrocina, sistema implantado pelo então governador republicano Mitt Romney. Deve-se considerá-la como um plebiscito sobre a forma de governar de Obama.

Como reconheceu o senador democrata Jim Webb, da Virgínia, o voto de Massachusetts deve ser interpretado como "um referendo não só sobre a reforma da saúde, mas sobre a integridade do processo político" vigente em Washington. Uma reforma rejeitada por 53% da população em nível nacional não porque os americanos se opõem a ter um sistema de saúde melhor, mas porque se aterrorizam com o custo de um plano - US$ 975 bilhões em dez anos - que, apesar das promessas presidenciais, eles temem que se traduza em um aumento de impostos e da dívida pública já disparada.

Dois tabus para uma população com uma forte consciência fiscal, obcecada pelo destino que os governantes dão a seu dinheiro e que não consegue compreender como, em meio à pior crise que o país sofre desde a Depressão, a prioridade presidencial seja a reforma de um sistema de saúde que já cobre 85% da população, em vez de dedicar suas energias à geração de empregos, de longe a maior preocupação dos cidadãos.

A perda do assento senatorial de Massachusetts soma-se a duas outras derrotas democratas também inesperadas: os governos dos Estados chaves de Nova Jersey e Virgínia, perdidos em novembro passado. Não são boas notícias nem para Obama nem para os parlamentares democratas, que terão de defender seus lugares em novembro quando o Congresso se renova.

É cedo para julgar uma presidência de quatro anos. Mas há meses a fortuna não acompanha as políticas de Obama, nem no interior nem no exterior. Esperemos que, como Mark Twain em sua famosa carta a um jornal, ele possa dizer dentro em breve que "as notícias sobre meu falecimento (neste caso político) são exageradas".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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